Mén Non faz o retrato de mulheres sem medo

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE 19-09-15 6:4
Por António Santos

Quem são as mulheres são-tomenses em Portugal? Quantas são? Como vivem? Foi para responder a estas questões que a Mén Non – Associação das Mulheres de São Tomé e Príncipe promoveu, ontem, na Casa Pia de Lisboa, o primeiro congresso. O resultado é uma fotografia marcada pela desigualdade e pelo racismo, mas também pela coragem de desafiar a pobreza e remar contra tradições ancestrais. No dia 19 de setembro de 1974, as mulheres são-tomenses saíram à rua para exigir a independência do arquipélago. Esse sonho chegou mas, 41 anos depois, a igualdade efetiva permanece adiada para as mulheres são-tomenses e portuguesas, considerou Maria Smith, presidente da Associação Mén Non, que em crioulo significa «minha mãe» e que representa as mais de dez mil mulheres são-tomenses residentes em Portugal. O `sexo forte` que suporta tudo «Em São Tomé e Príncipe as mulheres não são só mães: são matriarcas», ressalvou Maria Smith, «comandam a economia da casa, lutam com a pobreza e gerem os conflitos familiares», explicou a A BOLA, «conseguem tudo, suportam tudo». «E, apesar disso, continuam a não acreditar em si próprias. Vivemos numa sociedade machista e a conjuntura social é um obstáculo, mas não podemos ficar à espera que a sociedade nos abra as portas», concluiu. Em São Tomé e Príncipe, apesar das conquistas da independência, 80% das mulheres ganha menos do que os homens e um terço diz já ter sido vítima de violência doméstica. Em Portugal, a situação também não é animadora. Segundo o governo, as mulheres ganham menos 18% que os homens e, só em 2014, 40 mulheres foram assassinadas pelos companheiros: estatísticas que vêm recrudescendo de ano para ano. Direitos e obstáculos «Em Portugal, por exemplo, preocupa-nos os obstáculos que estão a ser criados à Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) que, à semelhança do que acontece em São Tomé, empurram as mulheres para a clandestinidade», disse a líder da Mén Non, que recentemente subscreveu uma iniciativa contra as recentes alterações à lei da IVG. A mesma opinião partilha a presidente da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres (PpDM), Alexandra Silva, que vai mais longe e fala de «obstáculos inconstitucionais». «Estas alterações à lei vêm impor a consulta obrigatória de quatro especialistas, deixando um espaço de quatro a cinco semanas para quatro consultas que incluem psicólogos e assistentes sociais», argumenta a dirigente da PpDM. «Por outro lado, estas mulheres vão ser as únicas grávidas a pagar taxas moderadoras, o que vem expor a sua vida privada na hora do pagamento. Isto não é correto: é uma invasão do Estado à vida privada», denunciou. Dupla discriminação Para Alexandra Silva, as mulheres são-tomenses estão numa posição especialmente fragilizada, uma vez que, na sua maioria, recebem salários baixos e trabalha em horários atípicos, não tendo tempo para se organizar, estudar e estar com os filhos. Por outro lado, considera que as são-tomenses são vítimas de uma «dupla discriminação». «Se todas as mulheres são discriminadas pelo simples facto de serem mulheres, as são-tomenses são também discriminadas pela cor da pele e pela nacionalidade», explicou a presidente da PpDM, «sabemos de casos em que as qualificações superiores destas mulheres que não são reconhecidas no mercado de trabalho por motivos racistas». A história de como se invertem estas situações, insiste Maria Smith, vem escrita no feminino: «As mulheres têm de acreditar nelas próprias: ao longo destes 40 anos chegámos longe, mas podíamos ter conseguido muito mais se não fossemos só personagens secundárias. Temos de ser protagonistas», concluiu. Fotos António Azevedo/ASF