QUARTA-FEIRA, 26-07-2017, ANO 18, N.º 6388
Frederico Raposo
Espaço Universidade
O treino personalizado no alto rendimento (artigo de Frederico Raposo, 2)
19:07 - 06-06-2017
Frederico Raposo
O que têm em comum Cristiano Ronaldo, Douglas Costa, Thiago Alcântara (futebol), Serena Williams, Roger Federer (ténis) Gabriel Medina (surf), Dwayne Wade ou Jimmy Butler (basquetebol)? Todos são desportistas de alto rendimento que recorrem paralelamente aos serviços de um personal trainer, no sentido de otimizar o seu rendimento desportivo.

Tradicionalmente, o treino personalizado tem sido dirigido a praticantes de exercício físico, mais ou menos de forma regular, quer seja no ambiente de ginásios e health clubs, como (e cada vez mais) ao ar livre. Trata-se da contratação de um profissional do exercício que avalia, planeia e acompanha ciclicamente o treino de um indivíduo tendo em conta as suas patologias e/ou particularidades únicas, pessoais e intransmissíveis. Além da incidência física mais óbvia, este serviço tem simultaneamente o benefício de trabalhar as dimensões emocional e psicológica de forma altamente dirigida. Muitas pessoas recorrem ao personal trainer como estratégia de motivação para a prática regular de exercício físico (embora esta não seja uma estratégia com grande sucesso a longo prazo).

Nos últimos anos, verificamos que os desportistas de elite estão a recorrer cada vez mais aos serviços de um personal trainer, sob forma de complementarem o seu trabalho físico diário com um apoio especializado e recuperarem psicologicamente das pressões competitivas através da mudança de contexto e de treinador.

No caso das modalidades individuais, esta é uma relação que parece pouco complexa, na medida em que é relativamente simples integrar o personal trainer no staff técnico do atleta. Contudo, o mesmo já não sucede no caso das modalidades coletivas, em que o trabalho individualizado e não coordenado de diversos personal trainers, pode colidir diretamente com o planeamento e gestão de expetativas, que o treinador faz para a equipa e cada um dos seus atletas. Existem atualmente atletas de futebol, por exemplo, com contratos e clausulas de rescisão de milhões de euros, cujo staff técnico e clube não tem qualquer comunicação com os seus personal trainers.

É, portanto, necessário que os clubes deixem de ignorar esta realidade, pois os efeitos positivos do serviço são claros e os atletas reconhecem-nos, investindo dinheiro do seu próprio bolso na sua contratação. Ou seja, a discussão neste momento não deve ser se os atletas devem ou não ter um personal trainer, porque de facto já o têm, mas sim se este deve ou não pertencer aos quadros dos clubes.
Parece claro que os clubes e staff técnicos chamem os PTs para dentro da sua estrutura e promovam uma estreita coordenação entre a periodização e tipo de carga administrada nos treinos, sob pena de existirem efeitos contraproducentes.

Em alguns dos casos documentados na imprensa, a intervenção do personal trainer é do conhecimento público, sendo aceite e integrada pelo próprio clube na preparação do jogador. Muitas vezes o trabalho destes profissionais é determinante nos períodos de transição entre épocas, embora também seja frequentemente extensível para o período competitivo. Aqui, se não existir uma comunicação próxima entre o clube e o personal trainer, o risco de um trabalho se sobrepor ao outro, é elevado. Por isso mesmo, hoje, muitos destes profissionais, optam por realizarem um trabalho essencialmente orientado para o aumento da eficiência estrutural e funcional do jogador, especificamente adaptado às suas necessidades e condições, mais do que uma intervenção direta na melhoria das suas capacidades físicas condicionais (força, velocidade, resistência, flexibilidade).

Há que ter em conta um último cenário: o jogador, principalmente ao mais elevado nível, está permanentemente sujeito a uma pressão dentro do clube, à qual nenhum dos seus agentes diretamente ligados, é alheio. A possibilidade de trabalhar a sua preparação, com alguém que lhe é próximo, e com quem possa ter maior intimidade, é uma necessidade importante para a sua estabilidade. Este é também um papel determinante que o personal trainer pode desempenhar.

Estamos perante uma realidade que os clubes devem contemplar no próprio contrato dos atletas. A solução poderá passar por enquadrar estes profissionais nas suas equipas técnicas, embora dando autonomia aos jogadores para propor com quem pretendem trabalhar.

Frederico Raposo
Professor Assistente do Departamento de Desporto da Universidade Europeia

comentários

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Branco_Velho
13-06-2017 18:14
Papas e bolos para tolos. Nenhum dos citados vai ser apanhado pelo sistema. Temos que esperar que alguém bufe. Mas mesmo bufando, pode não acontecer nada, como se vê pelo futebol leaks e outras denúncias. Entretanto fica aqui promovida a saída profissional do produto que produz.

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