Uma entrevista de Deco… (artigo de Manuel Sérgio, 285)

ÉTICA NO DESPORTO 26-03-19 7:15
Por Manuel Sérgio

Neste dia 23 de Março de 2019, um dia tão belo como se Deus hoje o fizesse,  leio uma entrevista do Deco, antigo futebolista do Benfica, do Alverca e do F.C.Porto ao semanário Expresso. Nestes primeiros três meses do ano de 2019, praticamente não chove, há muito não oiço uma grossa chuvada a crepitar nas pedras da rua, como balas. Tudo se conjuga para uma paz de “domingo à tarde”, no verão. Quando era criança, um domingo à tarde era o dia de ver jogar o Belenenses, com o meu saudoso Pai. É verdade: desde menino que eu ando próximo do desporto e nunca o pratiquei, como atleta federado. Por isso, o facto de, na minha escrita, não ter mudado, nem desistido, ao longo de tantos anos, de pensar o desporto… em voz alta!Comecei, nos Ecos de Belém e no jornal “Os Belenenses”, e continuei o meu itinerário de colaboração jornalística, n’O Século e na República - colaboração que só abandonei quando fiz jornalismo profissional, no Jornal do Comércio. Hoje, após 30 anos de vida universitária e 13 anos, como trabalhador-estudante no Arsenal do Alfeite, colaboro n’A Bola online e na revista Brotéria. Mas gosto de folhear, todas as manhãs, a imprensa escrita, principalmente aquela que, para mim, tem o que dizer e sabe como dizê-lo. Daí o ter encontrado a entrevista do antigo futebolista Deco (Anderson Luís de Souza), no Expresso. À pergunta da jornalista, a Isabel Paulo: ”Quais foram os treinadores que mais o marcaram?” fez a sua análise crítica: “O que mais me ajudou foi Fernando Santos. Ensinou-me coisas que eu não sabia. Mário Wilson também foi importante, quando cheguei. E o que mais me impressionou foi Mourinho. Nunca tinha visto ninguém treinar, ou preparar um jogo, daquela forma. Foi um revolucionário. Tinha muita ideia e ambição. Foi uma sorte ter trabalhado com ele, quando tinha tudo para dar”.E a jornalista insistiu: “E Rijkaard, no Barça?”. E aqui Deco respondeu, como antigo praticante: “Marcou-me pela sua personalidade. Era um treinador que nada queria para ele. O ter sido um grande jogador fazia-o não querer ser protagonista. Já tinha sido. Nos êxitos preferia nem aparecer. É um pouco o perfil de Zidane. E não posso esquecer o Scolari, um comunicador nato, com os jogadores”. E, espraiando o olhar, escolho ainda outra questão: “Há uns anos disse que Pinto da Costa era a maior figura de Portugal…”. Foi este o comentário do Deco: “Do futebol português, mas também uma das maiores do país. Transformou o F.C.Porto num grande clube, pela sua capacidade de se reinventar, como gestor, em momentos difíceis. É um presidente-executivo, não um presidente-figura”. Ao evocar os seus antigos treinadores, ele assenta num ponto nodal: em todos, encontrou qualidades que lhe merecem admiração. O engenheiro Fernando Santos, o treinador, o líder, o humanista (no sentido mais amplo destas palavras) e um profissional que sabe conciliar a razão e a fé, o treinador e o educador; o Mário Wilson, um homem naturalmente fraterno e adjunto do Mestre Cândido de Oliveira; o José Mourinho, que já tinha estudado teoria e metodologia do treino, como poucos o tinham feito, no nosso País, hoje um treinador de projeção universal; o Rijkaard, um dos maiores “craques” (perdoam-me o brasileirismo?) do futebol da década de oitenta e o treinador que, no Barcelona, descobriu Messi e precedeu Guardiola; o Scolari, que via no “balneário” uma segunda família e dela se considerava o “pater famílias” – em todos eles, descobriu (e com filtro severo) insuperáveis qualidades. A Jorge Nuno Pinto da Costa deu lugar de destaque, como o dava José Maria Pedroto, quando se referia ao presidente do F.C.Porto: “O Jorge Nuno? É uma questão de tempo, para ser considerado a primeira figura da história do F.C.Porto”. E, depois, como se olhasse tranquilamente as flores de um jardim: “Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta”. A grandeza de um homem (ou mulher) mede-se pelo reconhecimento dos seus limites…

E, nesta Charneca da Caparica, franjada de espuma, onde hoje vivo, e onde, em tempos idos, se viam branquejar casas modestas de pescadores e se divisavam, ao longe, um ou outro barco a subir e a descer os degraus das ondas – nesta Charneca da Caparica, continua, hoje, depois do almoço, um sol criador, que nos convida, aos jovens a namorar ao calor de todos os desejos e aos velhos a refletir sob a sombra pacífica de uma árvore. Não se me apaga da memória a opinião de Hegel: “A ave da sabedoria só levanta voo ao entardecer”. Sei-o bem, velho que sou. E o que mais fica, na sua lembrança, da prática do futebol, para um praticante exímio, como o Deco? O valor intelectual ou moral de um treinador, de um dirigente, de um jogador. Até, no futebol altamente competitivo, galgando fogueiras de paixões é esta a verdade que nos aparece: no ser humano, entre o corpo e a alma não há tanto uma diferença de essência mas de grau. De facto, o ser humano é integralmente espírito, quando é integralmente corpo; e é integralmente corpo, quando é integralmente espírito. O radical da matéria é o mesmo do radical do espírito (ou do psiquismo, em linguagem mais atual), são ambos níveis diferentes da mesma realidade. Não há, por isso, qualquer atividade intelectual, ou afetiva, sem um substrato neuronal, sem que daí possa inferir-se que, nos comande, em todas as circunstâncias, um materialismo mecanicista pois que, num processo psicofísico e espiritual, há limites para o psiquismo e para o físico. Cito de cor O Existencialismo é um Humanismo, de Jean-Paul Sartre: “Não existe qualquer determinismo; sim, o homem é livre, o homem é liberdade”. O ser humano é sempre um produto da evolução, a qual se encontra associada às leis naturais da física, sem que o mental possa considerar-se como um mero epifenómeno do neuronal. Por isso, para mim, a razão e a fé são dois modos de conhecimento: a fé, quando se valoriza prioritariamente o sentido, ou seja, a transcendência, o caminho em direção ao Absoluto; a razão, quando se estuda,  cientificamente, os fundamentos biológicos de uma consciência do “eu”, ou de uma “ação motora”. Mas sem esquecer que eu estou todo, em tudo: não é a minha cabeça que dá uma cabeçada na bola, sou “eu”… 

A existência, para o ser humano, é tensão permanente liberdade-natureza: a liberdade porque eu sou um ser eminentemente criativo; a natureza, porque, no ser humano, o próprio meta-empírico dela nasce. E, para mim, porque tem o homem (e a mulher) de ser criativo? Principalmente, porque a própria realidade física continua por explicar. “Tal como o fascinante microcosmos físico, também o não menos fascinante microcosmos das partículas subatómicas permanece ainda bastante indistinto, para ser explicado com os nossos conceitos. Tanto o macro como o microcosmos podem ser apenas descritos com imagens, comparações, com modelos e fórmulas matemáticas (Hans Kung, O princípio de todas as coisas, Edições 70, 2011, p. 93). O Prof. Roberto Carneiro, que sobraçou com inusitado brilho a pasta da Educação, disse-me, um dia, que admite perfeitamente que a religião possa ser, muitas vezes, o “ópio do povo” mas que, sem ela, não sabe explicar o que o conhecimento científico também não sabe explicar. De facto, é pela religião que eu consigo falar de Deus. Platonicamente? Não, o platonismo não passa de pura contemplação, mas criando conceitos (Gilles Deleuze) que resultem da prática religiosa e a ela regressem. Verdadeiramente, só posso falar do que pratico. Com uma perspetiva mecanicista da psicologia, pode compreender-se cabalmente como é que a necessidade de Deus pode inserir-se na sucessão causal do futebol altamente competitivo?A um futebolista já eu perguntei: “Você é religioso?”. E ele, como se a resposta subisse de dentro de si mesmo: “Sou! Tenho necessidade de Deus, para explicar muita coisa!». E não se coibiu também de acrescentar: “Nós, os jogadores de futebol, rapidamente nos tornamos figuras públicas e rodeiam-nos homens e mulheres que querem explorar-nos e dirigentes e jornalistas que nos querem manipular. Mal de mim, se não conseguisse dialogar com Deus”. E eu: “Diálogo com Deus, ou diálogo consigo mesmo?”. E ele, afetuoso, sorriu e voltou ao treino.              

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto