A década de oitenta… (artigo de Manuel Sérgio, 247)

ÉTICA NO DESPORTO 28-06-18 1:57
Por Redação

O desporto altamente competitivo precisa sempre de um clima heróico, para perpetuar-se. Desde muito cedo o entendi quando, na década de 40, percorria as Salésias de uma ponta à outra, na quotidiana banalidade da minha vida de garoto pobre do bairro pobre da Ajuda, em Lisboa.

 

Por vezes o “Manel do campo”, o segurança do campo das Salésias, um tipo de personagem policial, olhos astuciosos e vivos, que não permitia à rapaziada ultrapassar determinados limites, ainda chegou a questionar-me: “Não tens que fazer os trabalhos da escola? O que andas, aqui, a fazer?”. Respondia-lhe familiarmente, como se falasse a um velho amigo: “Gosto de ver o Belenenses a jogar à bola”. E assim fiquei o resto da vida: a gostar de ver o Belenenses a jogar à bola! O “Manel do campo” era de uma simplicidade encantadora e bonacheirona e, por fim, com o andar dos anos, já nem me questionava, quando me via. Piscava-me um olho, sorridente e nascia em mim a certeza que, uma vez mais, podia ver o Belenenses a jogar à bola. Na minha velhice, polvilhada de recordações, não esqueço as horas e horas que passei nas Salésias e aquela paz que subia das entranhas da terra e do verde da relva, onde saltitavam bolas que os pés dos meus ídolos acariciavam. E escrevo “acariciavam” porque foi preciso chegar à velhice para conceber um jogo de futebol, na convulsão e na incerteza do intervalo entre duas batalhas. Naquele tempo, não! Eu via um jogo de futebol, com um fulgor de entusiasmo nos olhos e uma tranquilidade tão absoluta que só, no Céu, se lá chegar, a voltarei a sentir! Nos treinos da década de 40, a ginástica antecedia sempre o jogo-treino – uma ginástica que poderia fazer suas as palavras de Kant (1724-1804): “Ginástica é a educação daquilo que, no Homem, é Natureza”…

 

Até que, em Outubro de 1968, a convite do Dr. Armando Rocha, diretor-geral dos Desportos (e depois um Amigo que não deixarei de lembrar até ao fim dos meus dias) “disse adeus” ao Arsenal do Alfeite, onde trabalhara 13 anos e ingressei no Centro de Documentação e Informação do Fundo de Fomento do Desporto. situado no INEF (Instituto Nacional de Educação Física). E, aí, em contacto quase diário com o Prof. Nelson Mendes e alguns alunos que intelectualmente o acompanhavam e, portanto, com o ambiente de preocupada atenção pelos problemas pedagógicos e científicos daquela Escola – senti-me obrigado a revisitar a fenomenologia que estudara na Faculdade de Letras, designadamente o Maurice Merleau-Ponty que o Nelson Mendes e o aluno Vítor da Fonseca sentiam uma necessidade quase instintiva de citar, nas nossas conversas. Por outro lado, pela leitura de Bachelard e Althusser e Adérito Sedas Nunes e Armando Castro, eu começava, por essa altura, a estudar epistemologia e a lidar com os conceitos que seriam depois fulcrais, na minha tese de doutoramento, como o corte epistemológico, o obstáculo epistemológico e esta ideia que nunca mais esqueci: “não temos o direito de separar os fatores intelectuais do seu enraizamento concreto. As condições históricas reais que possibilitaram o nascimento da ciência moderna temos de procura-las no nascimento do capitalismo; no progresso do sistema bancário; na aceleração, cada vez mais rápida, da técnica; na promoção social dos engenheiros e dos artistas; nos Descobrimentos Marítimos e na Contra-Reforma”. Está aqui, se bem penso, o chão, o terreno fértil que permitiu o surgimento da ciência moderna. Ocorre-me, neste momento, Galileu, no início de um dos seus Discorsi: “Senhores Venezianos, que grande campo de reflexão parece abrir-se aos espíritos especulativos que frequentarem o vosso famoso arsenal e, de modo muito particular, os vossos inumeráveis trabalhos mecânicos”. Não se esconde, ou rejeita, a fundamentação teórica da ciência, mas não se esquece também que, sem prática, a teoria para pouco serve… 

Em 1980, já com doze anos de estudo e de convívio com inúmeros professores e alunos do INEF e do ISEF e a informação que podia colher, nos meus diálogos soltos (mas atentos) com os treinadores que trabalhavam no Belenenses, e ainda os meus contactos periódicos com o talento multiforme, curioso de José Maria Pedroto e as minhas leituras, sem conformismos ou conservadorismos, de Bachelard, Althusser, Foucault, Popper, Kuhn e Feyerabend – em 1980, já eu concluíra que a “pedagogia da certeza” que o cartesianismo e o positivismo instalaram no conhecimento científico deveria ceder o seu lugar relevante à “pedagogia da incerteza”, pois que, nas ciências, não há “Verdade”, há “verdades”; que era necessário formar e desenvolver um corte epistemológico na Educação Física, donde surgisse uma nova ciência hermenêutico-humana, a Ciência da Motricidade Humana (CMH), que poderá integrar o jogo desportivo, o desporto, a dança, a ergonomia, a reabilitação e mesmo a gestão do desporto; que a motricidade é o movimento intencional de um sujeito, que forceja por transcender e transcender-se; que, porque o conteúdo de uma ciência humana é o ser humano, o treino desportivo deverá repensar-se, dando especial relevo às sínteses Natureza-Cultura (onde incluo,  também as artes e as humanidades), Razão-Fé, Ciência-Tecnologia e Teoria-Prática; que a história das ciências é contínua e descontínua e, nas fases descontínuas, crescem, diante do Passado, inevitáveis ruturas. Tudo isto me veio à lembrança, durante o Portugal-Irão do Mundial que está a decorrer na Rússia, ao ver o Carlos Queirós (um treinador que conta, no seu currículo, com triunfos inesquecíveis, chegando mesmo, duas vezes, a campeão do mundo de juniores) - ao ver o Carlos Queirós, como selecionador e treinador da equipa de futebol representativa da República Islâmica do Irão. 

A propósito do Portugal-Irão, a equipa lusitana foi (é) tecnicamente superior. Mas a equipa iraniana, abrasada do supremo culto nacional e animada de uma crença religiosa que lhe aumentava as qualidades físicas e exacerbava a vontade de vitória, jogou, (quase) de igual para igual com os portugueses e não escandaliza, de facto, o resultado final: um empate. O Carlos Queirós não soube perder: na ironia, levemente desdenhosa, como classificou o trabalho do árbitro e noutras atitudes que bem se dispensavam, durante e após o jogo. No entanto, os abraços que, no fim do jogo, trocou com o engenheiro Fernando Santos constitui um dos belos momentos que eu recordo daquele encontro internacional. Foi o abraço entre dois desportistas, quero eu dizer: entre duas pessoas que devem primar pela delicadeza e simpatia, que decorrem da compreensão e da generosidade do ideal desportivo. O Desporto é isto e não os espetáculos de ódio e de violência que, sofreando o vómito, vezes demais tenho contemplado na alta competição desportiva nacional. Impossível qualificar de Desporto ou reconhecer o ideal desportivo, nos anti-benfiquismos, ou anti-sportinguismos, ou anti-portismos, todos eles primários, pela poluição auditiva que nos fazem sofrer. E pela ruidosa chinfrineira da mais lamentável despolitização, coonestada aliás por alguns dirigentes desportivos, sempre em arroubos de uma excitabilidade espetacular! Topa-se, aqui e além, no nosso clubismo, principalmente futebolístico, o fulgor malévolo de verdadeiros patetas, que se julgam nas alturas dignas dos visionários, ou dos profetas. O Futebol Clube do Porto, o Sport Lisboa e Benfica, o Sporting Clube de Portugal foram e deverão ser, hoje e sempre, verdadeiros templos onde se cultiva o que de mais humano e humanizante a vida tem. Como eu o comecei a aprender, na década de oitenta…    

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto