SÁBADO, 27-05-2017, ANO 18, N.º 6328
Espaço Universidade
FUTEBOL - da euforia ao conflito ... da paixão à agressão!... (artigo de José Neto, 49)
23:30 - 11-04-2017
Como sabemos a modalidade de Futebol tem um forte impacto na sociedade, inspirando artistas, despertando paixões, suscitando críticas, tudo isto justificado pelo maior impacto social transmitido pelos media, envolvendo direta e indiretamente bilhões de pessoas quer na sua prática, quer na condição de adeptos e profissionais pelos serviços prestados. Daí que qualquer jogo, especialmente quando se apresenta como um fenómeno de consumo como expressão de alta popularidade, gera forte impacto nos hábitos e atitudes de um povo, podendo mesmo constituir-se como um laboratório de análise social.

O Futebol assume-se de facto como um fenómeno de grande complexidade, servindo de espaço de união ou dispersão, alicerçando de forma abrangente toda uma sociedade sem fronteiras, onde a sua linguagem universal se documenta e exalta.

Perante a dinâmica que o jogo faz incidir e da importância excessiva atribuída tanto às vitórias como às derrotas, pode desempenhar um papel projetivo e coletor de frustrações dos adeptos quando perdem e exaltação desmedida daqueles que simplesmente ganham, abrindo espaço para ondas de violência como feridas abertas, prontas a latejar. Quantas vezes, frases feitas de boas maneiras envoltas em gestos de simpatia cobertos por sorrisos, escondem frustrações de desempenho, que a impulsividade duma simples ação acaba por ser a tampa dum ódio libertador pronto a ser disparado.

A dinâmica imprimida pela conquista da bola, a inquietude revelada nos lances falhados, a má interpretação pelo julgamento do jogo, a conquista do resultado positivo como única garantia para premiar o sucesso, associado a demais causas, tais como: deficiente formação educativa, acompanhada duma degradante iliteracia desportiva, impreparação e masculinidade dos intervenientes, natureza do recinto desportivo, obscuridade e ruído, álcool e outras drogas, rivalidade e racismo, historial qualificativo de violência, grupos ultras e hooliganismo, apresentam-se como índice de causalidade mais evocativo para a violência.

Por vezes o estado de alma, como eco libertador da consciência de quem joga ou assiste, dirige ou treina, julga ou comenta, pode gerar festa e tragédia, esperança e medo, dúvida e razão e da euforia ao conflito, como da paixão à agressão, vai a distância dum tempo favorável para a criação de situações conflituosas, dando lugar à euforia e à cólera perante as fases mais relevantes: marcação ou não de penalty, o golo marcado ou invalidado, a falta inexistente e o estádio transforma-se numa labareda de opiniões com efeitos por vezes dramáticos.

Cria-se à volta e por dentro do espaço de jogo um ambiente propício ao conflito, dado que proliferam escondidos nas próprias sombras, um contingente de inadaptados e marginalizados, que sempre estão dispostos a reincidir as regras do bom senso, incitando ao conflito, tendo ali uma boa oportunidade de provocar o tumulto. São como bestas humanas que se infiltram na multidão, estendendo tapetes de sangue por onde passam, cobrindo de luto a essência pacífica e emuladora que sempre o belo jogo deve promover.

Agressões de forma continuada a árbitros por parte de jogadores e adeptos, absurdas incongruências de ira e raiva portadoras de graves conflitos corporais entre assistentes, discussões acesas em alguns programas de comunicação social que nos entra pela casa dentro documentadas por imagens que enganam e disfarçam com a falta de vergonha como são expostas. Futebol, este belo jogo, também sugado pelo trânsito das palavras e das ideias, demente entre as pessoas que espreitam o conflito, dele se alimentam e se revisitam no espelho da própria ignorância … eis a loucura de trato misturada por uma linguagem rasca entre alguns figurões, prisioneiros pelas malhas da animalidade, grosseria e bestialidade.

É urgente e necessário tomar mediadas severamente punitivas para quem não é capaz de viver de forma social e pedagógica o compromisso do Fair – Play, que implica o respeito pelas regras, a garantia de cumprimento de um conjunto de deveres, obrigações e comportamentos, um modo de pensar e atuar, perante uma filosofia de vida que enriquece de forma exemplar a identidade individual ou coletiva, pelas manifestações de orgulho cooperante e participativo.

A título de exemplo, podemos apelar a um maior reforço de segurança, a identificação e imediata punição do agressor, eliminando-lhe o acesso ao recinto do jogo, (deslocando-se para o efeito à esquadra ou comando policial, possibilitando-lhe a audição em relato ou visualização do mesmo), formação e educação cívica e desportiva e trabalho comunitário congruente até à irradicação absoluta.

Creio que deste modo, estarão criadas as condições para deixarmo-nos envolver por este belo sentimento de amor ao Futebol, transferindo-o para um jogo fantástico, apelando a raros e únicos momentos de inspiração em movimento, onde a harmonia do gesto, insubordinado umas vezes, inspirador e ousado noutras, mas sempre emocionalmente excitante, nos confere.

Então sim, será apresentado o Futebol em jogo como arte, cultura, ciência e razão, gerado por uma fonte mobilizadora, onde possamos situar a dignidade da pessoa com a autenticidade do cidadão e de onde poderão ressaltar boas notícias … notícias de paz, de generosidade e duma inatacável honestidade de processos!...

José Neto – Metodólogo do Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário.

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