A qualidade de José Peseiro (artigo de Manuel Sérgio, 248)

ÉTICA NO DESPORTO 07-07-18 1:40
Por Manuel Sérgio

Há frases que eu venho dizendo, há muitos anos e que fixam o meu pensamento acerca da minha visão da vida e até acerca da minha visão do desporto. Hoje, refiro estas: “A prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática”. Outra ainda: “Quem só teoriza, não sabe; mas quem só pratica, repete”. E esta, por fim: “Entre a teoria e a prática não deve estabelecer-se um antagonismo radical e estanque, pois que ambas devem fazer parte do mesmo todo”. A prática não é uma dimensão inferior, ou de menor nobreza, do que a teoria; também a teoria não é uma instância que possa dispensar-se, no ato cognoscitivo. Sendo ambas indispensáveis, nenhuma delas esgota uma visão plena da realidade.  A teoria, onde se integra a dimensão qualitativa dos “fenómenos”, não pode ser empurrada para o entulho das coisas inúteis, pela dificuldade evidente de não poder ser testada, medida, palpável. O Materialismo Histórico esfuziou no ar, deixando boquiabertos muitos intelectuais e escritores, quando anunciou que, mais importantes do que as necessidades ideológicas, culturais, religiosas – mais importantes são as necessidades materiais. Os romanos acrescentavam a um bom (ou copioso) almoço o sensato apotegma: “primeiro viver e só depois filosofar”.  O Marx, na Contribuição para a Crítica da Economia Política, escrevia: “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; pelo contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência”. O Materialismo Histórico respondeu ao erro do idealismo, asseverando convictamente que a subjetividade humana é inteiramente determinada por uma vida material, independente da vontade humana. E eu pergunto: mas é possível uma história humana, sem um ator humano, ou sem vários atores humanos? E o Materialismo Histórico respondeu com um erro aos erros que pretendia superar…

Mas deixemos aos filósofos e aos epistemologistas a discussão desta problemática teoria-prática, qualidade-quantidade. Eu quero só afirmar, sem receio, que o José Peseiro, de 58 anos de idade, licenciado em Educação Física e Desporto, tem a qualidade e a experiência suficientes para que dele se possa dizer que está entre os treinadores de futebol de que o Sporting C.P. necessitava, neste período conturbado (o mais conturbado?) da sua história. Foi meu aluno, no ISEF/UTL, e é pessoa de um rigor e de uma honestidade, que pede meças. Ora, porque assim é, por que não prestou ele ainda a qualquer um dos clubes, que já serviu, um número inesquecível de vitórias? No meu modesto entender, porque as vitórias não decorrem tão-só da competência do treinador. O José Peseiro, num departamento de futebol de gente competente; em diálogo permanente com uma direção que nele acredite e que o respeite; tendo por si um presidente que mais sirva do que se sirva, quero eu dizer: sempre atento às necessidades do departamento de futebol e que não se intrometa no trabalho do treinador, visando gloríolas pessoais e outros interesses mais obscuros; num clube modelarmente organizado – o José Peseiro será, com toda a certeza, um treinador ideal, para o Sporting de hoje. No nosso clubismo, dito desportivo, muitos dos nossos dirigentes, de modo muito especial alguns presidentes, mandam, ordenam, não dialogam e portanto são verdadeiras fábricas produtoras de cúmplices, de repetidores, de fanáticos. Sentem-se vedetas, prima-donas, não sabem conviver com os adversários, nem com os próprios trabalhadores do conhecimento do seu clube – quando afinal não passam de palhaços de um circo pelintra. Ou gestores de flagrante ingenuidade.

Num ambiente assim montado, um homem simples e modesto e um dos mais puros e honrados profissionais do treino do futebol, que eu conheci, como é o José Peseiro, não tem espaço para afirmar-se, o seu saber não tem possibilidades de implantar-se e até de visionar-se, desocultar-se. Além do mais, constitui irrealidade contrária à criação, organização e desenvolvimento de uma equipa de futebol altamente competitivo defender reformismos (como o fazem todos os populistas, todos os demagogos) que não passam de puros oportunismos. José Manuel Delgado, em A Bola, de 2018/7/4, antigo jogador profissional de futebol, que é sobretudo um homem do nosso tempo, escreveu: “José Peseiro, um dos mais sólidos treinadores portugueses e sem dúvida uma escolha sensata de Sousa Sintra, vai trabalhando sem ter certezas quanto ao desenho final do plantel que vai comandar”. E aponta  dificuldades inúmeras: “Quando uma nova Direção, legitimada pela força do voto, chegar a Alvalade, já o mercado vai estar fechado, pelo que as decisões a tomar entretanto assumirão a importância que se adivinha”. Só que, com Sousa Sintra e José Peseiro, há a certeza que nem aos dirigentes, nem à equipa técnica dos “leões”, lhes interessa mais o manobrismo, a jogada interesseira do que soluções assentes num estudo sério e diligente e num grande respeito e amor pelo Sporting Clube de Portugal. De facto, não sou sportinguista, mas também não acredito que o sejam os que se julgam os “condottieri”, sem discussão nem suspeita, de uma confraria fechada, onde as palavras-de-ordem substituem as ideias e onde todos são bestas do mesmo curral e asseclas da mesma seita. E ao competente se prefere o fidelíssimo pateta.

Fui professor do José Peseiro. Não é homem de “agressividade inata” (Konrad Lorenz), não se distingue por uma demagogia ribombante que ensurdece os ouvidos, não funde na mesma imagem benfiquismo (ou portismo) e a mais daninha das ervas. Como desportista que é, não há cor, não há heráldica, não há clube que não lhe mereçam igual respeito.  Também não é daqueles que pretendem reduzir a competição desportiva a uma agressividade inata do ser humano. “Hoje em dia, o capitalismo global e tecnocrático, as burocracias e a estratificação social, os conflitos de vária ordem, desde a violência no futebol, passando pela luta de classes, até às lutas de libertação nacional, o terrorismo e as guerras entre Estados – tudo isto se vê como o resultado da evolução dos primatas. Ignorando os valores que dão sentido a uma vida mais humana e sobretudo as explicações económicas e sociológicas dos conflitos, ou das estruturas sociais, é nos imperativos biológicos da evolução que pretendem encontrar o radical fundante do comportamento das pessoas e dos povos”. (Steven et Hilary Rose, L’Idéologie dans la science, trad. franc., Seuil, pp. 170). A competição, no Desporto, é uma forma de encontro entre as pessoas e os povos e também uma escola de formação e realização pessoais. No conhecimento científico não há factos puros. Todo o facto está impregnado de teoria, de objetivos. Relembro Saussure: “É o ponto de vista que cria o objetivo”. Diremos o mesmo do Desporto: o que faz que uma Atividade Física se transforme em Desporto é precisamente uma axiologia justificadora da competição!... Mas eu só queria dizer que o Sporting Clube de Portugal tem, hoje, o treinador de futebol de que necessitava, Estou errado? Creio que o tempo vai dar-me razão.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto