«Associação de Futebol do Porto: Uma Instituição Centenária» (artigo de Manuel Sérgio, 227)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 30-01-18 4:8
Por Manuel Sérgio

Não precisa o Dr. José Lourenço Pinto, preclaro presidente da Associação de Futebol do Porto (A.F.P.), de quaisquer encómios de quem quer que seja, muito menos de quem, como eu, para tal não tem um conhecimento vivido do dia-a-dia de uma associação de futebol. As suas credenciais estão no sucesso alcançado pela sua vasta e valiosa obra, como jurista e como dirigente desportivo, e consequente prestígio da sua pessoa. E com uma característica incomum, no “reino do futebol”: a sua constante pedagogia para que o Futebol, como Desporto que é, se observe sempre como “movimento intencional e em equipa da transcendência” – transcendência física e intelectual e sentimental e moral! Pelo espaço que me é concedido, não posso alongar-me no elogio de um dos vultos exponenciais do dirigismo desportivo português de todos os tempos, já consagrado pelo muito que fez e, felizmente, em condições, físicas e psíquicas, para dele se esperar outro tanto, ou… o dobro! A sessão de lançamento do livro Associação de Futebol do Porto: Uma Instituição Centenária foi preparada, planeada e liderada, até ao mais Ínfimo pormenor, pelo Dr. José Lourenço Pinto e, no brilho e dignidade que esta sessão manifestou, avulta o presidente da A.F.P., com o muito que tem, com o muitíssimo que é. A A.F.P. “acabou por ser formalizada em Agosto de 1912 e ficou estatutariamente definida em 1914, com a designação de Associação de Futebol do Porto”. E, sempre que um incansável e honrado estudioso do desporto em geral, ou do futebol em particular, quiser errar, no Norte de Portugal, por caminhos de serra e largos horizontes e penetrar na sentimentalidade desbordante do povo da Cidade Invicta que da mais popular das modalidades desportivas fez um símbolo inapagável de uma região e de um País – tem hoje um precioso auxiliar no livro Associação de Futebol do Porto: Uma Instituição Centenária, da autoria do Prof. Fernando de Sousa e dos Drs. Isilda Monteiro, Diogo Ferreira e Ricardo Rocha, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Estou a ler o livro de José Tolentino Mendonça, O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas. Dele, na página 12, colhi o seguinte: “Mesmo se vivemos rodeados de perguntas, as mais preciosas são, porventura, aquelas que em silêncio nos acompanham desde o princípio, aquelas que se confundem com o que somos , como o espinho no troço da rosa ou como a rosa que, sem sabermos como, floresce no cimo improvável daquela sucessão de espinhos”. Na mesma página, encontramos uma afirmação da dulcíssima Clarice Lispector: “Eu sou uma pergunta”. Um dia, em fugitivo apontamento pessoal, porventura apressado, mas que lhe saiu do mais fundo da alma, o Dr. Lourenço Pinto confidenciou-me: “Sou, intelectualmente falando, um filho da Universidade de Coimbra”. E desabafou, olhando as águas violáceas do porto de Leixões, que se movimentavam, apesar da aragem quase morta: “Sinto pena, por isso, que o nosso futebol viva tão divorciado da Cultura!”. Guardei estas palavras deste meu querido Amigo (que eu conheci pessoalmente, através do inesquecível, e também meu querido Amigo, José Maria Pedroto) que me acudiram à lembrança, durante a já referida sessão de lançamento do livro Associação de Futebol do Porto: Uma Instituição Centenária. Decorreu a cerimónia nas instalações da A.F.P., na passada quinta-feira, dia 26 de Janeiro de 2018. Presidiu o Dr. João Paulo Rebelo, Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, ladeado pelo magnífico Reitor da Universidade do Porto, Doutor Sebastião Feio de Azevedo, pelo Dr. Fernando Gomes, presidente da F.P.F., pelo Doutor Fernando de Sousa, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e pelo anfitrião, Dr. José Lourenço Pinto, sempre atento ao que se passava, primeiro representante, naquela cerimónia, de uma instituição fascinadora, complexa, multímoda e… centenária. Numa sala cheia de pessoas (principalmente, presidentes das várias Câmaras Municipais do distrito do Porto, dirigentes desportivos, treinadores de futebol e antigos jogadores) – numa sala cheia de pessoas e de calor humano, foram escutados, com grande emoção e respeito, o Dr. João Paulo Rebelo, um governante que, porque sabe que não sabe, governa com uma sensatez e uma segurança só ao alcance dos eleitos; o Doutor Fernando de Sousa, historiador de renome e o principal autor do livro que se admirava e aplaudia; o Dr. Fernando Gomes, para mim o primeiro, indiscutivelmente o primeiro, na vasta galeria dos presidentes da F.P.F.; o Doutor Sebastião Feio de Azevedo que fez (como lhe chamou o Dr. Lourenço Pinto) a “oração de sapiência” daquela cerimónia e que, para além das particularidades de gosto pessoal, relembrou, com mestria, os “agentes do futebol” mais representativos do distrito do Porto; e… o Dr. José Lourenço Pinto que, emocionado, soube tornar-se o denominador comum, o intérprete fiel dos sentimentos de reconhecimento e admiração, que unia todos os presentes, pela obra em apreço, de facto um livro de altíssimo nível ético, científico, sentimental, intelectual, onde se movimentam os pioneiros da Associação de Futebol do Porto e todos os que mais autenticamente a representaram, através dos anos. Não me esqueço de uma frase que ouvi ao meu Amigo, Dr. José Lourenço Pinto: “Faz de cada minuto da tua vida, não uma perda, mas uma conquista”. Por isso, na mensagem que deixou impressa, neste livro, ele manifesta que a sua Associação, designadamente sob a sua presidência e diligente orientação, reproduz e multiplica o legado de generosidade e bondade dos pioneiros, de todos os que a fizeram e amaram. “Cem anos ao serviço do futebol. Cem anos ao serviço do Porto. Cem anos ao serviço do distrito do Porto e de Portugal, como ficou bem patente nos depoimentos deixados nesta obra por governantes, presidentes de Câmara, dirigentes desportivos, diretores dos principais órgãos de comunicação, ligados à prática do futebol, e eminentes figuras do desporto nacional, testemunhos que muito nos sensibilizaram e redobraram a nossa vontade de continuar a trabalhar em nome deste desporto, tornado paixão, que a todos nos une” escreveu ele, na mensagem acima referida. Mas ele disse também, no seu discurso que “no desporto e na vida, não há só o fulgor das palavras, há principalmente o mérito das obras. Mais importante do que a eloquência é a ação. E a Associação de Futebol do Porto orgulha-se, porque a serviram pessoas de excecional valia física, técnica, intelectual e moral”. E sublinhou, com ênfase: “Quando no futebol português se gasta tanto papel, para caluniar e para injuriar e para mentir, nós transformamos o nosso papel num livro onde se adquire mais perfeita noção da grandeza histórica do futebol portuense e mais nítida consciência da sua unidade moral e mais fé no seu destino e mais confiança no seu Futuro”. E assim terminou o seu discurso escultural e vivo de um portuense que sempre fala e escreve com a espinha direita, com a inteireza moral dos lídimos portuenses que nunca, ao longo dos tempos, mentiram às suas convicções: “E ainda um desabafo que me sai da alma: que bem sabe ao velho aluno da Alma Mater, que sou eu, este encontro entre a Universidade e a Associação de Futebol do Porto. Que o Desporto nunca deixe de ser Cultura, para ser verdadeiramente Desporto!”. Senhor Dr. José Lourenço Pinto e meu Ilustríssimo Amigo: Quem tem sede e vai à fonte curva-se para beber. Assim eu me curvo perante o robusto imaginário, a exemplar solidariedade, a perspicácia vivíssima do meu Amigo. E assim inclinado faço ardentes votos, para que o atual presidente da Associação de Futebol do Porto continue como é: um invulgar dirigente desportivo, porque um cidadão sem mácula. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto