QUINTA-FEIRA, 29-06-2017, ANO 18, N.º 6361
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
O bispo da Luz (artigo de José Antunes de Sousa, 76)
20:08 - 17-04-2017
José Antunes de Sousa
Há dias, numa das minhas palestras na Universidade de Brasília, abordei aquilo que considero ser o teor mágico do jogo, fomentado, quero crer, pela caldeirada da incerteza quântica que o caracteriza, bem assim, de resto, como a realidade de nossas vidas. E porque o jogo parece construir-se através de uma cascata fáctica em que parece prevalecer o imprevisto e o aleatório, ele revela-se espaço favorável à expressão popular de uma crença rendida, uma crença baseada na concepção taumatúrgica de um Deus jogador que se entretém a satisfazer caprichosamente os pedidos aflitos das desvalidas criaturas, concepção imposta pelo tradicionalismo proselitista das religiões clássicas, um Deus caricaturado por Feurbach e que ofereceu de graça o demolidor pretexto iconoclástico a Nietzsche, um Deus, enfim, abissalmente distante de um Deus de todos e de tudo sugerido pelo novo paradigma científico da ciência consciente (Willis Harman) que Amit Goswami, entre outros, vem propondo com incansável entusiasmo.

Os estádios como que se constituem em sucedâneos festivos e, não raro, dramáticos das basílicas, onde massas suplicantes imploram o milagre da vitória. Como naquele dia 27 de Fevereiro de 2003, quando, no final do jogo Boavista – Herta de Berlim, jogo que terminou com um improvável 1-o para o Boavista que lhe valeu a histórica passagem aos quartos de final da Taça UEFA, o Zé do Laço que, trajando todo de xadrez, se tornou num ícone do próprio clube, levantou os braços ao céu, se benzeu e desatou a enviar beijos para o alto – certamente a alguma entidade a quem atribuiu o milagre de tão épico feito.
E Ruy Belo, esse fulgurante cometa da poesia portuguesa, escreveu: “ Num mundo sem religião, o futebol é a religião moderna e os jogadores os ídolos. Um pedaço de camisola, um autógrafo não são relíquias? Não se toca no atleta como se tocava na imagem? O jogador é o sacerdote: oficia por nós. O estádio é a catedral. Uma aglomeração em Fátima fica a dever muito a uma enchente no Estádio da Luz e mesmo mais belo que uma procissão de velas é o ininterrupto acender e apagar de luzinhas, observável durante os desafios à noite – os cigarros dos expectadores...”

Luzinhas que mais recentemente são encenadas pelo flash continuo das câmeras dos telemóveis.

E, a propósito de relíquias, que dizer daqueles milhares de caixinhas contendo um pequeno rectângulo de relvado do velhinho Estádio da Luz, após o jogo de despedida disputado com o Santa Clara – (tinha que ter uma santa)?

E Pinto da Costa, em 26 de Maio de 2003, na cerimónia de entrega de dragões de ouro, exclamou, em êxtase, na sequência de um ano de títulos: “Graças a Deus tivemos uma época fantástica!”. Graças ao Deus que naquele ano se passeou no Olimpo vestido de azul e branco…!
Os Estádios cheios de fezada, que fé é bem outra coisa, replicam a Ágora na exposição catártica de emoções – como, de certo modo, acontece, por exemplo, nos santuários de Fátima ou da Senhora Aparecida, aqui no Brasil.

Quem não reparou naquele sócio benfiquista devidamente paramentado para a liturgia da vitória com a mitra episcopal na cabeça: creio que é do Norte, talvez, quem sabe, de Lousado, a terra que viu nascer o cardeal Cerejeira, que, nestas coisas, é bom contar com a mão da hierarquia eclesiástica para não incorrer em sacrilégio ou em excomunhão.

Neste caso, ainda há o respeito pela maioria católica do país e o bispo da Luz exibe garbosamente as vestes do ofício divino, mas outras mágicas intercessões se encomendam pela calada da noite, a sul, talvez, mas sobretudo a norte: ao que consta, o Bruxo de Fafe tem alguns dirigentes desportivos entre os seus mais assíduos clientes. No me lo creo, pero que las hay las hay…

Sejamos honestos e tolerantes:

Nesta liturgia de cinzas, de aperto e aflição em que os dois clubes que disputam o campeonato se meteram, ao determinarem para si próprios que o mesmo se decidiria apenas no último segundo, com uma rija disputa palmo a palmo, está claro que, com tudo tão incerto, ambos teriam que recorrer aos favores das falanges celestiais ou, quem sabe, de outras hostes luciferinas. Ou seja, com tão sonora e autoflagelatória profecia da iminência do abominável e trágico fiasco, todos os exorcismos são bem-vindos e todas as rezas bem acolhidas: de novo, nos braços do Deus popular, o mesmo que por um triz não mandava Isaac para a fogueira, ateada por seu pai Abraão!

Mas, nesta titânica luta, com cânticos funestos pelo meio, quem acabará por ganhar?

Nesta fervilhante incerteza, que é, diga-se, simplesmente o resultado do nosso incerto enxergar, o nosso bispo da Luz continuará abençoando e propiciando os bons ares do Monsanto, e o nosso simpático Bruxo de Fafe continuará, quem sabe, as suas peregrinações à Senhora do Sameiro.
Mas, insisto, quem ganhará?

Não há dúvida que, apesar de ambos coincidirem na vocação profética, a realidade do Benfica é diferente da realidade do Porto – por isso só um deles poderá ganhar: é o que é designado por “modelo de interferência”. Mas quem dos dois ganhará?

Aqui vai a resposta: nesta tômbola das apostas, ganhará quem der por ganhado (sentir ter ganhado!) o que ambos procuram ganhar! Quem mais campeão se SENTIR ganhará.

Não é uma questão de número, não é uma questão de quantidade, mas de intensidade – tem a ver com nível de consciência.

Depende não do número de espectadores, mas do nível de convicção e de confiança.

Chove quando se dança JÁ molhado – como tão sugestivamente explica o cientista norte-americano Gregg Braden!

Numa espécie de biologia da crença.

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile

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