«Somos amigos. Não há problemas!» (artigo de Manuel Sérgio, 219)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 04-12-17 1:41
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No dia 1 de Dezembro de 2017, assisti, pela televisão, aos jogos de futebol Sporting 1-Belenenses 0 e FC Porto 0 – Benfica 0. Depois que atravessei a porta augusta dos 80 anos, deixei de frequentar os estádios de futebol, entre os meses de Novembro e Abril, com receio que o frio me traga uma constipação, ou outra patologia mais funesta. Mas... uma hora (se tanto) antes de o Porto-Benfica principiar, A Bola TV entrevistou, na cidade do Porto, no Café Velasquez (onde algumas vezes me encontrei com José Maria Pedroto) três rapazes e uma linda menina, quatro jovens que, se não me engano, bordejavam os 20 anos. Saboreavam um café fumegante e conversavam (assim parecia) com alegria e sobriedade. Eram três portistas e um benfiquista. Os cachecóis, com as cores e os emblemas clubistas não o escondiam. Numa semana, em que tanta gente flamejou, como labaredas, assopradas pela rivalidade, que chega a ser doentia, Porto-Benfica, três portistas e um benfiquista, conversavam como gente governada por sãos princípios. A jornalista de A Bola TV aproximou-se e inquiriu: “Estão aqui três portistas e um benfiquista?”. Um deles, portista, olhou-a com a face iluminada de júbilo e respondeu: “Assim é, mas somos amigos e a amizade está por cima de todas as rivalidades clubistas”. E murmurou ainda: “Quando estou com ele, nem me lembro que ele é benfiquista. Somos amigos! Não há problemas!”. Na mesa do lado, uma figura seca, trigueira, que poderia desenhar-se com ângulos agudos tão-só, sem dizer palavra, acompanhou os jovens com um sorriso plácido e inteligente. De facto, uma conversa entre jovens adeptos, de ampla e cordial respiração humanista, antes de um Porto-Benfica, nem sempre é, infelizmente, muito normal… O jogo, excetuando os 20 minutos iniciais, foi de amplo domínio do FC Porto. E, se o jogo terminou sem golos, para além doutras circunstâncias, há que distinguir a “classe”, que nem sempre se tem realçado devidamente, do guarda-redes “encarnado”. Não se infira que neste reconhecimento da superior exibição de Bruno Varela existe implícito o postulado de que aos seus colegas de equipa faltou vontade de bem servir a filosofia de jogo do treinador Rui Vitória (meu antigo aluno e treinador que muito admiro) ou que não foram exemplarmente profissionais, ou que todos eles não estão bem acima da mediania. Quero dizer, simplesmente, que o Bruno Varela se afirma, dia após dia, como um guarda-redes de méritos indiscutíveis. Com lugar, entre os dois ou três melhores do nosso futebol! É natural que alguns críticos, que há pouco o exautoravam, afirmem que estou redondamente enganado. Todos os dons humanos são contingentes e precários e hoje se corrigem erros que ontem foram fugazes verdades. A vida do pensamento é uma série de constantes retificações. As verdades científicas não passam de uma sucessão de pretensas verdades que o tempo vai desmentindo e aperfeiçoando. Admito portanto que me engano, quando aponto o valor do Bruno Varela. E aceito sempre que me façam a esmola de alumiarem a minha cegueira. Mas, hoje, assim penso e espero não enganar-me. Assim como penso que, sem um avançado, com características iguais às do grego Konstantinos Mitroglou, rematador, inteligente e forte - em jogos da Liga dos Campeões, ou entre os “três grandes” do nosso futebol, ou seja, em jogos de exigência máxima, o Benfica perde muita, muita eficácia. A alta competição desportiva não é circo, é sobre o mais competitividade e produtividade. O futebol de alta competição não tem de ser bonito, mas tem de ser necessariamente eficaz. A presença de um futebolista, como Mitroglou (1,88 de altura e 86 quilos de peso), na equipa do Benfica, tornaria mais rentável o futebol do Jonas, porque o libertaria, porque lhe abriria os espaços indispensáveis à sua criatividade. Num FC Porto, que deixou de ser inerme e pusilânime, por força da combatividade, da competência técnica e da sabedoria tática do seu atual treinador; num FC Porto sacudido por uma rajada de esperança – Danilo foi, no último Porto-Benfica, uma figura gigante. Usando a conceção clássica de “elite”, opondo à ditadura da quantidade o apelo racional da qualidade, ele integra a “elite” dos nossos melhores jogadores de futebol. O que fez, no Porto-Benfica da última sexta-feira (2017/11/30), só o pode fazer um superdotado, com muitas horas de treino, de preparação, de reflexão, mas capaz também de audácia, decisão e temeridade. De facto, uma exibição inesquecível. Parece não ser erro avançar que avaliar é situar um facto ou um acontecimento, uma pessoa ou uma coisa, numa escala de valores. No âmbito de uma crítica a um futebolista ou a um jogo de futebol, a avaliação transforma-se num processo complexo, pois são muitas as variáveis a ter em conta. Não são principalmente os erros dos árbitros as “causas das causas” de resultados menos felizes, mas os erros dos treinadores e dos jogadores. No Porto-Benfica, de que nos ocupámos neste artigo, os jogadores “azuis e brancos” não concretizaram quatro “golos feitos” (como se diz em jargão futebolístico). O árbitro errou uma vez, ao anular um “golo limpo” ao FC Porto. Não mais! Não se diga, por isso, que o Porto (que foi muito superior ao Benfica, em 70 minutos de jogo) não ganhou por “aselhice” do árbitro: é que a maior “aselhice” não residiu no árbitro! Tenho “amigos do peito” no FC Porto e na Associação de Futebol do Porto (designadamente o seu ilustre presidente, Dr. Lourenço Pinto). Beneficiei da simpatia de José Maria Pedroto. Não sou benfiquista, nem declarado, nem encapotado. Vejam nas minhas palavras, unicamente, uma grande vontade de seriedade. Nada mais! Leio o texto de Vítor Serpa, na edição do jornal A Bola (2017/12/3): “O FC Porto teve uma segunda parte de grande intensidade, avassaladora, asfixiante, mas com evidentes perturbações ao nível da lucidez e da definição nos momentos decisivos, o Benfica voltou a ter, no início, vinte e poucos minutos de qualidade superior ao FC Porto, no Dragão, mas lentamente fez-se regressar a uma exasperante ausência de solidez competitiva e deixou à sorte do jogo a definição do resultado”. Faço minhas as palavras do jornalista Vítor Serpa. Há que inovar ao nível dos processos de recolha dos dados, tendo em conta a complexidade de um jogo de futebol e dos jogadores de futebol e ainda ao nível dos critérios de observação e valoração do rendimento dos jogadores. Um jogo de futebol não se limita à tática e à preparação física, desprezando os modelos qualitativos, que apontam para uma visão holística da aprendizagem. A deficiente cultura de alguns treinadores (a cultura, relembro, é a aliança do saber e da vida), com muitos anos de prática, nem sempre dá o relevo devido aos aspetos psicológicos, emocionais, espirituais do jogador, que me parecem fundamentais no desempenho desportivo. Por isso, eu venho dizendo que não há “periodização tática”, mas “periodização antropológica e tática”. Porque os jogadores são homens, o campo de confrontação não é meramente futebolístico. O fascínio do quantitativo conduz, de facto, a uma depreciação dos processos qualitativos e gera uma subvalorização das humanidades e das artes, na análise e estudo da pessoa humana e da sociedade. Por isso, não pode deixar de referir-se que os mitos positivistas da objetividade, expressa em números, parecem incompetentes para assumir as emoções, os sentimentos. Mas (porque tenho de terminar) eu só queria dizer que, no último Porto-Benfica, o Porto jogou melhor, foi muito melhor. E que os quatro jovens que A Bola TV entrevistou, no Café Velasquez, nada têm a ver com a mediocridade e o sectarismo que, por vezes, alastram no nosso futebol. Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto