O olimpismo: entre a filosofia e a religião (artigo de Vítor Rosa, 128)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 14-10-20 12:25
Por Vítor Rosa

Vários autores (James Mangan, Peter Mac Intosh, Richard Holt, Jean-Marie Brohm, por exemplo), já demonstraram que o nascimento do desporto moderno na Inglaterra vitoriana não poderá ser dissociado das questões económicas e políticas da época. Quando reafirmam a ligação explícita entre o desporto moderno e a ideia de progresso, estão, no fundo, a referir que o desporto, desde a sua origem, é um facto social total. O maquiavelismo de Pierre de Coubertin, que faz dele o “reitor” do olimpismo moderno, reside na faculdade de saber o pragmatismo das instituições dos pedagogos anglicanos do fim do século XIX e as reminiscências da cultura helénica desta época. Na sua origem, o desporto britânico estava despido do humanismo explícito e menos ainda helénico. Em 1883, quando se recolhe junto do túmulo do reverendo e educador Thomas Arnold (1795-1842), diretor da Rugby School (1828-1841), o barão Pierre de Coubertin confessará que rendia homenagem à “pedra angular do império britânico”, ou seja, o sistema educativo inglês, que sem ajuda de muitos anglicanos, nunca teria ensinado aos membros da sociedade britânica a crer em Deus e a jogar ao futebol. De facto, Pierre de Coubertin descobre em Inglaterra o que faltava, segundo ele, à sociedade francesa. E o que faltava? Faltavam os valores morais associados às qualidades físicas. Desta forma, músculos e inteligência deveriam andar de par, contrariamente às escolhas das universidades francesas. Segundo o jovem observador (ele tem vinte anos quando realiza a sua primeira viagem a Inglaterra), o desporto britânico apresentava muitas virtudes e convinha ensinar as futuras gerações. Ao criar o conceito de olimpismo, Pierre de Coubertin defende um conjunto de valores que têm um carácter elitista, religioso e universal. Neste quadro preciso, as noções de democracia e de liberdade rimam com a promoção do homem do ponto de vista corporal, intelectual, estético e moral. A segunda fonte de inspiração de Coubertin é a Antiguidade Grega, com a sua visão mítica de uma educação harmoniosa que desenvolvia o espírito e o corpo. A influência é manifesta com a transformação da célebre devisa de Juvénal: “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são) em “mens fervida in corpore lacertoso” (um espírito ardente num corpo treinado). Coubertin fala de uma religião atlética. E, para ele, o olimpismo é a base de uma educação desportiva generalizada, que deveria ser acessível a todos. Numa mensagem radiofónica, difundida em 1936 (cf. https://www.ina.fr/audio/PH106001133), não hesitou em lembrar longamente as características essenciais do olimpismo. O desporto oferecia a ocasião de religar os homens em novas bases ideológicas. O humanismo de Coubertin pode ser qualificado de utopista. Prisioneiro do seu “habitus de classe”, ele funda o olimpismo sobre uma conceção muito particular de democracia. E teve sempre a preocupação de inscrever o desporto na evolução das relações internacionais.

Vítor RosaSociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa