SEGUNDA-FEIRA, 26-06-2017, ANO 18, N.º 6358
José Augusto Santos
Espaço Universidade
Desporto: fenómeno social plural (artigo de José Augusto Santos, 1)
17:19 - 04-05-2017
José Augusto Santos
Convidado a escrever em A Bola de imediato se colocaram várias hipóteses para um primeiro texto. O desporto, como construção humana, tem tantas pontas para se lhe pegar quantas as quer a nossa verve conseguir estruturar. Parafraseando Nelson Mendes, insigne pedagogo da Educação Física, o desporto é como uma bola, não tem ponta por onde se lhe pegue, ou seja, tem tantas pontas quantas as que lhe quisermos descobrir.

Escrever sobre Desporto é, para mim, escrever sobre o lastro fundamental da minha vida. Sou homo ludicus, homo ludens, homo sportivus, homo gymnasticus, homo olympicus, não por opção existencial, mas por projeto transcendental. Os deuses olímpicos determinaram a minha essência; os meus pais limitaram-se a cumprir o desígnio dos deuses. O desporto consubstancia a minha epifania, a descoberta de uma religião telúrica que congraça deuses e homens numa irmandade sem hierarquias. Em relação a Olímpia e aos desígnios dos deuses olímpicos regressarei em nova oportunidade.

Por onde começar as minhas discorrências sobre o desporto? Deste fenómeno de profunda pregnância social irradiam múltiplos epifenómenos que o tornam um cadinho de experiências, sempre renovadoras e estimulantes. O desporto é um fenómeno social plural e pode ser abordado pelas mais diversas vertentes. Elenco algumas que permitem vislumbrar a sua multidimensionalidade – pintura, escultura, fotografia, cinema, literatura, poesia, música, ciência, etc.

O desporto é um microcosmo que reflete a sociedade como um todo. Embora tocado e sublimado pela cultura, o desporto evidencia, em maior ou menor grau, a competição biológica que assistiu à espécie humana no decurso do seu processo evolutivo. A competição é consubstancial à vida e por consequência ao homem, implicando-o na máxima expressão das suas capacidades adaptativas. O desporto, cria envolvimentos desafiantes que estimulam no homem a superação. Este é, para mim, o supremo desígnio ético e existencial do desporto. A autossuperação nada mais é que a procura de um zénite adaptativo que permite usufruir, num patamar mais elevado, as valências plurais do desporto. O homem só expressa o melhor da sua humanidade quando é posto em causa pelos desafios do envolvimento.

Enquanto, no processo de desenvolvimento filogenético, os antecessores do homo sapiens evoluíram através da superação dos desafios impostos pelas condições naturais do seu envolvimento, o homem, quando passou a ser regido pelas leis sócio-históricas, criou os seus próprios desafios. O mais conseguido desses desafios é o desporto. O desporto, consubstancia a síntese entre o homem biológico e o homem cultural. Na passagem do homem como realidade biológica a realidade sócio-histórica e cultural, a competição é mantida como força motriz da evolução. Ao contrário de alguns autores que rejeitam a herança biológica, acultural da espécie, penso que o homem, tal como todas as outras espécies, é herdeiro da célula primordial da qual toda a vida deriva.

Se a ontogénese é a repetição acelerada da filogénese, não podemos separar o homem biológico do homem cultural. Aceitar que o homem cultural não pode ser despido da roupagem das suas pulsões primárias, permite-nos compreender a génese de muitos dos seus comportamentos no desporto.

Segundo MacLean, o cérebro humano, embora interligado e mutuamente interdependente, é caracterizado por três níveis organizacionais diferenciados – neocórtex (comando inteligente), sistema límbico (regulador das emoções) e hipotálamo (cérebro reptiliano). A cultura está mais relacionada com o primeiro; as emoções e as pulsões primárias mais relacionadas com os outros dois. O paradoxo emergente do desporto reside no facto de que embora seja uma construção cultural humana, e por isso derivada da ação do neocórtex, não raras vezes faz emergir comportamentos comandados pelo nosso arqueo-cérebro. O desporto “puxa” frequentemente pelo “réptil” que há em nós.

O desporto é uma metáfora exaltante da condição humana. Conjuga razão e paixão que são a base de todas as construções humanas. A razão pensa a obra, a paixão levanta-a. Só que a paixão, por vezes excessiva, necessita de ser controlada. Não podemos permitir que o desporto, como campo fértil de transcendência, seja reduzido a mera expressão dos mais baixos instintos de agressividade, território e afirmação irracional.

O desporto, pela sua força ecuménica, esbateu todas as fronteiras. Na competição desportiva podemos realizar a convivialidade planetária fraterna na natural procura da vitória. O desporto permite o homem encontrar-se a si próprio no encontro com os outros. Não podemos permitir que o riso, alegria, humor, sejam anulados pelos miasmas da violência, qualquer que seja a forma que esta assuma. Mantendo o desporto como território de transcendência e elevação preservaremos a dimensão mais humana do mais conseguido humanismo.

José Augusto Santos
Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

comentários

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Wheeler
07-05-2017 16:54
Relembro a coragem do Prof. Jorge Olímpio Bento em 12julho1998: “Tenho procurado uma razão científica para a existência do Desporto, quer na sua forma actual, quer em formas anteriores, e não a encontro. Nem vejo que o acto desportivo seja necessário à existência do homem e da humanidade.”
Wheeler
07-05-2017 16:53
Há quem tenha certezas absolutas e se compraza com o Positivismo como se uma Fé se tratasse. Felizmente há xs outrxs, aqueles que teimam em prosseguir o Conhecimento convencidos de que ainda não chegaram ao fim. Relembro a coragem do Prof. Jorge Olímpio Bento em 12julho1998: (cont.)...
Wheeler
07-05-2017 16:52
Este Debate acerca de «O QUE O DESPORTO É» é difícil. Mas, da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, todxs estamos habituados a receber contributos relevantes e corajosos. Tal como o do Professor José Augusto Santos. Há quem tenha certezas absolutas e se compraza com o Positivismo .(cont.)
Wheeler
06-05-2017 23:57
Nessa definição, «VIDA» é "um sistema químico autónomo, capaz de uma evolução darwiniana, originado por processos de autocatálise e de auto.organização" (NASA, 2015). A pergunta que faço é a seguinte: «Para si, é isso que é o Ser-Humano? Será daí que se pode extrair a explicação do Desporto?».
Wheeler
06-05-2017 23:53
Caro Andorinha, é necessário rigor. Quando se usa a palavra «Filogenia» estamos a referirmo-nos ao atual conceito/definição de «Vida» (NASA, 2015), cujo inicio na Terra está datado de 3,6 mil milhões de anos.
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