TERÇA-FEIRA, 30-05-2017, ANO 18, N.º 6331
Aníbal Styliano
Espaço Universidade
Aprisionar o futebol? Missão impossível! (artigo de Aníbal Styliano, 19)
15:53 - 21-04-2017
Vivemos tempos de instabilidade única, total, global. Os exemplos sucedem-se a velocidade incalculável e a incerteza tornou-se absoluta em todas as latitudes. O caos nunca surge de improviso, nem devagarinho pela sombra. Vai-se alimentando de vícios, de erros, de tragédias e injustiças, de promiscuidades e outras espertezas egoístas e de muitas cumplicidades.

O desporto, entre muitas outras, tem uma caraterística intrínseca que nos serve de guia: frontalidade inclusiva e corajosa.

Superar obstáculos, descobrir soluções, procurar sempre melhorar, são valores que devem fazer parte do dia-a-dia de cada um, desde as mais tenras idades: ”estranha-se, entranha-se, integra-se no caráter”.

Amanhã, vai decorrer um dérbi e simultaneamente clássico: o jogo de futebol entre o Sporting Clube de Portugal e o Sport Lisboa e Benfica. Desde logo, que seja um excelente jogo, que vença o melhor e que o futebol e a verdade desportiva saiam reforçados.

De qualquer forma, é cansativo vermos a continuidade de processos autofágicos, de “guerra” e de indignidades que vão moendo o futebol (e a sociedade em geral) servindo, mesmo que ingenuamente, interesses muito duvidosos e pouco recomendáveis.

A serem verdadeiras, há notícias que merecem reflexão atenta. Alguns simples exemplos:

1- Árbitro escolhido para esse dérbi entre SCP e SLB é a única hipótese de qualidade e garantia. A escassez de qualidade é enorme, as alternativas revelam total distração (?) e levantam as questões:
- Como foi possível atingirmos este ponto? Quem assume a responsabilidade? Como se pode inverter a situação e, com a máxima brevidade, construir um plano para qualificar os árbitros nacionais?
Assinar protocolos com Universidades e usar termos como “Excelência” é sempre mediático, mas estamos a falar de outra dimensão mais prosaica, bem real, mais necessária, mais específica e urgente.

2- Um responsável do IPDJ não terá ainda assinado o despacho de proposta de punição do SLB por apoiar claques não legalizadas. A falta de tempo (?) e de celeridade favorecem suspeições, eventualmente muito injustas, como a de relacionar esse atraso com o facto de que quem deveria já ter assinado o documento ter desempenhado (2002-2003) funções de gestão num departamento do SLB.

O silêncio e a inação potenciam dúvidas…

O que é factual é que após 19 autos de notícia da PSP a decisão (que inclusivamente pode originar uma situação de interdição do estádio) tem sido adiada sine die…

Esclareçam para evitar este insuportável clima de descrédito.

3- O Futebol Clube do Porto recorreu da sanção atribuída a Brahimi (2 jogos se suspensão por protestos no banco). Caso não se consiga provar/documentar a fundamentação do relatório do árbitro (“face to face”) com base nas alegações do 4.º árbitro, por eventual falta de “rigor”, o que deverá acontecer a quem não distingue real de virtual?
Por isso, se ouvem menções a “pirómanos do futebol”…

4- O Presidente da APAF afirmou, e muito bem, que não voltará a permitir que levantem suspeições sobre a sua integridade e isenção profissional. Tem todo o seu direito! Mas, será que desta vez, vai permitir que essa afronta fique sem resposta adequada?

Em questões de dignidade não se deve nunca deixar passar em claro uma única tentativa. Por outro lado, atendendo à posição que ocupa no futebol, em relação ao pedido efetuado de bilhetes para apoio social a uma comunidade onde também desempenha funções, não teria sido preferível não se ter envolvido diretamente?

Há sempre três lados de observação: os que acham péssimo; os que acham ótimo; os que têm razão. Como todos sabemos, quem tem maior divulgação são os primeiros e, por isso, mesmo com boas intenções, foi uma desatenção infeliz utilizar o seu nome. Ninguém melhor do que o senhor sabe o estado em que se vive no futebol e logo nesta fase de final de época. Um ditado popular de tradição ibérica (usado também para diversos sentidos) realça que “favor com favor se paga”. Ora, no desporto e não só, os “favores” aportam sempre risco de perda de independência.

5- Pedro Emanuel, atual treinador do Estoril Praia, em conversa com alunos de uma escola de Cascais, deixou uma mensagem que devemos partilhar: “É a altura de nos focarmos no essencial e passar uma mensagem positiva de prazer e paixão e não de guerrilha”.

Por mim, parabéns aos desportistas que continuam a lutar pelo seu aperfeiçoamento contínuo, pelas diversas vitórias alcançadas, em todas as modalidades.

Regressando ao jogo de amanhã:

- Que todos os intervenientes (jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, adeptos) vivam intensamente o jogo e que o saibam valorizar.
- Desafio-os a conseguirem ser exemplares e em construírem uma imagem fantástica que perdure, com dignidade.

Que vença o futebol.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.

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