SEGUNDA-FEIRA, 24-07-2017, ANO 18, N.º 6386
Espaço Universidade
O Valor Económico do Desporto: O caso exemplar da Inglaterra (artigo de José Pinto Correia, 3)
09:22 - 09-05-2017
As políticas desportivas em Inglaterra e em todo o Reino Unido têm uma longa tradição e são usadas estrategicamente para fomentar a prática desportiva aos seus diferentes níveis, bem como para aumentar o valor económico, social e cultural do desporto no seio das diferentes comunidades locais, regionais e mesmo da nacional.

Perdem-se no tempo as traduções exemplares de várias dessas políticas desportivas, passando por vários governos, e que estabeleceram quadros de referência a partir dos quais foi sendo possível melhorar a percepção do valor do desporto e transformar as suas estruturas organizativas de modo a possibilitar o desenvolvimento das modalidades e o nível de sucesso competitivo ao mais elevado nível internacional.

Tem sido possível estudar o valor económico do desporto em Inglaterra ao longo dos últimos anos, no âmbito das actividades da agência governamental “Sport England”, segundo uma metodologia de investigação específica que permite elucidar um conjunto diversificado de áreas e subsectores em que aquele valor económico do desporto se expressa, dando desse modo uma noção do valor completo do impacto (em relação com a economia mundial) e do valor económico (em termos de bem-estar ou utilidade) do desporto.

Os trabalhos de investigação e os estudos sucessivamente realizados no Reino Unido e em Inglaterra têm concluído que o desporto beneficia os indivíduos e a sociedade, e é uma importante parcela da economia nacional, contribuindo significativamente em termos de despesa, actividade económica (medida usando o Valor Acrescentado Bruto – VAB) e emprego.

O último estudo realizado em Inglaterra, publicado em 2013, permitiu chegar às principais conclusões sobre o valor económico do desporto naquela nação como sendo as seguintes:

(1) Em 2010 a actividade relacionada com o desporto gerou um VAB de 20,3 biliões de libras, representando 1,9% do valor total da Inglaterra. Este valor posicionava o desporto como uma das 15 indústrias de topo em Inglaterra e mais relevante que sectores como a venda e reparação de veículos motorizados, os seguros, os serviços de telecomunicação, e os serviços de advocacia, de consultoria de gestão e de contabilidade.

(2) O desporto e a actividade relacionada com o desporto dá suporte estimado a mais de 440.000 empregos a tempo completo, representando 2,3% de todo o emprego em Inglaterra, sendo 65% derivados da participação no desporto e os demais 35% do consumo afecto ao desporto.
Mas o conhecimento científico já anteriormente adquirido permite afirmar que o desporto também gera um leque de mais extensos benefícios, quer para os indivíduos quer para a sociedade, como a investigação realizada ao longo de anos tem demonstrado, e que são os seguintes:

(i) O bem-estar e felicidade dos indivíduos que nele tomam parte, a melhoria da saúde e da educação, uma redução da criminalidade dos jovens, benefícios ambientais, estímulo à regeneração e ao desenvolvimento comunitário (impactos de índole local e regional), e benefícios para os indivíduos e para a sociedade em geral através do voluntariado;

(ii) Os benefícios do consumo afecto ao desporto incluem o bem-estar e felicidade dos espectadores, e o orgulho nacional e o “sentimento de realização” (“feel good factor”) através do sucesso e desempenho desportivos (individual, de equipa ou nacional);

(iii) O valor económico do desporto em termos de saúde e voluntariado, que em Inglaterra está estimado em 2011/2012 ser de 2,7 biliões de libras por ano para o voluntariado, e de 11.2 biliões de libras por ano em termos de saúde (que subentende a categoria normalmente denominada de bem-estar).

Mas o impacto económico do desporto, segundo a metodologia usada em Inglaterra, resulta de duas categorias de actividades: a da participação no desporto, que resulta da prática desportiva e da despesa a ela associada, e a do consumo no desporto, que decorre da visão comercial de vários tipos de consumos associados ao desporto.

Vejamos então cada uma dessas categorias em detalhe.

O impacto económico da participação no desporto (isto é: a prática desportiva e a despesa associada) representou 11,78 biliões de libras de VAB (58% do valor total do desporto), correspondente a 15,5 milhões de ingleses que praticavam desporto uma vez por semana e mais 21 milhões que apenas o praticavam uma vez por mês. Desta participação no desporto resultavam também 4,9 biliões de libras em educação desportiva por fornecedores voluntários, mais 4,4 biliões de libras por pagamentos de mensalidades em serviços desportivos (quotas de ginásios e similares), 1,2 biliões em equipamento desportivo, 1,2 biliões em desportos clubísticos (“participation sports”) e ainda mais 80 milhões de libras em vestuário para a prática de desporto.

Já o impacto económico do consumo no desporto (ponto de vista comercial) representou 8,5 biliões de libras de VAB (os restantes 42% do valor total do desporto), correspondente a 4,4 biliões das subscrições de televisão por satélite, 1,1 biliões de libras de assistência por espectadores, e 1,5 biliões por equipamentos desportivos para lazer.
Ainda podem, todavia, acrescentar-se outros dados relevantes sobre a relevância económica do desporto como os seguintes:

• 3,2 milhões de pessoas doaram uma hora semanal ao desporto;
• Existiam 6.000 organizações voluntárias de desporto na Inglaterra;
• O voluntariado associado ao desporto representaria cerca de 2,7 biliões de libras;
• 75 milhões foi o número de vezes que as pessoas pagaram para ver um evento desportivo em Inglaterra em 2012, dos quais 42 milhões terão sido para o futebol e 11 milhões para os eventos dos Jogos Olímpicos ;
• Os benefícios para a saúde decorrentes do desporto terão ascendido a 11,2 biliões de libras, como já anteriormente se referiu (e incluem o “bem-estar” e o “sentimento de realização”).

Este conjunto de elementos caracterizadores do valor económico do desporto em Inglaterra são relevantes não apenas em si-mesmos mas também porque permitem criar uma percepção da valia multidimensional do desporto no espaço nacional e suscitar em torno desta nobre actividade humana os espaços de reflexão e decisão para a melhoria do sistema desportivo, a concepção de estratégias de desenvolvimento que incluam quadros de financiamento e a assunção de objectivos aos diferentes níveis da pirâmide desportiva (da base até à elite), e ainda também a indispensabilidade da formulação e implementação de políticas públicas desportivas que tenham horizontes temporais alargados e possibilitem a concretização efectiva de visões e objectivos ambiciosos.

E em Portugal?

O valor económico do desporto com a profundidade do exemplo de Inglaterra que acabámos de referenciar nunca foi feito. Desconhecem-se os seus impactos, o valor sectorial, há um cálculo aproximado para o seu emprego e nada mais. E por se desconhecerem elementos daquele teor também é possível ao governo agora em funções ter anunciado no seu programa uma “nova agenda para o desporto” e continuar como no passado sem que exista um único documento onde se realize uma análise aprofundada do desporto e se perspective uma estratégia para o seu desenvolvimento num horizonte temporal de médio prazo. Um país que continua a desconhecer o valor económico do seu desporto não pode pretender ter com ele uma expressão cabal e valiosa para a sua comunidade nacional, ainda que possam existir sucessos competitivos ocasionais mesmo em termos internacionais.

José Pinto Correia
Mestre em Gestão do Desporto
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