Recriar a cultura desportiva (artigo de Manuel Sérgio, 226)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 22-01-18 8:23
Por Manuel Sérgio

Se hoje pensamos nos valores do Futuro, isto significa que, para nós, começaram a envelhecer muitos dos valores do Passado e até do Presente. Com singular altivez, o Ocidente julgou imutáveis os seus conceitos de Verdade, de Bem e de Belo. “Moral só existe uma, como só existe uma geometria”, proclamava o iluminista Voltaire (1694-1778). A problemática dos valores resumia-se a pouco, para os europeus, nomeadamente os ocidentais: através de Jesus Cristo, Deus revelara-nos esses valores, só nos restava concretizá-los na vida, para nosso bem e glória de Deus. Se bem penso, não me arrogo de qualquer novidade: com o Racionalismo, o Empirismo, o Protestantismo, a Revolução Francesa e o nascimento do Capitalismo, o homem ocidental protagonizou uma radical mudança de paradigma, reivindicando para o Homem muito do que se pensava ser atributo de Deus e gerando assim um pujante antropocentrismo. Os “fundamentos” passaram a ser outros. “Friedrich Nietzsche é o pensador que coloca, com a máxima radicalidade, a questão da desaparição do fundamento, através da tematização da morte de Deus. Mas, proveniente de muitos outros lados, torna-se uma questão pública o desaparecimento dos fundamentos em que assentavam todos os valores” (José A. Bragança de Miranda, Analítica da actualidade, Colecção Vega Universidade, Lisboa, 1994, p.71). Os filósofos do Iluminismo ainda dispunham da possibilidade de acreditarem numa “natureza humana”, que se mantinha inamovível, inalterável, para além dos condicionalismos de tempo, espaço e tradições. Mas a aventura humana (que é sempre inseparável do risco) atingiu, hoje, um ponto em que os valores não nos chegam abonados por qualquer preceito divino, ou pela investigação diurna e noturna de uma escola filosófica, mas pela responsabilidade (ou pelo capricho) dos mais desvairados individualismos. Vivemos, assim, no entender de Max Weber, um “politeísmo de valores”, onde predomina o tradicional livre-arbítrio que não se emancipou da publicidade, da propaganda, da ideologia dominantes. Um livre-arbítrio, acrescente-se, que não frequentou Erasmo, Espinosa, Galileu, Kant, Voltaire, Hegel, Marx, etc. Eportanto onde o Poder condiciona e manipula o Saber, pois que a ideologia dominante é o Poder que a fomenta e propaga, com muita retórica e muita demagogia à mistura. As contínuas críticas à arbitragem têm uma “razão suficiente” (recordo, aqui, o “princípio da razão suficiente”): tudo, em democracia, deverá criticar-se, como sinal de liberdade que gera desenvolvimento e progresso. O que não significa que a crítica em questão, sendo razoável, tenha uma ponta de razão, dado que, frequentemente, se destina a esconder os erros de dirigentes, técnicos e dos próprios jogadores. Com ciência e consciência, é nosso um futebol que pode ombrear com o que, nesta área, de melhor o mundo tem. Sem ciência e consciência, tomamos alarmada consciência de que o nosso futebol é mediano e chega a ser medíocre. Eu volto à Federação Portuguesa de Futebol. A elevada temperatura emocional que envolve e como se exprime o clubismo futebolístico português mostra-se incapaz de colher as lições de “espírito desportivo” que florescem na conduta irrepreensível do Dr. Fernando Gomes, o presidente da FPF e do engenheiro Fernando Santos, selecionador nacional de futebol (e da equipa técnica que o acompanha). Apraz-me salientar, também, o Dr. José Lourenço Pinto, presidente da Associação de Futebol do Porto e pessoa de um alevantado ideal de Justiça e portanto sempre a pleitear contra a mentira e a vaidade que são os objetivos primeiros de muita gente que invadiu o futebol português e nele, com prosápia, se instalou. Segundo o Código de Ética Desportiva, do Plano Nacional de Ética no Desporto, o “espírito desportivo é respeitar códigos, regulamentos, honrar a palavra dada e os compromissos assumidos, recusar o recurso a quaisquer meios ou métodos, ainda que legais, no sentido de vencer ou tirar vantagem, bem assim como repudiar esses comportamentos ou atitudes, junto daqueles que prevariquem ou que influenciem terceiros, nesse sentido”. Portanto, o desportista (o verdadeiro desportista) é um homem que está na ética, como o homem (no entendimento de Espinosa) está em Deus. Recordo, com alegria, a leitura que fiz, em finais da década de 70, do Nascimento da Clínica de Michel Foucault, onde aprendi que a Medicina, a partir dos últimos anos do século XVIII, se constituiu como uma ciência objetiva do corpo – que só pela fisiologia se estudava! Entendi, então, a razão por que a Educação Física nasceu também no século XVIII. E, quando em 1983 visitei o Brasil, pela primeira vez, a convite do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, foi com o tema “O Racionalismo na Medicina e na Educação Física” que me apresentei, como orador, na sessão de abertura de um congresso. Onde, aliás, manifestei a minha convicção de que o dualismo antropológico racionalista era o reflexo do dualismo social rico-pobre, ou senhor-servo. Submersas num cartesiano fisiologismo, nem a Medicina, nem a Educação Física, podiam fazer suas, nesses recuados anos, as palavras de Espinosa, onde não cabiam o dualismo metafísico-ontológico do res cogitans-res extensa, ou o das Duas Cidades de Santo Agostinho. E, para um desporto cartesiano e positivista, os valores contavam pouco. As reivindicações científicas do desporto não ultrapassavam os limites do paradigma biomédico… Ora, a investigação sobre atividades humanas concretas (como o desporto, por exemplo) levanta questões que são irresolúveis, na ausência de opções éticas e culturais que envolvem a complexidade humana. Portanto, qualquer resultado de uma investigação empírica, no âmbito do desporto, deve integrar hipóteses suplementares de natureza filosófica e epistemológica, para poder compreender-se. O que equivale a dizer que a cultura (ou incultura) de um treinador é fundamental na sua liderança em particular e na sua conduta em geral. De facto, de tanto julgar-se que medir é só quantificar têm muitos “agentes do futebol” uma aberta relutância em aceitar conclusões que não decorram de técnicas estatístico-matemáticas, como se, no conjunto das hipóteses auxiliares mobilizadas, todas as hipóteses não matematizáveis fossem sempre “coisas” irrelevantes. Quando comecei a falar, publicamente, da teoria da “motricidade humana”, os quadros de referência cultural de muitos dos que rejeitavam (e rejeitam) as minhas ideias pensavam (e pensam) a Educação Física na mais pétrea atitude fixista, com um espaço de saberes que ainda não ultrapassou, nem Descartes, nem Comte. Estavam (estão) perfeitamente conformados com o que o Passado lhes legou. De facto, o Passado é para respeitar-se, mas para ser (no todo, ou em parte) ultrapassado também. E, se não se ultrapassa o Passado, a ciência passa a religião; na resistência às teses adversárias, há mais agressividade, há mais dogmas, do que tolerância e conhecimento. Há, assim, necessidade de uma “revolução científica” nos programas dos cursos universitários de Desporto e nos cursos de treinadores. A resistência ao paradigma “motricidade humana” resulta mais da inércia de um “senso comum”, mascarado de científico, do que de estudo e investigação rigorosos… E termino com António-Pedro de Vasconcelos, no seu livro O Futuro da Ficção (Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, 2012): “Foi sempre a ficção que moldou as civilizações e lhes garantiu prestígio e eternidade, como foi a sua ausência ou o seu declínio que as deixou no esquecimento, ou as condenou à decadência; foi a capacidade de imaginação que o criadores tiveram para representar a realidade, sob a forma de palavras, de sons, ou de imagens, que fez a Atenas de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, a Florença dos Médici, a Roma de Miguel Ângelo e de Bernini, a Inglaterra de Marlowe e de Shakespeare, a Espanha de Cervantes e de Velásquez, a Versalhes de Molière, de Corneille e de Racine, a Viena de Mozart e de Beethoven, a França de Balzac, de Stendhal e de Victor Hugo, a Itália de Verdi e de Puccini, a Rússia de Pushkin e de Gogol, de Dostoiewski e de Tolstoi, a Hollywood de Chjaplin e de Capra, de Ford e de Howard Hawks. Sob a forma de romances e poemas, de pinturas e esculturas, da ópera, do teatro, ou dos filmes, foi sempre a ficção que moldou o imaginário dos homens e consagrou a memória das civilizações”. E assinala ainda este notável cineasta português e homem de invulgar erudição: “Daí, a minha interrogação: neste limiar do milénio, onde estão as ficções que irão despertar novamente os nossos sonhos e mobilizar as nossas energias? E de onde irão surgir” (p. 9). Nas novas formas de ficcionar a realidade, também estão muitos dos fatores científicos e culturais de progresso da prática desportiva. Mas, para serem atuais, é preciso recriá-los, é preciso submetê-los a uma sistemática interrogação e até a uma rigorosa interdisciplinaridade. Mas o senso comum de muita gente ainda não descobriu que construir, desconstruir e reconstruir é o princípio estruturante de qualquer paradigma. E não o 4x4x2, ou o 4x3x3, ou o 3x5x2, ou o 4x2x3x1, etc., etc. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto