A grande interrogação (artigo de Manuel Sérgio, 228)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 05-02-18 8:11
Por Manuel Sérgio

Foi no contacto com alguns treinadores desportivos, que fizeram o favor de ser meus amigos, que aprendi, mesmo antes dos meus estudos da “filosofia da práxis”, que… não sabe quem não faz! E fui repetindo, ano após ano, a quem me ouve: quem não pratica não sabe! Hoje, digo o mesmo a esquerdistas e a direitistas, a crentes e ateus, aos meus amigos e aos que me detestam. Mas passo a palavra a quem mais sabe do tema do que eu: “A primeira revolução industrial ocorreu entre 1760 e 1840, aproximadamente. Desencadeada pela construção de caminhos de ferro e pela invenção da máquina a vapor, deu início à produção mecânica. A segunda revolução industrial, que começou no final do século XIX, prolongando-se pelo início do século XX, tornou possível a produção em massa, impulsionada pelo advento da eletricidade e da linha de montagem. A terceira revolução industrial começou na década de 1960. É habitualmente chamada revolução dos computadores, ou revolução digital, porque foi catalisada pelo desenvolvimento dos semicondutores, da computação mainframe (década de 1960), dos computadores pessoais (décadas de 1970 e 80) e da Internet (década de 1990). Ciente das várias definições e argumentos académicos, usados para descrever as primeiras três revoluções industriais, acredito que estamos hoje no começo de uma quarta revolução industrial. Esta revolução começou na viragem deste século e baseia-se na revolução digital. Caracteriza-se por uma Internet muito mais móvel e omnipresente, por sensores mais pequenos e mais potentes, que se tornaram mais baratos, pela Inteligência Artificial e pela Aprendizagem Automática. As tecnologias digitais, centradas em hardware, software e redes de computadores não são novas, mas estão a criar rupturas com a terceira revolução industrial; tornaram-se mais sofisticadas e, como resultado, estão a transformar as sociedades e a economia global” (pp. 9 e 10). Esta citação, que não foi breve, do livro A Quarta Revolução Industrial (Levoir, Marketing e Conteúdos Multimédia, Lisboa, 2017) da autoria de Klaus Schwab, presidente executivo do Fórum Económico Mundial, diz-nos que um mundo novo entrou de nascer. Mas voltemos ao livro. A sua premissa principal “é que a tecnologia e a digitalização revolucionarão tudo” (p. 12). Donde se infere que estão a idealizar-se e a nascer novas formas alternativas da prática desportiva. Podendo evocar, como ninguém, o clima encantatório da sociedade britânica vitoriana e portanto a consolidação, como força social, da burguesia, o desporto nasce como a corporização dos valores e normas de conduta da primeira revolução industrial. No entanto, embora o amanhecer da burguesia, ainda é a aristocracia a classe social dominante. Poderá, por isso, escrever-se sem receio que, porque nasceu nas public schools e nas universidades, o desporto é, principalmente, de ascendência aristocrática. Deverá sinalizar-se , a propósito, que os reis D. Carlos, em Portugal, e Afonso XIII, em Espanha, foram cultivadores apaixonados da prática desportiva. Como aristocrata era o barão Pierre de Coubertin. Isto, sem esconder que, nas universidades com a maioria de ascendência aristocrática, os “desportos coletivos”, como o futebol e o râguebi, não pareciam adequar-se à bizarra afetação, ao maneirismo postiço de alguma fidalguia (o hipismo, o tiro, a esgrima pareciam satisfazer muito mais os ideais de um gentleman). Foi nas public schools onde os filhos da burguesia predominavam que os “desportos coletivos” em primeiro lugar se desenvolveram, num claro sintoma de uma consensualidade firmada por uma classe ascendente. Entretanto, entre as classes populares (entre o proletariado) o corpo não passava de um mero instrumento de trabalho. Não é de estranhar, assim, que entre os pioneiros do clubismo desportivo português se contem antigos estudantes de cursos superiores britânicos e pessoas com uma mundividência racionalista “A terceira revolução industrial começou na década de 1960. É habitualmente chamada revolução dos computadores, ou revolução digital”. Durante a década de 30 e 40 e 50, na Europa, as ditaduras estatizaram o desporto. Volto a Espanha e a Portugal: nos países ibéricos, copiou-se, imitou-se, reproduziu-se o sistema desportivo da Alemanha nazi. À Falange espanhola e à Mocidade Portuguesa foi confiado o desporto escolar. Os cursos superiores de Educação Física integravam, não a Direção-Geral do Ensino Superior, mas a Falange, em Espanha, e a Direção-Geral da Educação Física, Desportos e Saúde Escolar, em Portugal. O desporto, em Portugal, deveria obedecer à Ordem que Salazar decretara, nas ruas e nos espíritos – ordem fundada na trilogia Deus, Pátria e Família, do discurso de Salazar, em Braga, em 1936, durante as comemorações, ruidosas e festivas, do 10º. aniversário da “Revolução Nacional”. O desporto era portanto controlado pelo Estado e transformava-se em mais um fator de “normalização” do País, “segundo uma representação mental, esquematicamente fundada na religião (Deus), na nação (Pátria) e na obediência (Autoridade)” (Filomena Oliveira e Miguel Real. O Teatro na Cultura Portuguesa do Século XX, Vega, Lisboa. 2016, p. 77). Gustavo Pires, catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e um intelectual que cultiva, como poucos, não o ortodoxo, ou o heterodoxo, mas o paradoxo (aliás, como o faziam António Sérgio e Agostinho da Silva) – Gustavo Pires, no seu livro Olimpicamente – a rutura de Pierre de Coubertin com a Educação Física (F.M.H., Cruz Quebrada, 2014) lembra palavras de Pierre de Coubertin: “A noção de Desporto é hoje, como ontem, a única força verdadeiramente ativa e durável, em matéria de educação física. Se ela se apagar e desaparecer, a educação física apagar-se-á também, como um balão que perde o ar” (p. 66)... A quarta revolução industrial “não se refere apenas a máquinas e sistemas inteligentes e conectados. O seu alcance é muito mais vasto. Ondas de novas descobertas ocorrem simultaneamente em áreas que vão desde o sequenciamento genético à nanotecnologia, passando pelas energias renováveis ou pela computação quântica. É a fusão destas tecnologias e a intersecção entre os domínios físico, digital e biológico que tornam a quarta revolução industrial radicalmente diferente das revoluções anteriores” (op. cit., p. 11). Mas há necessidade de constituir uma galeria de interrogações, nenhuma delas entendida como mónada: é possível planear a quarta revolução industrial, em povos que ainda não viveram a segunda, ou seja, em 17% da população mundial? E a mesma interrogação é de levantar, diante de mais de metade da população mundial, que ainda não tem acesso à Internet e portanto onde a terceira revolução industrial ainda não se completou ou até iniciou. Antecipam-se inovações verdadeiramente fantásticas que apontam os 100 anos, como média de vida, para as novas gerações. Trabalhos teóricos, densos e sistematizados, garantem o aumento da produtividade, a melhoria da qualidade de vida, a criação de novas empresas; “espera-se que mais de 50 mil milhões de dispositivos estejam ligados à Internet até 2020” (op. cit., p. 130); proclama-se, como inevitável, maior capacidade para viver de forma independente e um competente controlo remoto das nossas casas; serão mais rápidas e eficientes as chamadas de emergência, os avisos, os alarmes; assinala-se, com certeza indubitável, um mais o baixo custo da prestação de serviços, o aumento do acesso à educação, mais e melhor emprego e avanços inesperados na medicina e na cirurgia. Tudo isto implica espantosos desempenhos desportivos (mais espantosos do que os atuais). Mas uma grande, imensa interrogação se levanta, no meio da total desteologização do pensamento: e é possível um desenvolvimento verdadeiramente humano, numa sociedade tecnologicamente avançada e moralmente ameaçada? O antropocentrismo radical, num horizonte que recusa Deus, levou-nos ao niilismo dos valores, à falta de significação e sentido para o mundo em que vivemos. Vale a pena viver, sem valores, sem transcendência, sem Deus? Donde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? Já ideologizámos o saber científico, já fizemos de todos os desejos uma categoria antropológica, já libertámos todos os “imperativos categóricos” do convívio com qualquer religião. E estão aí, à vista do mais limitado cidadão, que a corrupção, a inveja, o ódio, a violência parecem aumentar ao mesmo ritmo do desenvolvimento informativo, científico e tecnológico. Pode concluir-se, portanto, que a dignidade do ser humano exige mais do que ciência, ou tecnociência, ou tecnologia. A dignidade humana está antes e depois de todas as dimensões em que a nossa existência se manifesta e desdobra. Já li, numa entrevista do Prof. Agostinho da Silva, que “o mundo tem tantas possibilidades que até o impossível parece possível”. Mas o ser humano já sabe que o positivismo comteano e os demais positivismos que a História regista – envelheceram, estiolaram, faliram. E sabe também que uma tecnociência, sem ética, anula a possibilidade, no ser humano, de uma existência em plenitude. Não, não digo que o pensamento perca a sua vocação provocatória, inovadora e crítica. Sem ela, germina a insuportável rotina e todo um conjunto de impedimentos ao livre curso do pensar. O que digo é que um pensamento, sem entraves, um pensamento livre e libertador, encontra na complexidade humana mais do que tecnociência. O próprio princípio de indeterminação de W. Heisenberg significa, para mim, que me considero um humilde comentarista dos grandes filósofos, que há uma Razão, para além das razões. A essa Razão eu, um não crente fanático, um intelectual não fingidor, que aprendo com os ateus e com os crentes, chamo Deus. Escrevi acima que “um pensamento livre e libertador encontra, na complexidade humana, mais do que tecnociência”. Ora, porque não há desporto, mas pessoas que praticam desporto, o mesmo acontece necessariamente, na prática desportiva. Há mais do que tecnociência, na prática desportiva. A relação dialética teoria-experiência, facto-interpretação, na alta competição, coloca-nos diante de temas metafísicos e teológicos de que não se fala nos manuais do treino desportivo. Se há pessoa, neste mundo, que tem escutado desabafos de toda a sorte de treinadores desportivos – sou eu! Não há, nesta minha afirmação, um assomo que seja de estúpida vaidade. Pretendo acentuar tão-só que a minha “prática teórica” permite-me alguma “prática” e, por isso, a palavra que honestamente pode conceptualizar e não só emocionar. Por outro lado, resultados recentíssimos de investigação científica desmontaram toda a estrutura de um saber unicamente físico-químico-matemático, no vasto mundo das relações humanas. O nosso parentesco essencial com a matéria, a nossa flagrante animalidade não escondem que somos pessoas dotadas de emoção, de razão e de linguagem; que a ciência e a filosofia não conseguem erradicar, em cada um de nós, aspirações puramente religiosas que vão até onde as indispensáveis ciência e filosofia não chegam. Em todos os jogos de futebol, há jogadores que rezam, à vista de toda a gente. Porque pensam pouco? Porque não leram nunca, nem Descartes, nem Espinosa, nem Locke, nem Hegel, nem Darwin, nem Marx, etc., etc.? Porque ainda não saíram da segunda revolução industrial? Por esta razão muito simples, se bem penso: porque somos mais do que ciência e filosofia. Nós e… os jogadores de futebol! E um treino desportivo não passará de um erro tremendo, se o esquecer. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto