QUARTA-FEIRA, 26-04-2017, ANO 18, N.º 6297
Aníbal Styliano
Espaço Universidade
O dia em que o futebol foi esquecido (artigo de Aníbal Styliano, 18)
21:32 - 15-04-2017
Os tempos são difíceis, controversos, inseguros e imprevisíveis... A vida e o futebol também. À incerteza opõe-se a vontade, à dúvida o talento, à dor a esperança. O Borússia de Dortmund (treinador Thomas Tuchel) e o Mónaco (treinador Leonardo Jardim) tinham jogo marcado para dia 11 deste mês de Abril: 1.ª mão dos quartos-de-final da Champions.

Na viagem do autocarro que transportava a equipa alemã ocorreu um episódio terrível e cruel: um atentado estilhaçou vidros e chegou mesmo a ferir um atleta que teve de seguir para o hospital, felizmente sem perigo maior, mas em fase de recuperação dos ferimentos.
Sofrer um atento terrorista deve ser uma experiência muito difícil de suportar. O trauma é brutal, as mudanças emocionais deixam marcas, o receio pode ocasionar “estragos profundos”; há momentos que nunca mais deixam de fazer parte de nós.

A polícia e as diversas autoridades fizeram o seu papel com eficácia, os adeptos dos dois clubes foram exemplares e apoiaram-se mutuamente, os jogadores que seguiam no autocarro ficaram num estado emocional muito complexo.

A UEFA cancelou o jogo e marcou-o para o dia seguinte (17h45) em hora que não afetasse as transmissões televisivas dos outros jogos da mesma competição.
As regras têm de se adaptar às exceções e nunca o inverso.
De facto, apesar de diversas práticas recorrentes, os atentados terroristas, são uma presença lamentável, mas real, mais um momento trágico na história da humanidade.
Mas quem os sentiu com total proximidade não pode ficar indiferente.
Em diversas situações, vemos que especialistas são deslocados para apoio de quem viveu tão intensa e traumática situação.
Neste caso, o bom senso, a humanidade, a inteligência, aconselhava a marcar o jogo para uma data mais afastada.
Já não bastava a carga emocional para um jogo desta dimensão, acrescida do agravante (e que agravante) “peso” que se abateu sobre os jogadores.
Thomas Tuchel afirmou que não foi consultado sobre a marcação do jogo.
Mais do que diretores ou outros, são os treinadores que sabem e conhecem o jogo, os jogadores e as condições indispensáveis.
A UEFA marcou o jogo para o dia seguinte, com uma distância temporal inferior a 24h, provavelmente por causa do negócio de milhões dos direitos das transmissões televisivas.
É um direito que lhe assiste… e a legitimidade na defesa dos superiores interesses dos intervenientes?
Contudo, cada vez mais se torna inquestionável que o futebol deixou de ser, para estas entidades e dirigentes, o centro da atenção e passou para mero pormenor de um grande negócio.
Os critérios da UEFA, da FIFA e de outras organizações congéneres, revelam isso mesmo: negócio como principal preocupação que se sobrepõe ao jogo, aos jogadores, aos treinadores, ou seja ao universo principal do jogo de futebol.
Duvido que conheçam o futebol, que o sintam com paixão, que o entendam como missão. Mesmo que, alguns antigos jogadores colaborem nessas entidades, muitos já demonstraram que à fase de jogador sucedeu outra muito diferente que em nada se assemelha ao seu passado… por diversas vezes é mesmo oposta.
Os dois clubes da Champions jogaram, fizeram o seu melhor naquelas condições e revelaram grandeza e paixão pelo jogo.
Honraram o futebol. Mereciam muito mais.
São exemplo dos verdadeiros autores do jogo mágico. Sem eles também nem há negócio…
Paralelamente surgem muitas dúvidas sobre a incapacidade de definição de critérios competentes e ajustados ao futebol.

Inclusivamente, nas nomeações para integrar, como dirigentes, as estruturas da UEFA e da FIFA (com passados recentes nada edificantes e contínuas mudanças) surgem questões pertinentes:
- As escolhas são feitas por estratégia de relações e de cumplicidades?
- Por competência, dedicação, provas dadas e conhecimento do futebol, no seu todo?
- Pela habilidade e grande “abertura” negocial?
- Pelo “peso” de lóbis poderosos?
- Pelo trabalho realizado no próprio país?

Esta última opção nem se deve colocar…
A realidade tem evidenciado que os principais beneficiários são unicamente os protagonistas (e suas equipas de apoio) que vão para esses cargos e nunca o futebol do país que eles representam.

Alguns ainda continuam a procurar descobrir onde estará o “talento” que tanto afirmaram querer aprofundar, como imagem de marca e solução financeira.
O futebol não pode ser esquecido, nem desvalorizado, dessa forma.
É indispensável (e urgente) exigir e responsabilizar com firmeza quem tem a distinção de poder trabalhar para o futebol, nas mais importantes instituições que o devem servir.
Em caso de dúvida, indique-se a porta de saída, antes que seja muito tarde e os prejuízos, a todos os níveis, e a credibilidade sejam afetados.
No campo, o jogo é transparente, o talento afirma-se sem truques, as movimentações e dinâmicas desenvolvem-se sem esconderijos…
A organização e as estruturas têm de estar ao nível do jogo, inclusivamente na área da transparência.

Duas situações paradigmáticas, a nível nacional (que identificam semelhanças com a “atitude” das entidades internacionais):
- O último jogo da Seleção A, na Madeira, contra a Suécia, para além do exagero de carácter festivo, criou dificuldades a jogadores de dois clubes que passado um prazo curto iriam disputar um jogo que podia ter sido decisivo para atribuição do título. Não podiam ter deslocado esse jogo para dois dias adiante?
O selecionador nacional, Fernando Santos, muito bem, afirmou que situações dessas não se irão repetir.
- O Marítimo jogou com o Chaves no passado dia 10 deste abril a partir das 20h. Jogo intenso e bem disputado. Quatro dias depois o Marítimo (ainda com aspirações europeias) vai jogar ao estádio da Luz contra o Sport Lisboa e Benfica.
A Liga saberá que num prazo tão curto não cabem os seguintes fatores: recuperação, viagem de avião, treinos para preparar o jogo em função do adversário, para criar rotinas e estratégias para esse jogo específico?
Não sabe mas devia saber e ter em atenção, tanto mais que deve ser o garante do futebol profissional, da salvaguarda das competições e clubes, evitando desigualdades de tratamento que penalizam uns e favorecem outros.

O futebol, os jogadores, os treinadores, os adeptos, merecem muito mais.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.

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