Seleção do Afeganistão foi à Nazaré ver o mar pela primeira vez (fotogaleria)

FUTEBOL 14-10-21 8:55
Por Bruno Henriques

A voz não se levanta muito, o inglês é tímido, mas não se escusam a nenhuma pergunta. E, com maior ou menor dificuldade, lá se fazem entender. O olhar, esse, é que não se desvia das ondas que vão rebentado no areal da Praia do Norte, na Nazaré, intercalado com um esgar de surpresa e um «é tão bonito» partilhado com a pessoa próxima.

Têm entre 15 e 25 anos, trocaram de continente e estão a ver pela primeira vez o mar, não escondendo o entusiasmo juvenil de quem já deixou para trás as memórias de uma guerra que lhes foi imposta. A única preocupação, agora, é evitar que a água não lhes molhe os ténis ou as calças de ganga desajeitadamente dobradas para cima, num toca-e-foge constante com a maré que vai comendo o areal consoante a força dos vagalhões. Gravam todos os momentos, tiram selfies, procuram os melhores ângulos e nem os jornalistas escaparam a alguns pedidos para fotografias.

Quem por ali passa olha, curioso, para toda aquela alegria. Nada as identifica. Não têm fatos-de-treino com emblemas e nomes nas costas, mas basta perguntar-lhes quem são que elas não hesitam e a resposta surge na ponta da língua: «Sou jogadora da seleção do Afeganistão!»

Chegaram a Portugal no dia 19 de setembro, quase um mês depois da queda do governo de Cabul, e esperam agora pela confirmação do pedido de asilo que lhes garanta uma segunda oportunidade para refazer a vida com as famílias. São todas diferentes (umas utilizam hijab, outras boné; umas têm calças de ganga e ténis, outras aproveitam o calor que se faz sentir para levar umas sandálias a combinar com os jeans), com ideias de carreira distintas (há aspirantes a médicas, engenheiras e até uma realizadora de cinema), mas todas têm o mesmo sonho: jogar futebol.

«Quero ser uma jogadora conhecida em todo mundo, e uma boa doutora também», explicou a A BOLA Fisthail Qasime, jovem avançada de 16 de quem se diz ser goleadora.

«Gostava de ser uma engenheira, mas queria muito continuar com o futebol e ser uma boa defesa», frisou Parisa Amir, de 17 anos.

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Mais do que a roupa e os objetos pessoais que trouxeram na bagagem com que aterraram em Lisboa, trouxeram sonhos que não deixaram enterrados no cemitério dos impérios. E que continuam a alimentar a alegria destas jogadoras.

Fotos: André Alves/ASF 

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