GEDSON: Nasceu uma estrela! (artigo de Manuel Sérgio, 254)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 19-08-18 4:17
Por Manuel Sérgio

Gedson Carvalho Fernandes, natural de São Tomé e Príncipe, 19 anos de idade e jogador profissional de futebol do S. L. Benfica, começou a ser recebido com loas de triunfo, pelos “entendidos” que já o viram jogar. Lancei um breve sorriso enigmático aos que sustentavam, sem margem para dúvidas, que “o miúdo tem diante de si um futuro risonho” e tratei de ver, pela televisão e com o indispensável rigor, o jogo Benfica-Fenerbahçe do passado 2018/8/14. Findo o jogo, telefonei a um amigo e, na meia-luz envolvente do meu humilde escritório, disse-lhe a grande conclusão a que chegara: “O Gedson está talhado, geneticamente, para ser um genial jogador de futebol”. Uma brevíssima advertência se impõe: não sou geneticista e sei que a genética é uma ciência relativamente recente, de crescimento exponencial e de futuro cada vez mais necessário ao estudo do ser humano. A descoberta da estrutura do ADN, das enzimas de restrição, dos “loci” cromossómicos deixou-nos na engenharia genética. “E a ciência genética, de contemplativa e consultiva que era, passou a ser interventiva, invasiva, agressiva até” (Walter Osswald, in Brotéria, Março de 1997). No entanto, já se congeminou programar pessoas, tentando fazer delas génios, nas várias áreas do conhecimento, e os resultados pouco têm de animador. Os génios, na Ciência, na Arte, na Filosofia, na Teologia, na Ética, na Política ainda não foram programados – nascem e encontram depois, na vida que lhes coube viver, o espaço ideal (designadamente no âmbito da educação e da cultura) para desenvolver as singulares virtualidades que biologicamente os distinguem. Descartes, nas suas Meditações sobre a Filosofia Primeira, questiona e questiona-se: “Mas o que sou eu então? Uma coisa pensante”. Mas, para chegar-se ao pensamento ou, se quisermos mesmo à cultura, houve que acontecer a complexificação da matéria. Dizia, com acerto, Teilhard de Chardin: “a matéria destila espírito”.

O “grande paradigma do Ocidente”, em que muita gente parece continuar a acreditar, tantos são os que defendem as expressões Atividade Física e Educação Física, como dois paradigmas de paradigmas, assenta sobre os princípios de redução, exclusão e disjunção: entre o sujeito e o objeto; entre o objeto e o contexto em que se insere; entre o físico e o espírito; entre os sentimentos e a razão; entre o homem e o animal; entre a natureza e a cultura. Donde, o facto da separação: entre a ciência e a filosofia; entre o facto e o valor; entre a cultura humanista e a cultura científica; entre o mundo da consciência (da moral, da responsabilidade, da subjetividade) e o mundo dos factos; entre a esfera privada (dos sentimentos, das emoções, da afetividade) e a esfera pública (técnica, prosaica, utilitária). O “grande paradigma do Ocidente” tem um método, o cartesiano-newtoniano. Caracteriza-se pelo interesse exclusivo dos aspetos quantitativos dos fenómenos e portanto da codificação matemática. Pretende ensinar que há leis necessárias e gerais que explicam o determinismo, o controlo e a previsibilidade. Sublinha que “conhecer” é, principalmente (ou exclusivamente) analisar, reduzir, separar, quantificar. Este paradigma da redução-disjunção “não é apenas co-organizador do conhecimento, mas também co-organizador da sociedade e da cultura que tudo controla, sendo controlado em resposta por aquilo que controla” (Robin Fortin, Pensar com Edgar Morin, Instituto Piaget, 2014, p. 168).  Até que, nos primórdios do século XX, por oposição ao método analítico, surge o método sintético, dando lugar de relevo à qualidade, à relação cultura científica-cultura humanista. Enfatiza a singularidade de cada fenómeno e portanto o indeterminismo e refere que a cultura literária é necessária à cultura científica, como a cultura científica é indispensável à cultura literária.

Edgar Morin, com um verbo arrebatador e colorido, entrou de falar, a partir de meados do século XX, da urgência da complexidade que engloba o analítico e o sintético e o sistémico (a síntese unificadora), existentes numa totalidade. No ser humano, a análise biológica (assim presumo) gera um indivíduo e não um sujeito – este nasce de uma visão totalizante, sistémica, complexa do ser humano. François Jacob, um biólogo de renome universal, já escreveu (e eu, com ele, aprendi): “Não é a partir da biologia que pode formar-se uma certa ideia de homem. Pelo contrário, é com uma certa ideia de homem que pode utilizar-se a biologia, precisamente ao serviço do homem” ( El juego de lo posible, Grijalbo, Barcelona, 1982, p. 73). Do que venho de escrever se infere que um cientista de uma ciência hermenêutico-humana deve saber utilizar, hoje, no seu trabalho diário, os métodos analítico e sintético e… o decorrente da complexidade humana, que afinal os une. E que (permitam-me a minha intromissão, num trabalho deste jaez), sempre que estudem a complexidade humana, não esqueçam que a totalidade passado-presente-futuro encontra-se, viva, no sujeito que contemplam em séria apreciação crítica. Porque, durante 24 anos dei a minha modesta colaboração a várias direções do Belenenses; porque, durante treze meses, fui adjunto do treinador Jorge Jesus, no departamento de futebol do S.L.Benfica – posso aditar, sem problemas, que já assisti a inúmeros treinos de futebol e que considero, hoje, uma farsa jocosa um treino de alta competição com as características que o fisiologismo cartesiano lhe impõe, como se fazia em anos distantes. O treino, hoje, destina-se a um atleta (ou jogador) que é homem e, simultaneamente, a um homem que é atleta (ou jogador).

Quero eu dizer, como conclusão, que o Gedson, evidenciando qualidades naturais, para chegar ao “estrelato”, no mundo do espetáculo futebolístico, o desenvolvimento do que tem realizar-se-á tão-só, se nele o instinto for acompanhado de razão, a ciência de ética, o saber de sabedoria. Não pode duvidar-se da honestidade intelectual do treinador Rui Vitória, da amplitude da sua cultura (uma aliança do saber e da vida) e dos anos, tensos e intensos, da sua experiência de jogador e treinador de futebol. Licenciado em Motricidade Humana, escritor, com um raciocínio lógico que lhe permite dilucidar questões e formulá-las com grande clareza – já nele se instalou a convicção de que o Gedson precisa tanto de futebol como de compreensão, precisa tanto de disciplina como de sincera amizade, precisa tanto de inteligência como de afecto. Quero eu dizer: nas rotinas pré-competitivas do treino, este jovem, que nasceu fadado para o futebol, há-de aprender a aprender e aprender a criar, designadamente redes de interdependência com os seus colegas de equipa. Uma ação, principalmente na alta competição desportiva, é uma decisão e um risco. Para tudo isto, o Gedson deve estar preparado, tanto individualmente como em equipa. Por força de uma cultura dominantemente racional e tecnológica, que é a nossa, hipertrofiamos o hemisfério analítico do nosso cérebro e deixamos de pôr em destaque, na relação professor-aluno, ou treinador-jogador, o teor afetivo que deve presidir ao convívio entre elementos da mesma equipa, da mesma comunidade. Teor afetivo, acentue-se, que não deverá descambar na permissividade, na indisciplina, na desvinculação dos grandes objetivos que justificam o grupo. Mas tudo isto o dr. Rui Vitória sabe. Eu só quis dizer que está a nascer um extraordinário jogador de futebol, no S.L. Benfica.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto