Iker na Santíssima Trindade (artigo de José Manuel Delgado)

CRÓNICAS DE UM MUNDO NOVO 02-07-20 3:25
Por José Manuel Delgado

Iker Casillas assumiu o fim da carreira. Para um dos maiores guarda-redes da História, o futebol tem apenas duas palavras: «gracias», pelos 725 jogos pelo Real Madrid e pelas 167 internacionalizações por Espanha, e «obrigado», pelas 156 partidas que disputou de dragão ao peito, emprestando a sua visibilidade planetária à Liga portuguesa. Em tempos, como aqueles que vivemos, em que a clubite no nosso país é mais estúpida, mas sectária e mais redutora do que em qualquer outra era, há que dizer que Iker Casillas, campeão com o FC Porto merece todo o respeito, consideração e agradecimento dos adeptos lusos. Casillas deu-nos mais do que levou, emprestou à nossa Liga um prestígio de ‘ganhador de tudo’ e vai integrar uma Santíssima Trindade de guarda-redes estrangeiros que marcaram o futebol português, ao lado de Michel Preud’Homme e Peter Schmeichel.

Dos três, Preud’Homme foi o que teve mais azar por ter-se cruzado com um Benfica de escassa capacidade competitiva, que o impediu de conquistar os títulos que a sua classe pura mais do que justificava. Mas o fora-de-série belga pode orgulhar-se da imagem que deixou na Luz, e o Benfica, clube de Manuel Galrinho Bento (e de José Bastos, Costa Pereira e Zé Gato…), também pode incluir Preud’Homme na galeria dos monstros que defenderam a sua baliza, uma dinastia que começou com Manuel Mora, o primeiro guarda-redes do Sport Lisboa, no jogo de estreia, a 1 de janeiro de 1905, numa vitória por 1-0 sobre o Campo de Ourique. Peter Schmeichel, nascido para vencer, foi decisivo no regresso do Sporting à condição de campeão nacional, colocando ponto final num jejum de 18 anos dos leões. O ‘Grand Danois’ chegou a Alvalade com a coroa de campeão europeu, depois da vitória épica, em Barcelona, do Manchester United sobre o Bayern a 26 de maio de 1999, e deixou uma marca de classe, com aquele estilo inconfundível que começámos a apreciar especialmente a partir da vitória da Dinamarca no Europeu de 1992, na Suécia. Nas várias interações que tive, como jornalista, com Schmeichel, uma foi especialmente marcante. A meio de uma entrevista, o gigante dinamarquês, mais novo seis anos do que eu, surpreendeu-me com esta memória: «Tu não deves lembrar-te, mas eu joguei contra ti…» perante a minha surpresa, Schmeichel foi ao detalhe: «Eu estava no Hvidrove, fizemos um estágio em Portugal e defrontámos uma equipa do Benfica, na Luz, antes de vocês partirem para um jogo da Champions, em Liverpool e tu eras o guarda-redes.» Perante a minha cara incrédula, então tinha jogado contra o Schmeichel e não me lembrava, ele teve a crueldade de referir, «ah, e ganhámos 5-0», ao que eu percebi logo por que é que esse episódio se tinha varrido por completo do meu espírito. 

Mas, no clube de Vítor Damas (e de Azevedo, de Carvalho e de Rui Patrício), Schmeichel foi um gigante.

E há Casillas, bicampeão europeu por Espanha, campeão do Mundo por ‘La Roja’, senhor da Champions pelo Real Madrid, que teve no Dragão um porto seguro depois dos merengues não terem estado à altura dos seus pergaminhos na forma, sem encanto, como o trataram, na hora da despedida. Até ser traído pelo coração, San Iker passeou classe pelos relvados portugueses (deslumbrante a exibição na Luz, numa vitória da equipa então treinada por José Peseiro…) e colocou os holofotes da imprensa espanhola sobre a nossa I Liga.

No clube de Vítor Baía ( e de Miguel Siska, Américo e Mlynarczik), Iker Casillas terá sempre lugar na galeria dos maiores.PS – Jogadores estrangeiros, de qualidade, que venham acrescentar mais valia ao nosso futebol, serão sempre bem vindos. E se juntarmos a estes três guarda redes de eleição nomes como os de Seminário, Yazalde, Keita ou Balakov; Flávio, Cubillas, Madjer ou Hulk; Filipovic, Valdo, Ricardo Gomes ou Mozer, encontramos um padrão de excelência que merecia não ser vulgarizado pela abertura de portas a tantos «pernas de pau» que mais não fazem do que tapar oportunidades a jovens jogadores nacionais de grande potencial.