SEXTA-FEIRA, 26-05-2017, ANO 18, N.º 6327
Espaço Universidade
Do futebol para a nossa sociedade (artigo de Aníbal Styliano, 21)
21:29 - 30-04-2017
Aníbal Styliano
Todos os campeonatos estão a atingir a sua conclusão. Os níveis de emoção e de stresse atingem valores elevados.
Os clubes, cada um à sua medida, tem o direito de acreditar no melhor cenário possível, enquanto for matematicamente possível.
Os que lutam para não descer de divisão, os que lutam pela melhor classificação e os que pretendem ser campeões.
No final, os resultados são definitivos e, concluídas as provas, nada mais há a comentar.
Quem venceu será campeão e quem não conseguiu os mínimos imprescindíveis descerá de divisão.
A conclusão de um campeonato deve ser usada também para sugerir rumos e processos para melhorar o futuro.

Parabéns a quem for campeão, confiança de regresso a quem descer de divisão e a todos os outros felicitações por terem dado o máximo.
O futebol (o desporto) é isso mesmo: procurar melhorar, tentar ultrapassar obstáculos, transformar dificuldades em soluções, com empenho, talento, muito esforço e sempre em prol de uma unidade essencial: a equipa/o clube.
Treinadores, jogadores, dirigentes, árbitros e outros agentes desportivos (Comunicação Social, Investidores, etc.) têm a obrigação de proteger o futebol dos graves riscos com que o tentam utilizar para fins menos adequados.
Mudar, adaptar, crescer, faz parte do destino das sociedades. Contudo, nunca se trata de um processo linear: por vezes avanços e retrocessos “jogam” papéis decisivos numa “competição” imparável.
Como balanço necessário, cada um deve procurar identificar contributos para uma evolução positiva e segura.

Tudo tem de começar pelas tutelas:
- Dos governos, que têm de conseguir escolher Ministro/Secretário de Estado com sabedoria e capacidade para o setor.
- Da FPF e da Liga, com transparência e ao serviço do desporto, dos clubes e atletas, construindo processos claros, com objetivos, visão e missão inequívocas, acrescentando valor ao movimento associativo e regulamentando, com inteligência, em função dos sinais dos tempos.
Com conhecimento e independência, com desportivismo e com capacidade para ouvir, aprender e incluir, sem se fecharem em qualquer “pirâmide” e sem preconceitos de “castas” que são fantasia irresponsável, os dirigentes devem potenciar o contraditório, sem unanimismo anquilosado e muitas vezes hipócrita.
Até os respetivos processos eleitorais poderão ser revistos.

Neste campeonato prestes a terminar (faltam 3 jornadas) há aspetos para os quais urge encontrar melhor destino:
- Analisar declarações de dirigentes e de treinadores, numa “sinfonia concertada” a pedirem que os órgãos que tutelam o futebol se assumam e imponham regras claras! A três jornadas do fim, faz algum sentido?!
Essa exigência (nunca um pedido) não terá de nascer antes mesmo do início das competições?
- Pressionar adversários, via estratégia comunicacional, atingindo níveis que debilitam a saúde do futebol e provocam desvios comportamentais e de violência, que merecem enquadramento legislativo preciso e claro, sem lugar a interpretações diversas e até opostas.
- manter constante celeridade nas decisões do Conselho de Disciplina (e outros) que não só têm de ser imparciais, urgentes, inequívocas, num padrão coerente e universal, como têm de transmitir essa imagem com base em factos que prestigiem o futebol no seu todo, eliminando inquietações que geram violência associada ao desporto.
- Controlar com rigor a veracidade plena dos relatórios de árbitros e suas equipas, exigindo provas factuais e não meras interpretações (nunca plenamente documentadas) que podem sempre “alojar” argumentos que criam muitas incertezas e possibilidades de diversas dependências.
- Regulamentar a relação dos agentes desportivos, exigindo comportamentos claros para todos. Ninguém, independentemente da sua dimensão, pode beneficiar de tratamento diferenciado.
- Pensar futebol como um todo e encontrar um modelo mais aperfeiçoado que permita equilibrar a “pirâmide”, tratando cada nível de forma específica, integrada, com um desígnio constante: qualificar jogadores (e outros agentes), criar-lhes condições e apoios, para evitar desperdícios, abandonos precoces e assegurar futuros.
- Regressar a modelo já adotado, num congresso da Figueira da Foz, em 2000, que definiu um Manual de Procedimentos que pretendia uniformizar comportamentos imprescindíveis dos agentes desportivos, sem impedir contributos de ampliação.
- Voltar ao anterior paradigma da formação de treinadores (a regulamentação em vigor continua um lamentável e penalizante erro de casting), património que deu provas de competência com reconhecimento internacional, valorizando-o mediante contributos de um conselho de consultores ou uma direção pedagógica alargada.
Convém alterar e não continuar a esquecer, por exemplo, as centenas de treinadores nacionais que estão a desempenhar funções no estrangeiro e que nunca são devidamente enquadrados.
Há esquecimentos que revelam uma forma de não saber estar – e isso tem de ser corrigido.
Além do trabalho brilhante das seleções nacionais, que usufruem do trabalho dos clubes, há muito mais a fazer.
O trabalho nos escalões de formação, nas idades mais baixas, carece de plano específico urgente, qualificado e competente.
- Exigir a cada diretor da FPF a divulgação prévia do seu plano anual, bem como as estratégias selecionadas. Assim se valoriza a imagem de quem tem a função de dirigir os rumos do futebol e se justificam as próprias nomeações.
Nenhuma instituição pode caminhar para isolacionismos, elitismos ou tiques kafkianos.
- Football Talks e Portugal Football School: a organização de eventos internacionais com qualidade são sempre úteis para valorizar a imagem do nosso futebol, do nosso país, da FPF e dos seus dirigentes… mas têm de ser mais do que isso; é preciso que esses contributos sejam distribuídos a nível nacional para assim se poderem conhecer (talvez aproveitar) e servirem para evolução.
A sua não divulgação generalizada enferma de um “vício centralista” que o futebol tem de saber vencer: seja nas terras de Trás-Os-Montes ou no Alentejo, seja no litoral ou no interior, todas as Associações Distritais/Regionais de Futebol e todos os clubes têm o direito de ser informados e apoiados (não só com “verbas de ocasião” após “seleção” muito discutível), nunca revelando tratamento desigual.
A ausência de formação de massagistas/terapeutas qualificados que tinham oportunidade de frequentar cursos específicos com protocolos entre FPF/Associações Distritais e Associação Nacional de Enfermeiros e Massagistas de Futebol (ANEDAF), que exerciam funções em todos os clubes, incluindo nos escalões de formação, é uma enorme preocupação pois já se salvaram vidas, nas competições distritais, graças aos formandos desses cursos. E agora? Quem assume responsabilidade total?
Pensem na excelência (Portugal Football School) mas nunca deixem de pensar na formação para o universo do distrital e da formação, onde se encontram inscritos a esmagadora maioria dos jogadores de futebol.
- Dar a merecida atenção à formação dual para atletas Profissionais (alto rendimento) bem como construir documentação para uma eficaz gestão de carreira como profissional: depois, quando por lesão, por idade, ou outro motivo se abandona o futebol profissional, surgem muitas vezes, desertos, angústias e dramas que eram perfeitamente evitáveis!
Lamentar não deve fazer parte do ADN do desporto e os dirigentes da tutela deveriam ter isso em conta e nunca a enorme indiferença para quem lhes proporciona tão destacada posição social (inclusive fotografias únicas).
- O Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), tão desejado, será que vai conseguir imprimir uma marca exemplar de eficácia e eficiência da justiça? Aguarda-se com elevada expectativa.

Mais do que abordar as últimas jornadas de um campeonato que está nos níveis máximos da emoção, analisar acontecimentos trágicos que nunca deveriam ter acontecido, ou detalhar falhas e erros grosseiros, preferimos sugerir a preparação do encerramento da época com a indispensável imparcialidade e a organização criteriosa da próxima época, que vai ser antecipada, por compromissos da seleção nacional.

Aprender com os erros é tarefa que enobrece quem a faz.
Esconder as falhas, mesmo com justificações “bem elaboradas” (varrendo para debaixo do tapete) revela falta de dimensão e de humildade, pressupostos evidentes de quem não quer aprender.
A previsão e a organização com envolvimento e proximidade é sempre uma mais-valia para a vitória.

Valorizar o jogo como essencial: a grande tarefa. Reduzir fortemente as minudências colaterais que tanto afetam a imagem do futebol: imprescindível.

Que a época de 2016-17 acabe com dignidade:
- Parabéns aos vencedores. Honra aos vencidos. Profunda reflexão para todos. Vontade em trabalhar mais e melhor para a próxima.

Que a época de 2017-18 seja preparada com qualidade, envolvimento e sabedoria, para que possa constituir-se como um marco exemplar de transparência e de prestígio.

Portugal, o futebol nacional, merecem sempre mais.



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