Uma estratégia para treinadores, segundo Gustavo Pires e António Cunha (artigo de Manuel Sérgio, 230)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 19-02-18 11:58
Por Manuel Sérgio

Os autores do livro Agôn – Homo Sportivus: Estratégia & Estratagemas (Edições Afrontamento, Porto, 2017) são dois dos estudiosos, mais destacados e ativos, do Desporto, em língua portuguesa. Refiro-me ao Doutor Gustavo Pires e ao Dr. António Cunha. Acerca do Doutor Gustavo Pires, posso adiantar, sem receio, que a qualidade e a diversidade das universidades onde lecionou e das tribunas onde subiu e dos livros e trabalhos científicos que produziu, dão-nos a medida da seriedade e da especialidade dos temas versados. Não cultiva a flor da simpatia; não sabe organizar, como tantos outros, a publicidade do seu indiscutível valor; manifesta um desdém olímpico por algumas imbecilidades que, na direção e gestão do desporto, se consideram “príncipes perfeitos”; não esconde a irresponsabilkidade, a inconsciência, a alienação a mentira – nem sinuoso, nem insinuante, é, no meu entender, um dos universitários mais cultos que, ao longo da minha vida (que já não é curta) eu conheci. Para mim, a cultura é a aliança do saber e da vida, precisamente o que Gustavo Pires manifesta, quando fala ou escreve sobre desporto. O Dr. António Cunha foi um exímio praticante de andebol, tanto como jogador, como conceituado treinador, chegando mesmo a treinar, durante vários anos, a seleção nacional desta modalidade e ainda, com inesquecíveis êxitos, o F.C.Porto, o S.L.Benfica e o Sportting C.P. Foi membro efetivo do Comité Técnico de Alta Competição da Federação Portuguesa de Andebol Também regeu a disciplina de Metodologia e Treino do Andebol, na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Mais havia, para salientar, no seu brilhante currículo desportivo, no que ao andebol diz respeito. Quedo-me agora, por aqui, não deixando de salientar que, neste livro, a síntese teoria-prática é de uma tal perfeição que tudo, nele, parece um pretexto para, em tom de conversa culta, manifestar um grande amor pelo desporto. Venho dizendo, há muitos anos já, que “o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo”. Portanto, o desporto não é tática e técnica e fisiologia tão-só. Porque as relações teoria-práxis estão ganhando uma importância crescente, ao longo da História das Ciências e da História da Filosofia, pode escrever-se, hoje, que da resolução deste problema depende a legitimidade de um tema de que se ocupem tanto o filósofo como o cientista. Na resolução das relações entre a tecnociência e a ação tem de resultar um conhecimento onde o homem todo e todos os homens possam rever-se. Com o racionalismo, a razão pura, teórica absorveu, por completo, o ato de conhecer. Se, por exemplo, a filosofia se divorcia, por completo, do mundo da tecnociência, no meu modesto entender, torna-se dispensável. Por outro lado, se a tecnociência manifesta uma incompatibilidade insanável, na relação com a filosofia, o conhecimento científico descamba normalmente numa especialização, incapaz de abranger as exigências da complexidade humana. Encontram-se historicamente esgotadas as cogitações dos que proclamam o divórcio filosofia-ciências: é que, sem as ciências, a filosofia é mera retórica e, sem a filosofia, a ciência desconhece os valores que a humanizam, isto é, que des-ocultam os seus objetivos primeiros. Hoje, nem a ciência pode tornar-se numa filosofia de substituição, nem a filosofia uma “doutrina de segurança”, com respostas fáceis para perguntas difíceis. Não é este o lugar para invocar o nome de Habermas, Adorno, Horkheimer e Marcuse. Mas é a altura de dizer que uma teoria do conhecimento deverá transformar-se numa “teoria crítica” que saiba encontrar a prática fundante e a teoria norteadora, tanto nas ciências humanas como nas ciências da natureza. Gustavo Pires e António Cunha sabem tudo isto que venho de escrever e, daí, a sua afirmação: “Na realidade, o pensamento estratégico, no abstrato da oposição das partes, na agonística do jogo e na dialética das vontades, abre um vasto campo de reflexão que deve suportar o processo de tomada de decisão nas suas dimensões política e técnica, no âmbito do desporto em geral e, muito especialmente, do futebol, onde, todas as semanas, estão em jogo muitos milhões de euros (…). Assim sendo, a arte do treinador, que se traduz na sua atitude estratégica relativamente à preparação de cada jogo em particular e do campeonato em geral, está transformada numa questão fundamental, na organização da vitória que determina a vida das equipas, dos clubes, das regiões e dos próprios países” (op. cit., pp. 9 e 11). Investigam, depois, os autores “o pensamento de um conjunto de estrategas militares que, de alguma maneira, podem ajudar a estruturar o pensamento estratégico dos treinadores. Abordaremos também o pensamento de alguns estrategistas que, muito embora não se enquadrem perfeitamente, na dinâmica do encontro direto que caracteriza a ação do treinador, não é por isso que deles não podem decorrer úteis ensinamentos para a condução da equipa e a organização da vitória” (p. 13). Desde T’ai Kung (séc. XI a. C.), Sun Tzu (2300 a. C.), Tucídides (460 a.C. – 400 a. C.) e Aníbal (247 a. C. – 183 a. C.), passando por Maquiavel (1469-1527), Joly de Maizeroy (1719-1780), Napoleão Bonaparte (1769-1821), Antoine-Henry Jomini (1779-1869), Carl von Clausewitz (1780-1831), até Georges Clemenceau (1841-1929), André Beaufre (1902-1975), LIdell Hart (1895-1970), Henry Mintzberg, Michael Porter e mais alguns – Gustavo Pires e António Cunha apresentam-nos uma portentosa coleção de livros e de conceitos, de densa especulação e de contacto diuturno com os grandes estrategas e estrategistas, que a História nos aponta. Agôn – Homo Sportivus: Estratégia & Estratagemas preceitua uma pedagogia concreta, uma inteligência clara e segura e uma argúcia tão viva, que não há por aí treinador desportivo que o não deva meditar e sociólogo que o não deva ler. Demais, uma obra para integrar a biblioteca de Institutos Superiores e Faculdades dos mais diversos saberes. “Um país jamais será economicamente competitivo, se não for culturalmente competitivo. E só será culturalmente competitivo, se tiver uma forte educação competitiva. E a educação competitiva começa no ensino do desporto, a partir da conceção da superestrutura dos programas da disciplina de Educação Física dos ensinos Básico e Secundário que, em termos de desenvolvimento, devem articular a jusante com a rede de clubes desportivos da estrutura desportiva federada. Nesta conformidade, as várias modalidades desportivas, através das respetivas Federações, devem ser sujeitos ativos, numa futura curricular dos programas de Educação Física, de maneira que a disciplina possa contribuir para a melhoria do Nível Desportivo do País” (p. 67). É evidente que se trata de uma competição entre seres humanos e portanto, com valores a ter em conta. E assim a estratégia, neste caso, é um saber para um diálogo com uma filosofia prévia a toda a ciência que, noutros saberes e aqui, torna o conhecimento científico válido e humanizante. Na página 142 desta obra (que nos oferece um mosaico rico sobre os diversos aspetos como a estratégia pode estudar-se) pode ler-se: “A estratégia é um fenómeno ação/reação em que todo e qualquer movimento de um dos protagonistas deverá suscitar uma resposta do outro; um ato de reflexão criativa, num ambiente agónico que questiona a própria sobrevivência da equipa; um processo de reflexão, que deve anteceder o planeamento estratégico, que se limita a estabelecer o processo metodológico, que visa atingir determinados objetivos, mais ou menos integrados”. Insisto no que já escrevi: este é um livro que nenhum treinador deve deixar de meditar e nenhum sociólogo deve deixar de ler. Pela primeira vez, em língua portuguesa, surge um livro, com verdadeiro valor científico, para a explicação e a compreensão do fenómeno “estratégia, na competição desportiva”. A razão limitante dos que pretendem fazer da Educação Física e do Desporto, subsidiários e satélites “atentos, veneradores e obrigados” da biologia, como se ela pudesse exaurir ou preencher a complexidade humana; o economicismo interesseiro de outros que dão prioridade gnosiológica e axiológica ao lucro e à compra e venda de jogadores; as imbecilidades palatinas que, aqui e além, descobrimos no governo dos clubes desportivos – talvez não entendam, em toda a sua magnitude, o valor inestimável deste livro, que não tem par, no âmbito da “estratégia, na competição desportiva”, em língua portuguesa. Urge dizer ainda que tem vigorado realmente, mesmo entre as elites clássicas (políticos, intelectuais, escritores, artistas, etc.) um pronunciado esquecimento e, nalguns casos. até desprezo, pelo desporto como prática socialmente organizada. Eu sei que as expressões “Atividade Física”, “Educação Física”, “Preparação Física”, de acentuado pendor cartesiano, muito concorrem à indiferença e ao desinteresse de muitos. No entanto, embora estas expressões não retratarem, fielmente, a prática profissional dos “professores de Educação Física”, que tem em vista a complexidade humana, não há razões plausíveis para desconhecer que as aulas de Educação Física, designadamente nos ensinos Básico e Secundário, completam, com a sua singularidade e intransmissível novidade, o que as demais disciplinas do currículo não podem, ou não sabem dar. O livro Agôn - Homo Sportivus: Estratégias & Estratagemas é da autoria de dois “professores de educação física” que pretendem estudar a “estratégia”, como facto e como valor, bem longe das taras cartesiana, positivista, empirista. E fazem-no com um brilho tal e com tamanho rigor, na interação ciência-filosofia, que podem repetir, sem receio, as palavras de Heraclito de Éfeso a um grupo de presumidos curiosos: “Aqui, também moram os deuses”. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto