Nuno Laurentino: definição e função do Desporto (artigo de Manuel Sérgio, 237)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 08-04-18 5:13
Por Manuel Sérgio

Qualquer desportista informado o conhece: é o Nuno Laurentino, licenciado em Desporto e um dos nomes maiores da história da natação portuguesa. Foi o primeiro nadador ibérico a superar a “barreira” dos 50 segundos, nos 10o metros livres (disciplina olímpica). Foram dele 200 recordes e 123 títulos, nacionais. E, a dada altura, eram seus 50% dos recordes nacionais existentes. Hoje, tem 42 anos de idade e, por mais que se pretenda deixar cair sobre o seu currículo de excecional atleta um injusto esquecimento, para um sério historiador do desporto nacional a conclusão nada tem de vago ou de equívoco: Nuno Laurentino concorreu, e com inusitado fulgor, ao desenvolvimento da natação, em Portugal. É atualmente adjunto do Dr. João Paulo Rebelo, laborioso e sensato secretário de Estado da Juventude e do Desporto. Olímpico onde chegou a lugares só reservados aos eleitos; antigo praticante de triatlo, no S.L.Benfica – Nuno Laurentino, porque intensamente a viveu, sabe o que é a prática desportiva. Como o tenho feito com outros atletas e treinadores, procurei-o, disse-lhe mesmo: “quero aprender consigo”- para que os meus escritos ensaísticos, onde delineio breves reflexões sobre o desporto, sejam bem mais do que “críticas da razão pura”, sem funda relação com a prática. Sendo por natureza um género híbrido, aberto aos mais diversos assuntos, adquiriu assim o ensaio uma assinalável amplitude onde o desporto cabe perfeitamente. Só que, quando escrevo sobre desporto, não quero que o meu pendor dialético e dialógico deixe de ter, como interlocutores diretos e privilegiados, quem viveu, de facto, o desporto. Volto ao que já escrevi, há mais de 40 anos: “quem só teoriza não sabe”. Mas foi o Nuno Laurentino que se adiantou para informar-me: “Vou dar-lhe uma novidade, o Paulo Frischknecht é o novo presidente do Conselho de Administração da Fundação do Desporto”. E aduziu uma série de argumentos, em favor da competência e da honestidade, indesmentíveis, do Paulo, meu antigo aluno, no ISEF/UTL, também internacional olímpico e figura grada da história da natação lusitana. “E que foi meu treinador. E com quem muito aprendi” acrescentou o Nuno, com triunfante alegria. O Paulo Frischknecht já deu sobejas provas de bom senso e diligência e notável argúcia, tendo assim alcançado um reconhecido prestígio desportivo e social. Neste espaço, que A Bola me concede, aqui lhe deixo um abraço de sincera estima e admiração… com os votos de muitas e muitas felicidades! Aliás, sou dos que defendem que os licenciados em Desporto não podem limitar-se ao exercício do professorado e do treino, justificado com os cansados argumentos da sua especialização em “educação física”. O impropriamente denominado “professor de educação física” não ensina as pessoas a “durar”, ensina as pessoas a “viver”, como nenhuma outra profissão o sabe fazer. Bem é, portanto, que na “sociedade do conhecimento”, que é a nossa, e em que o recurso básico deixou de ser o capital ou o trabalho e passou a ser o conhecimento, seja o “professor de educação física” o profissional do conhecimento escolhido para gerir e dirigir o desporto, a dança, a ergonomia, a reabilitação e a motricidade de todas as idades. Como aprendi em Peter Drucker, “o desafio económico da sociedade pós-capitalista será a produtividade do trabalho e do trabalhador, com base no conhecimento” (Sociedade Pós-Capitalista, Actual Editora, Lisboa, p. 22). Ora, é a motricidade humana que “o professor de educação física” investiga e pensa. Quem melhor do que ele, para liderar a concretização social e politica do paradigma que só ele (ou ele, principalmente) estuda? Mas torno ao Peter Drucker: “A sociedade pós-capitalista será dividida por uma nova dicotomia de valores e de percepções estéticas. Não será a das duas culturas – a literária e a científica – a dicotomia será entre intelectuais e gestores, os primeiros ocupados com palavras e ideias, os últimos com pessoas e trabalho. Transcender esta dicotomia numa nova síntese será um desafio filosófico e educacional, central para a sociedade pós-capitalista” (p. 22). Na sociedade do conhecimento, no que ao desporto diz respeito, mais do que fornecer fáceis receitas, glosar lugares-comuns, ou apresentar soluções mais ou menos demagógicas cabe ao intelectual pensar o desporto, os seus métodos de conhecimento e os rumos da sociedade e da cultura. E, repito-me: no que ao desporto diz respeito, ninguém melhor do que o “professor de educação física”, profundamente enraizado na sua época, para representá-lo simbolicamente. Tem de nascer dele (ou melhor: principalmente dele) o intelectual, o trabalhador do conhecimento desta província do saber. E, ao avocar aqui os nomes dos Drs. Paulo Frischknecht e Nuno Laurentino, ambos licenciados em Desporto e atletas de invulgares recursos, distingo dois intelectuais que muito (e bem) teorizam, porque muito praticaram e muito estudaram. O essencial da sua reflexão viveram-no eles. E é a viver que mais se aprende. Mas, foi com o Nuno Laurentino que eu dialoguei, há bem poucos dias. Com uma síntese rasamente prosaica, direi que a nossa conversa decorreu em torno da rutura global e frontal, que eu preconizo, com o cartesianismo e o positivismo, arvorados em princípio de explicação da educação física e do desporto. Não os considero sempre verdadeiros obstáculos epistemológicos, mas são-no demasiadas vezes e também demasiadas vezes se confundem com o senso comum. Ora, não há “corte epistemológico”, sem a passagem e superação do senso comum, pouco dado à análise da complexidade do “fenómeno humano”, ou seja, da pessoa como um sistema de relações de dimensões inúmeras. De facto, a pessoa humana é movimento intencional, é opção, é relação, é projeto… “Não tenho problemas em reconhecer que a emergência de um novo paradigma, a motricidade humana, reconhece no desporto uma dignidade a que os paradigmas tradicionais eram alheios. Mas, em Portugal, a expressão Educação Física tem uma tradição que continua viva, na nossa sociedade e que deverá respeitar-se”. Concordei imediatamente com o pensamento do Nuno Laurentino, um desportista que é um intelectual informado e com uma qualidade cada vez mais rara: com maior vocação para servir do que para servir-se. Concordei imediatamente, como sempre o fiz. Com efeito, na minha tese de doutoramento, não deixei de expressar o meu agradecimento “aos profissionais de Educação Física portugueses, aos jovens e aos menos jovens, aos vivos e aos mortos, já que a minha teorização seria impensável, sem a sua prática diligente e transformadora” (Para uma epistemologia da motricidade humana, Compendium, Lisboa, p. 16). Toda a antítese precisa da tese, para ser antítese. Em tudo o que “prima facie” aparece como tecnocientífico, ou como literário, há uma história e é dessa história que nasce um novo paradigma. Desde a “galáxia Gutenberg” até à hodierna “galáxia Marconi”, o que não caminhou a humanidade? E a verdade é que, sem aquela, esta não seria possível. Tudo é tempo e portanto tudo é história. Não me é possível relatar, com minúcia, em artigo de jornal, a riqueza do diálogo que o Dr. Nuno Laurentino me proporcionou, já que, nele, a face do desportista de abundantes méritos é incindível da face do homem íntegro que ele é. Talvez por isso lhe seja tão fácil compreender que o desporto só como sub-sistema de uma ciência hermenêutico-humana poderá compreender-se e estudar-se. Para sair do “ghetto”, onde o cartesianismo e o positivismo o sepultaram, parece-me ser este o caminho. E é verdade, não esqueço: nenhuma aventura humana é inseparável do risco. Mas bem pior é continuar com argumentos de tipo naturalista, maioritariamente usados pelo senso comum e em que também o Dr. Nuno Laurentino não acredita. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto