Lutaremos, meu Amor (artigo de Manuel Sérgio, 113)

ÉTICA NO DESPORTO 15-11-15 4:39
Por Manuel Sérgio

Depois do crime monstruoso, em Paris, no dia 14 de Novembro de 2015, porque vivemos, de facto, em tempo de terror e porque “não há qualquer desculpa, para os atos terroristas, independentemente do motivo ou da situação em que são executados” (Habermas) - não nos resta senão, a nós (principalmente a nós, idosos e doentes, que mais não podemos fazer) continuarmos a lutar, numa luta capaz de impor a autoridade de certas palavras (de certos valores) sobre o tempo que nos coube viver. Tenho diante de mim o livro A invenção do amor e outros poemas, de Daniel Filipe, onde colhi o poema seguinte: Pelo silêncio na planície pela tranquilidade em tua voz pelos teus olhos verdes estelares pelo teu corpo líquido de bruma pelo direito de seguir de mãos dadas na solidão noturna lutaremos meu Amor Pela infância que fomos pelo jardim escondido que não teve o nosso amor pelo pão que nos recusam pela liberdade sem fronteiras pelas manhãs de sol sem mácula de grades lutaremos meu Amor Pela dádiva mútua da nossa carne mártir pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial pela cidade escravizada pela doçura de um beijo à despedida lutaremos meu Amor Pelos meninos tristes suburbanos contra o peso da angústia contra o medo contra a seta de fogo traiçoeira cravada em nosso doce coração aberto lutaremos meu amor Na aparência sozinhos multidão na verdade lutaremos meu Amor A poesia é o veio mais rico, original e profundo da alma humana. Que neste momento de revolta e de dor, pelos crimes dos inimigos da liberdade, ela nos aponte o caminho da coragem e da esperança. Para Kant, o Iluminismo marcou a libertação da humanidade da obediência cega aos dogmas das religiões e dos caudilhos – libertação conquistada, graças à auto-afirmação racional. Só que há gente que não conheceu o Iluminismo e aceita os dogmas mais desumanos como se neles se encontrasse, com especial destaque, a própria vontade de Deus. A religião deverá ser uma forma superior de compreensão da vida e de reconciliação com a vida. Ocorrem-me, neste passo, as palavras de Vieira: “A justiça está primeiro que a devoção”. Contra qualquer ideário de serviço a qualquer ditadura política ou religiosa; contra os que desconhecem que a História é uma (e vou servir-me de um neologismo de José Eduardo Franco) “construcriação” de cada um de nós; contra a violência, a fome, a miséria, a exclusão social – lutaremos, meu Amor, guardando a Esperança no coração, como segredo da vitória. Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto