Num hotel do Funchal quiseram mandar dois negros para o «anexo dos criados» e o Benfica não deixou

FC Porto 16-02-2021 17:52
Por António Simões

Um ano depois de, em Guimarães, o racista (e soez) ataque a Marega ter feito de 16 de fevereiro de 2020 «dia de vergonha» para o futebol em Portugal – recordamos-lhe como antes, muito antes, o Benfica impediu que, num hotel do Funchal, se mandassem dois dos seus jogadores para o «anexo dos pretos». Um deles era Guilherme Espírito Santo e aqui também se contam episódios da vida impressionante que ele teve…

 

Ouvindo, vezes sem conta, marinheiros e passageiros dos barcos de carreira que ligavam Lisboa ao Funchal (e vice-versa) falarem da invencibilidade do Marítimo – mesmo contra tripulações de navios ingleses que por lá aportavam – Cosme Damião sugeriu aos seus dirigentes que viessem a Lisboa ao desafio (comprometendo-se o Benfica a pagar-lhes todas as despesas). Vieram para cinco jogos – e, no primeiro, disputado no Campo das Laranjeiras, a 10 de outubro de 1912, o Benfica venceu por 3-1 (e, nove dias depois, voltou a vencer por 5-2, os madeirenses conseguiram apenas bater o Lisboa FC, na inauguração do Campo Grande – que haveria de tornar-se, depois, estádio do Sporting e do Benfica…)

 

Quase sete anos após esse primeiro confronto entre o Benfica e o Marítimo, a 30 de outubro de 1919 nasceu em Lisboa Guilherme Santana Graça do Espírito Santo.  O pai era negro - e viera de São Tomé. A mãe era branca – e com ele a crescer foi como como funcionária pública para Angola. No Benfica de Luanda descobriram-se-lhe, para além do o jeito para o futebol, vários outros impressionantes talentos – e não tardaria a ouvir-se:

 

- Uma vez, estávamos a brincar aos saltos em comprimento na cerca do liceu, apareceu um caloiro a perguntar se também podia saltar, saltou mesmo como estava, de sapatos e livros na mão, ficámos parvos com o salto, fomos medir, tinha batido o recorde de juniores, era o Guilherme, o Guilherme Espírito Santo…

 

«Os dinheiros do futebol davam perfeitamente para ir a pé para os treinos. Por isso, muitas vezes eu nem de elétrico ia»

 

A correr para os 17 anos, a mãe o mandou-o estudar para Lisboa, ficando a viver na casa dos avós. Com ele trouxera carta do Benfica de Luanda com o pedido de um teste nas Amoreiras. Meia dúzia de minutos com a bola no pé bastaram para que lhe pusessem nas mãos a ficha para assinar, sob promessa de receber 300 escudos por mês, fora os prémios por empate ou vitória (entre os 50 e os 100 escudos)– e Espírito Santo haveria de revelá-lo, com um toque de ironia:

 

- Os dinheiros do futebol davam, então, perfeitamente para ir a pé para os treinos. Por isso, muitas vezes eu nem de elétrico ia.»

 

Por essa altura, a atriz Corina Freire, uma das «vedetas nacionais do teatro» deu como valor para um rádio que lhe levaram à socapa de casa, num roubo, 4000 mil escudos.

 

Estudante do Ateneu Comercial, Guilherme revelou-o:

 

- Benfiquista era talvez desde os três ou quatro anos. Havendo uns maços de tabaco com figuras de jogadores, eu gostava especialmente do Vítor Silva, por causa dele torcia pelo Benfica, cada vez mais torcia pelo Benfica.

 

Problema de varizes de Vítor Silva abriu equipa principal a Guilherme Espírito Santo e Cândido de Oliveira não tardou a chamá-lo à seleção

 

Problema de varizes obrigou Vítor Silva a deixar o futebol abruptamente – e foi para o lugar de Vítor Silva que Lipo Herczka o chamou. A sua estreia pelo Benfica foi a 30 de setembro de 1936 – num jogo em Setúbal que se disputou na base da transferência de António Vieira para as Amoreiras. Como avançado-centro começou João Jesus, ao intervalo foi Guilherme Espírito Santo para lá – e ainda marcou um golo na vitória por 5-2.

 

No Campeonato de Lisboa fez a primeira jornada no 0-0 com o Casa Pia – e passou às reservas. Com 1936 a correr para o fim, o FC Porto foi às Amoreiras a jogo particular, perdeu por 5-0 – e Lipo Herczka abriu-lhe, de novo, a «equipa de honra». Em comentário à sua atuação escreveu-se em Os Sports: «Espírito Santo é um rapaz jeitoso: alguns toques bem dados para os companheiros, rapidez de execução e passe, mostrando, sem dúvida, que é jogador que promete». Tanto era assim que no Campeonato da Liga de 1936/37 (que o Benfica voltou a ganhar) o avançado-centro já foi ele, fazendo 17 golos em 14 jogos (menos dois do que o Rogério de Sousa). Tinha 17 anos, 3 meses e 11 dias quando, na primeira jornada, em Setúbal, em Herczka o atirara à titularidade – e foram dele os dois golos da reviravolta e da vitória por 2-1.

 

Quando ainda não havia SLB, o Sport Lisboa tivera dois jogadores de sangue negro: o cabo-verdiano Fortunato Levy e o são-tomense Marcolino Bragança – e, a 28 de novembro de 1937, Cândido de Oliveira fez dele o primeiro jogador de sangue negro na seleção de Portugal – foi em Vigo, na vitória por 2-1 sobre a Espanha, que não era a Espanha inteira, era apenas a Espanha franquista e, por isso, a FIFA não reconheceu o resultado. Como na reconheceu nova vitória, mês e meio depois, naquele jogo em que Mariano Amaro, Artur Quaresma e José Simões – se furtaram à saudação nazi e dois deles acabaram presos, alguns dias, nos calabouços da PIDE (que tinha então entre os seus agentes uma grande figura do futebol: António Roquette, o guarda-redes da seleção olímpica de 1928).

 

Estava a treinar nas Amoreiras, correu para ir buscar a bola e deixou o treinador de atletismo de olhos em bico

 

Pelo caminho soltara-se de si novo espanto. Com a equipa de futebol a treinar-se nas Amoreiras, estava o atletismo a fazer salto em altura. Vendo bola foi chutada para trás da baliza, Guilherme correu a buscá-la e sem dar ao trabalho de dar a volta aos postes lançou-se em salto à fasquia que estava a 1,70 metros, passando de uma penada – e o treinador logo o decidiu:

 

- Vamos levar-te aos campeonatos de atletismo!

 

Levaram-no e Guilherme Espírito Santo bateu os recordes nacionais da altura e do comprimento, o da altura: 1,88 metros durou 20 anos. Tinha notável sentido de humor e por causa desses seus fulgores nos saltos, afirmou-o, vezes sem conta:

 

- Deve ter sido por ainda em Angola eu ter sido mordido por um macaco…

 

Dos 9 golos em 50 minutos ao Casa Pia ao jogo em que foi para guarda-redes e não queria de lá sair

 

Também foi campeão de triplo salto – e o recorde do triplo tirou-o a Acácio Mesquita, o futebolista do FC Porto que ganhara a primeira edição do campeonato da Liga. Recorde que nunca mais lhe bateram foi o que conseguiu a 5 de dezembro de 1937, no Campeonato de Lisboa: em 50 minutos marcou 9 golos ao Casa Pia AC – e ele mesmo o contou, deliciado:

 

- O Zé do Carmo, um dos seus defesas, a certa altura, só me conseguia perguntar: Mas como é que tu consegues marcar tantos golos a uma equipa onde tens tantos amigos, humilha-nos assim. E eu, pacatamente, encolhi os ombros, disse-lhe apenas: Vocês deixam-me sozinho, eu nem procuro a bola, ela é que me aparece ali à frente e eu chuto-a, claro…

 

Por essa altura já se ouvira de Fernando Peyroteo:

 

- O Guilherme joga futebol muito melhor do que eu

 

e quando já ambos tinham dito adeus ao futebol, repetiu-o:

 

- Menos prático, menos golos do que eu? Sim, é verdade. Mas mais jogador o Guilherme, muito mais jogador: mais técnica, mais jogo…

 

Era tão bom em tudo em que se metia o Espírito Santo, que, para o provar há outro caso que virou espanto, o que se deu em janeiro de 1941: com o Sporting a caminho do título de campeão nacional, o Benfica foi jogar ao Lumiar: Mourão atingiu com o pé a cabeça de Martins, o guarda-redes teve de deixar o campo, foi Espírito Santo para a baliza  e durante uma hora, só sofreu um golo, marcou-o Peyroteo. O Benfica ganhou por 2-1 – e ele deu entrevista à Stadium a dizer que queria deixar de ser avançado, passar a guarda-redes, que era o que mais gostava:

 

- … porque não há lugar para viver mais emoções que na baliza

 

mas Janos Biri cortou-lhe, célere, as asas ao desejo, ao capricho.

 

Da doença que trouxe de França aos 121 jogos que perdeu por não o deixarem jogar futebol

 

Bem mais cruel lhe foi o destino, logo de seguida.  Aos primeiros dias de janeiro de 1940, Portugal foi a Paris jogar contra a França – e Guilherme Espírito Santo saiu de lá doente, em março contou-o à Stadium:

 

- O que se tem dito em relação à minha doença não corresponde à verdade. Nem pleurisia, nem pneumonia, nem o mais que se propalou. Quando fui de Lisboa para Paris ia já um pouco febril. Na véspera tomara uma aspirina, com a viagem piorei. A febre aumentou e só depois de verificou que afinal o que eu tinha era paludismo.

 

No regresso de França, ainda mais se lhe complicou a saúde:

 

- Estive um mês de cama, emagreci três quilos, mas parece que, enfim, tudo voltou a estar bem comigo…

 

Não, não voltou a estar tudo bem consigo. Andando-se já por março (de 1941) o destino foi-lhe ainda mais aziago: o paludismo que apanhara, na infância, em Angola, voltou com o frio e muito, muito mais forte nos seus efeitos. Os médicos proibiram-no de voltar a jogar futebol – e até se curar Guilherme Espírito Santo perdeu 121 jogos, à equipa do Benfica só regressou em fevereiro de 1944 – ainda a tempo de ajudar de, como extremo direito, ajudar o Benfica a ganhar a Taça de Portugal ao Estoril, na famosa final dos 8-0 (com cinco golos de Rogério Pipi).

 

A incrível história do racismo no Funchal em que, para além de Espírito Santo. Também estava Melão

 

Ao seu fulgor voltou no Benfica campeão da I divisão em 1944/45 – e assim continuou nas épocas seguintes, sem conseguir porém tirar um título ao Belenenses e três ao Sporting. Chegando-se a julho de 1949, o Benfica foi, uma vez mais, convidado a digressão à Madeira, desta feita pelo Nacional – e ao ver Espírito Santo entrar no hotel, a ele e a Alfredo Melão, o rececionista chamou o diretor do clube para lhe afirmar, veemente:

 

- Aqui não podem entrar pretos. Menos ainda, dormirem. Por isso, aqueles dois senhores terão de ficar instalados no anexo que serve para os criados, para os pretos.

 

Recebeu, como réplica, em ironia, do chefe da missão:

 

- E esse anexo tem espaço suficiente para, então, nos instalarmos todos nós, lá?

 

Percebendo o remoque o rececionista chamou o seu superior – e não: ninguém dormiu no anexo.

 

A Censura que se espicaçara não deixou (obviamente) que tal se espalhasse pelas páginas dos jornais – e, nesse dia, o DL anunciava-o: «Para o Sporting vão de Lourenço Marques dois jogadores de futebol: Juca e Mário Wilson – e deste nos dão excelentes informações: é alto, forte, ousado e de grande remate». (Henry Wilson era judeu americano e, andando por Moçambique à aventura, encantou-se pela filha de um régulo tribal, roubou-lha, levou-a consigo para Lourenço Marques, tiveram ambos seis filhos – e claro, ele e ela, são os avós de Mário Wilson…)

 

No primeiro jogo, nos Barreiros, o Nacional empatou. No segundo, quatro dias depois, o Benfica bateu o Marítimo por 3-2 – e no DL escreveu-se: «Com 3-0 ao intervalo, a segunda parte foi marcada por três grandes penalidades, uma delas desperdiçada pelos madeirenses. Na última meia-hora, o Benfica desinteressou-se do ataque e procurou apenas salvar a sua vitória – e foi então que o árbitro decidiu expulsar Francisco Ferreira, numa decisão deveras lamentável e injusta».

 

Quando poucos eram os jogadores do Benfica a 1500 escudos, a história de uma tragédia em vez do resultado do terceiro jogo no Funchal

 

No terceiro jogo, a 17 a vitória coube ao Marítimo – e sobre isso nem uma linha se viu no Diário de Lisboa. Houve, contudo, espaço para nota que informava: «De Moçambique devem embarcar para a Metrópole com destino a Montemor-o-Novo dois excelentes jogadores de futebol de raça negra, que ingressarão no Grupo União Sport». Treinador do União era Lipo Herckza – com quem Espírito Santo conquistara os seus dois primeiros títulos de campeão no Benfica). Destaque bem maior estava na coluna onde se revelava por que Emília Ferreira, 42 anos, residente numa barraca do Olival Saloio, fora presa: «quando uma infausta senhora foi colhida na passagem de nível da Rua Gualdim Pais, aproximou-se e, no meio da confusão, roubou à vítima um par de brincos de ouro com brilhantes, no valor de 1500 escudos».

1500 escudos era, então, o ordenado mensal dos mais bem pagos jogadores do Benfica – numa altura em que um Skoda Sedan de 4 portas custava 51 900 escudos. Não longe da publicidade ao automóvel, no DL, havia uma breve que dizia: «Passa amanhã o primeiro aniversário do falecimento de Carlos Xafredo, pioneiro do futebol no Ginásio Clube e do desporto em Portugal e a sua viúva, recordando a data do seu passamento, enviou-nos 500 escudos para serem distribuídos pelos pobres ajudados por este jornal». (Os saldos tinham atirado bicicletas Raleigh para os 1990 escudos.)    

 

O adeus de Guilherme Espírito Santo ao jogo «com a bola que quando nos batia na cabeça até arrancava cabelo»

 

A época do adeus de Guilherme Espírito Santo foi a seguinte, a de 1949/50. Três jogos apenas, deram-lhe mais um título de campeão nacional da I Divisão, o quarto. Três Taças de Portugal ganhou também. Em 316 jogos pelo Benfica marcou 225 golos, muitos, muitos deles em fulgurantes golpes de cabeça:

 

- Nesse tempo, era tudo muito mais difícil: quando chovia, os campos eram de lama, cada bota pesava 10 quilos, a bola quando nos batia na cabeça até arrancava cabelo.

 

Continuou a trabalhar no Grémio das Mercearias – e depois de largar o futebol, dedicou-se ao ténis (pelo Benfica, claro…), aos 60 anos ainda foi campeão nacional de terceiras categorias. Nos anos 60 chegou – e, no Benfica, no futebol (e não só, como se percebeu…), já Guilherme Espírito Santo se imortalizara. Nos anos 60 passara pelo clube como diretor, já era Águia de Ouro e Prémio Fair Play do Comité Olímpico Internacional – quando o Benfica o escolheu para Presidente Honorário das Comemorações do Centenário – e ele continuava a ser o que João Malheiro escrevera a seu respeito: «Simboliza a generosidade misturada com a paixão sem limites e uma longa modéstia, que só os grandes possuem.»

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