Kyren Wilson a A BOLA: «Sonho ser campeão do Mundo!»

SNOOKER 30-05-20 3:13
Por António Barroso

O inglês Kyren Wilson, de 28 anos, oitavo do ranking mundial e uma das estrelas do pano verde que, de 1 a 11 de junho, competirá na Championship League, em Milton Keynes (Inglaterra), quer chegar ao topo do Mundo do snooker e só se retirar ciente «de poder dizer aos filhos ter sido um dos maiores do jogo».

Confissões do guerreiro (The Warrior) em exclusivo A BOLA para Portugal – um dos seus destinos de férias preferidos -, país onde costuma trazer a família de férias, na antevisão da grande competição que marca a retoma do snooker, a partir de segunda-feira, 1 de junho, no reatar da época 2019/2020 do World Snooker Tour.

Eis, na íntegra, a entrevista exclusiva, desde Northamptonshire, do finalista vencido do Open de Gales e, em março, do Gibraltar Open, antes do início da prova, onde Mark Selby, Ronnie O’Sullivan, Neil Robertson e o campeão mundial e número um, Judd Trump, são concorrência de respeito para Kyren, que vinca querer «ter um estilo único», sem imitar qualquer que seja dos outros ases:

– Férias no Algarve e em Portugal, outra vez, como é habitual com a família, sem voos, está difícil, não?

- Pois, deveria ter passado três semanas de férias no vosso país, mas o confinamento trocou-me as voltas. É um dia de cada vez. Prometo voltar, sou cliente habitual [risos]

- Como foi o seu confinamento? Treinou muito?

- Foi desafiador, em muitos aspetos. O meu filho mais velho, Finley, entrou para a escola e estava a entrar no ritmo da vida, a saborear a nova vida, e o Bailey, o mais novo, a entrar na creche. Tive de os retirar, a ambos, da escola. E ficamos todos, este longo período, no mesmo espaço, foi duro para eles. Por outro lado, foi ótimo poder assistir de perto ao crescimento deles de perto durante quase três meses. Espantoso, nunca tinha tido um período tão longo perto da família. Agora sim, penso que já os conheço bem.

- E agora volta ansioso, com fome de bola?

- O confinamento aumentou em mim o desejo de êxito maior, sim. Quando tinha 17 ou 18 anos, tomava tudo por garantido. Não me apercebia o quanto amava o que faço, o quanto amo jogar e o quão sortudo sou por ainda poder ganhar dinheiro e a vida a jogar snooker. Com o bónus de ainda conhecer cidades, países e o Mundo. Fui empregado de balcão no bar do clube onde treinava e, dois anos depois, percebi as saudades que tinha do jogo. Por isso tentei o regresso. Antes da paragem, ia no mesmo sentido: já não estava a apreciar. Quando te tiram algo, é normal não o quereres mais. O tormento acabou por ser… uma benção para mim.

– Quais as suas esperanças para esta Championship League? Ryan Day, Alfie Burden, Chen Feilong, no Grupo 12, são os adversários?

- Aproveitei esta paragem para treinar e tentar melhorar o meu jogo defensivo e outros aspetos em que ainda acho que posso melhorar. É fantástico voltar a jogar snooker ao mais alto nível. O Mundial ainda está longe [31 de julho a 16 de agosto], é bom voltar a ter um torneio para desenferrujar. Sempre tive necessidade de me guiar por objetivos, torneios para conquistar. Será duro, pois se perder o ‘frame’ inaugural, um possível empate [2-2] já será uma boa perspetiva. É um grupo difícil, são todos bons jogadores mas estou ansioso por voltar a competir!

- O formato e esquema são diferentes, não eliminação direta mas pontos e por grupos. Cativará o público? Será um desafio aos jogadores, não?

- Será fascinante para os fãs assistirem! O público desespera, nesta altura, por provas e desportos em direto para ver na TV, e o snooker é dos primeiros desportos a voltar.  E quatro parciais apenas será muito cruel. O primeiro ‘frame’ será importantíssimo: se perdes, para venceres o jogo tens de ganhar os outros três. Acho que alguns de nós vão sentir-se espoliados de vitórias se redundar num empate, 2-2, pois não há decisiva ‘negra’. Na inversa, é algo de novo para muitos outros.

- Foi bom poder ter todo o tempo do mundo, família à parte, para se treinar?

- Passei a maior parte do tempo com a família, a treinar-me e em longas caminhadas. O meu clube deixou-me voltar aos treinos lá, o que fiz nos últimos dez dias. O meu jogo está lentamente a voltar, a um nível razoavelmente bom. E voltei a ter prazer em treinar-me, pois foi muito tempo afastado da mesa. Estou ansioso por voltar a jogar!

– Face a esta pandemia, quando olha para os seus filhos, Finley e Bailey, não teme que Mundo eles terão? Já tinha saudades, após dois meses e meio desde a final perdida em Gibraltar na ‘negra’ para Trump, não?

- Muito preocupado. Até com o dia de amanhã. E já ganhei muitos mais cabelos brancos. Não sei que Mundo eles terão, não. Gibraltar… pois é melhor não ser muito duro comigo mesmo, ou seria pior. Até porque com 3-3, e na ‘negra’, vendo friamente o jogo, não tive uma única hipótese para vencer…

– Ainda tem pesadelos com aquela final da Champion of Champions perdida para Ronnie como o foi, ou com o pesado desaire de 1-9 para Murphy na final do Welsh Open?

- Foi difícil e traumatizante. Ronnie teve alguma sorte e já sei que pode sempre dar a volta. Ficou de lição. Já ante Murphy, sejamos sinceros: ele esteve soberbo. Não revi muitas vezes esses jogos, não gosto [risos], mas não muito mais poderia fazer.

«Estou entusiasmado: o meu jogo está cá, os outros é têm andado inspirados contra mim...»

- Como avalia a sua época até esta altura? É muito duro consigo próprio, ou está satisfeito?

- A minha forma recente era… mesmo boa. Desde janeiro, cheguei a quartos de final, meias-finais e à final do Open de Gales e de Gibraltar, consegui um 147 [tacada máxima] e venci numerosos outros jogadores de topo. Isso resume para onde caminhava, penso. Apenas o altíssimo nível atual do snooker no geral me tem impedido de somar mais títulos. Tenho defrontado ótimos jogadores… que têm tido exibições fantásticas diante de mim. No início da época, pensava que não dava para lá chegar, mas atalhei caminho para os melhores desde então e estou entusiasmado para continuar: sinto que o meu jogo está cá!

– Qual é o Kyren que vale? O que reagiu às quatro centenárias de Hawkins no Mundial de 2018 e foi ganhar 13-11, e que bateu David Gilbert por 9-7 na final do German Masters… ou o desses desaires com Ronnie e Murphy, que acaba a ‘morrer na praia’? Falta algum estofo psicológico?

- Os dois. Esse jogo com Hawkins foi memorável, sim. E com Ronnie acreditei sempre. Nunca desistir é a chave no snooker. Como na vida.

– Ganhar a Ronnie 6-5 nas meias-finais do Welsh Open soube-lhe pela vida, apostamos. Desforra daquela final da Champion of Champions, 9-10?

- Não. Torneios diferentes, circunstâncias diferentes, mas sabe sempre bem. Ao fim de mais de uma década de profissional, sei o meu valor e tento melhorar: sempre disse que para chegar ao topo teria de bater os grandes da modalidade. De quando em vez acontece, espero que… mais vezes ainda.

– Número 8 do ‘ranking’, 10.º da tabela a um ano. Cumpriu os objetivos de hierarquia, mas 3 títulos em provas de ‘ranking’ continua a ser de menos. Que falta para o ‘clic’ e ganhar mais provas? Até onde vai a sua ambição?

- Agressividade já tenho, equilíbrio nas opções de jogo também. Aprendi até pelo respeito que os rivais demonstram ter para comigo, com muito jogo defensivo. Terei de ir pelo mesmo caminho. Vai com a experiência. Quero chegar ao lugar cimeiro do ‘top’. Quero poder retirar-me um dia e poder dizer aos meus filhos que fui um dos maiores do jogo. É isso que me inspira e me motiva todos os dias. Nem lá perto estou, ainda. Mas o bom é ter o tempo a jogar a meu favor: tenho montes de torneios para conquistar por todo o Mundo, ainda, sou novo. Tenho é de me aguentar no topo para poder dar o último passo.

– Ser considerado o presente e futuro do snooker, a par de Judd, tem pesado nos seus ombros? Inibe-o, como a pressão dos 1379 milhões de chineses sempre à espera que Ding Junhui também ganhe tudo?

- Judd já conseguiu ser campeão… aos 29 anos. Ainda tenho 28, tenho tempo, vou a tempo [risos]. É muito bom ser visto com potencial e apontado como homem do futuro… mas quero sê-lo já no presente. Luto por isso todos os dias, como Judd, e como Ding. A pressão existe sempre, para todos, temos de saber conviver com ela. Sei que vou chegar lá ao topo um dia. Ainda quero subir mais na hierarquia e ganhar muito mais: amo snooker.

Aprendizagem no Crucible

- Encara esta Championship League como um ensaio e sinal do que poderá ser o Mundial, também à porta fechada, ou vale por si?

- É sempre importante jogar e manter a forma. E essa é a abordagem correta de olhar para a Championship League. Mas será excitante, penso. A BBC transmite para o Reino Unido, o EuroSport para 50 outros países só na Europa e 90 no Mundo inteiro. Sabemos do apelo e inspiração que será para os adeptos ver snooker a sério de novo. Não vou ser muito duro comigo: quatro parciais, vai ser difícil. Mas só a sensação de agarrar no taco outra vez e jogar outra vez é… grandiosa. Será ‘matar ou morrer’, cruel: vão ver um jogo começar e acabar rapidamente. Por vezes poderá ser mais tático, e o jogo arrastar-se no tempo, longo… mas penso que não iremos ter muito disso nesta prova, neste formato. O que chama mais pessoas a ver.

- Nos últimos dois Campeonatos do Mundo, chegou às meias-finais e quartos de final. Está perto do grande título. O que acha que lhe falta para lá chegar?

- Tive umas meias-finais com John Higgins [13-17] e ele é tão difícil de bater: usou de todo o seu conhecimento e experiência para me vencer. Aprendi imenso e tenho-o sempre presente para a minha próxima aparição no Crucible. Anseio por voltar às meias-finais do Mundial, vencê-lo é velho sonho meu, claro.

- Uma curiosidade à despedida: com que jogador se identifica mais ou tentou seguir, como seu modelo?

- Aprendi imenso com outros profissionais e tentei modelar o meu jogo com um pouco de muitos deles. A agressividade de Judd [Trump] ou de Ronnie a atacar, a excelência de Selby a defender, a mentalidade de granito de John Higgins, sim, por exemplo. Mas penso que é importante impor o meu próprio estilo, ser único. Agrada-me pensar que outros já tentam ser como eu próprio, já na atualidade. Na inversa, já não me agrada tanto o pensar que estou a copiar este ou aquele jogador. Isso, a imagem de marca, o estilo, é algo em que eu e o meu treinador temos trabalhado: ter um selo próprio e ser um bom embaixador do jogo, sempre!