SEGUNDA-FEIRA, 26-06-2017, ANO 18, N.º 6358
Ética no Desporto
O Futebol tem Violência não é violento (artigo de Manuel Sérgio 192)
16:18 - 09-05-2017
Manuel Sérgio
Em editorial do jornal A Bola, de 2017/5/3, o jornalista José Manuel Delgado realça o núcleo das suas atuais preocupações, no que ao nosso futebol diz respeito: “O futebol português anda a ferro e fogo, perdeu o bom senso, abdicou do equilíbrio e esqueceu os princípios básicos do desporto”. Mas eu pergunto: esqueceu os princípios básicos do desporto, ou desconhece-os? O ser humano imprime necessariamente, ao longo e ao largo da sua vida, as condições do seu ser. Ora, porque acredito que alguns dos nossos dirigentes desportivos foram “in illo tempore”, em tempos idos portanto, pessoas de bom senso e exemplar conduta, os seus constantes extravios, de hoje, à ética desportiva só pode significar que, sabendo muito de economia e finanças, de compra e venda de jogadores, não sabem o que é, nem o que vale, o Desporto, como forma superior de humanização. Eles costumam falar ex cathedra e talvez por isso me deitem um olhar lateral e suspeitoso - a mim, um atrevido que só encontra neles ignorância redonda, pois que não quer cometer o pecado de neles descobrir as “causas das causas” do clima de inquietude e de mútua suspeição e a multiplicação passional de qualquer problema, por mais insignificante que seja, em que descambou o “pontapé na bola” da lusitana gente. Até o El País, um dos grandes jornais europeus, salienta “cuspidelas, insultos, ameaças, instruções aos comentadores, denúncias nos tribunais e visitas aos árbitros” (cfr. A Bola, de 2017/5/3) como “coisa absolutamente normal” na “república das bananas”, que é o futebol português. É evidente que um campeão europeu não pode ser só isto. Não se ganha um campeonato europeu, sem rigor, sem generosidade, sem organização, sem excelência. Mas, enquanto se confundir futebol com guerra e adversário com inimigo e os tropismos de bandos criminosos com “amor ao clube”, podemos ganhar campeonatos, mas não ganharemos nunca o respeito dos verdadeiros desportistas e dos estudiosos de estudo planeado e cumulativo.

É um inestimável contributo dos gregos o princípio de que não há educação sem desporto. Os gregos praticavam, de facto, com igual interesse, o desporto e a filosofia. Recordo o célebre livro Paideia, de Werner Jaeger, que li em língua castelhana e assim traduzo: “O ateniense daqueles tempos sentia-se melhor, mais senhor de si, no ginásio, do que em sua casa, onde dormia e comia”. E porquê? Porque no ginásio praticava-se naturalmente ginástica e, findo o tempo dedicado à educação físico-motora, escutava-se e discutia-se, com exemplar elevação e seriedade, o que os filósofos diziam. Platão não esconde que educar é proporcionar ao corpo e à alma toda a perfeição possível. No seu diálogo Timeo diz-nos ele: “O matemático, ou o que faz qualquer outra intensa prática intelectual, deve também praticar os movimentos corporais típicos da ginástica; de igual modo, o ginasta, ou o que cultiva adequadamente o seu corpo, deve dar à alma, através da música e da filosofia, o mesmo cuidado que dispensa ao corpo – para que em ambos o Belo e o Bom cresçam, simultaneamente”. Esta convergência entre ginástica e filosofia e arte emerge da civilização grega, como o atesta a escultura de Mirón, Policleto e Lisipo. N’O Banquete, Pausanias distingue nos gregos o orgulho, que não escondiam, de cultivar, como partes do mesmo todo, a filosofia e a ginástica. Deverá referir-se que esta “interdisciplinaridade” (se cabe, aqui, nos tempos de Platão, qualquer similitude com um hodierno trabalho interdisciplinar) encontramo-la também na medicina de Hipócrates (460-377 a. C.) e Galeno (130-201 depois de Cristo). Com efeito, num e noutro sobressai o intento de realçar que a doença não era um castigo divino e que portanto a ginástica poderia transformar-se no remédio ideal para muitas doenças. Não relembro, neste passo, o tributo (inevitável, através das idades) exigido aos anunciadores de tempos novos. Também Hipócrates e Galeno sofreram a perfídia dos medíocres e o mal contido despeito da inveja…

Não deverá deixar de assinalar-se, no entanto, em Platão (e nos gregos) um indiscutível dualismo antropológico, onde a noção de homem parece atribuir-se, nalguns escritos seus, ao composto alma-corpo e, noutros, unicamente à alma. Escreve ele no Fédon: “A alma é a que mais semelhança tem com o que é divino, imortal, inteligível, uniforme, indissolúvel e mais se parece ao que mantém sempre, de igual modo, a sua identidade. Depois que o corpo e a alma se juntaram no mesmo ser, ao corpo cumpre, por natureza sujeitar-se e ser governado e à alma dirigir e dominar”, pois que o corpo não é companhia fiável e salubre. Volto ao Fédon: “Enquanto possuirmos o corpo e a alma estiver mergulhada nesta corrupção, impossível nos é alcançar o que desejamos, isto é, a verdade”. Concluindo: para conhecer, devo separar a alma do corpo, pois que só a alma sabe examinar os objetos e verdadeiramente conhecê-los. Transcorreram séculos e eis que o filósofo francês Maine de Biran (1766-1824) “inaugura inesperadas, interpelantes e vigorosas possibilidades de uma filosofia do corpo” (Luís António Ferreira Correia Umbelino, Somatologia Subjectiva – Apercepção de si e Corpo em Maine de Biran, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, p.2). Em Biran, no estudo do ser humano, há físico no psíquico e psíquico no físico. “É uma tese central, para Biran, não há pensamento sem corpo” (op. cit., p. 487). De facto, a tese de doutoramento de Luís Umbelino revela-nos que a noção de “corpo vivido”, de Merleau-Ponty, já se vislumbra em Maine de Biran. Tenho que agradecer ao Prof. Luís Umbelino, da Universidade de Coimbra, a lição que nele colhi e me ensinou portanto que o ideário do “Muscular Christianity”, de Thomas Arnold, e que tanto entusiasmou Pierre de Coubertin, já tinha uma incipiente fundamentação científica. Por isso, o desporto não é saudável só pelo movimento físico, mas porque o desporto é uma ética em movimento.

Todo o ser tem o direito de ser em plenitude, porque o ser é mais do que o nada e porque é o caminho da plenitude, ou seja: a transcendência, iluminada pelos valores éticos, que nos aproxima da felicidade. Não acredito que o niilismo de um mundo que se vive por mero capricho possa ser saudável. Viver sem valores, sem justificação, sem sentido afinal (são os psiquiatras a dizê-lo) não dá, de facto, saúde a ninguém. No ser humano aviva-se a noção de sistema e portanto cada um de nós encerra duas ideias primaciais: a ideia de relação e a ideia de organização. A vida pujante de um sistema supõe relação entre os seus constituintes e uma organização que permita o seu eficaz (e o mais perfeito possível) funcionamento. O ser humano é corpo-mente-sentimento-natureza-sociedade-cultura. E assim não basta uma descrição exaustiva, meticulosa de cada um dos elementos do todo, mas também a relação entre todos eles e a relação do todo com o meio envolvente. Daqui se infere que, na prática desportiva, porque prática sistémica, correr ou saltar ou rematar ou encestar ou nadar podem não ser saudáveis, se não se tem em conta a relação corpo-mente-sentimento-natureza-sociedade-cultura. A medicina é uma ciência que estuda inúmeras situações psicopatológicas, com nítida influência no que é biológico ou mais especificamente fisiológico. Quando fui adjunto do treinador e meu querido amigo, Jorge Jesus, pude rapidamente concluir que os problemas mais difíceis de resolver pelo treinador são os psicológicos e os culturais (na relação do treinador com os jogadores e com os próprios dirigentes). Alguns comentadores agem e falam por simplificação. Reduzem o complexo ao simples, ou seja, a complexidade humana aos erros dos árbitros (um exemplo). Não pensam que em todas as derrotas há culpas do derrotado – que os dirigentes, após um jogo, ou vários jogos, menos felizes das suas equipas, são incapazes de salientar, no intuito de empurrar os sócios a uma análise impetuosa, defeituosa, ilógica das competições. Eu não vejo a realidade como ela é, vejo-a como é a complexidade que eu sou! Se eu for violento, o futebol que eu pratico é violento também, embora as regras e as leis que lhe dão um caráter humanizante. A violência, no futebol, deve começar a extirpar-se na Escola. E até no ambiente familiar. É que leis não faltam e a violência no futebol continua. O futebol não é violento – o futebol tem violência! Por culpa de muitos dos seus agentes…

NOTÍCIAS RELACIONADAS

comentários

10
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)
Wheeler
11-05-2017 13:00
Os artigos do Prof Manuel Sérgio (e de outros que aqui costumam citar a Grécia Antiga) não contextualizam a Realidade do séc. VIII a.C. na Hélade do ponto de vista económico, social, político, e cultural. Sem isso, não compreendem “O PROBLEMA SOCIAL E HUMANO QUE O DESPORTO VEIO RESOLVER” (PMC, 2003)
Wheeler
11-05-2017 12:56
O «AUTOR das Imaginações e das Hipóteses» desapareceu. Já não é o mesmo. Mudou durante estes 2/3 mil anos. Não só em termos físicos/anatómicos, mas também em termos cerebrais e cognitivos. É outro Corpo e outra Mente. É um Ser diferente. É necessário estudar os teoremas de K. Gödel (e alli)...
Wheeler
11-05-2017 12:54
Hoje o acesso a uma Escala da Realidade maior e menor permite constatar que se cometeram muitos erros de análise e de interpretação. Partir desses erros para dar lições à Atualidade é um duplo erro. Esse procedimento já não tem credibilidade científica hoje. Porque o «Autor dessas Hipóteses Gregas..
Wheeler
11-05-2017 12:52
Outro erro é tomar a Grécia Antiga como ponto de referência para a compreensão da Realidade. Nessa época IMAGINOU-SE «o que a Realidade seria». Porque não havia possibilidade técnica de verificar a maior parte daquilo que se dizia e escrevia. Logo, é errado transpor esse passado para o presente.
Wheeler
11-05-2017 12:50
1. Os «padrões neuro-musculares e as pré-disposições codificadas» não são «comportamentos»; 2. Os comportamentos não são as «intenções/decisões nem as consequências; 3. As intenções/decisões e consequências não são os «limites que lhes são impostos pela regulação social e pela perpetração cultural»
12

mais de ÉTICA NO DESPORTO

Ética no Desporto Em dias de febre alta, é possível que deliremos. Mas febre alta durante semanas – não há corpo que resista! Por isso, quando a vida nos traz à tona um “doente”, seja dirigente ou simples adepto, de um clube de futebol e, portanto, com uma febre que o
Ética no Desporto Liderator: a Excelência no Desporto, de Luís Lourenço e Tiago Guadalupe (Prime Books, 2017) é, em minha opinião, o mais notável livro sobre liderança, editado, no nosso país, nos últimos dez anos. Notável pela temática, pois é um dos mais sing

destaques