QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Espaço Universidade
O Desporto e o Desenvolvimento e a Paz… (Artigo de José Pinto Correia, 1)
20:53 - 07-04-2017
José Pinto Correia
O desporto mobiliza alguns dos aspectos mais essenciais da natureza humana. Exprime a vontade de ser melhor, de aperfeiçoamento contínuo, de superação das capacidades individuais ou de grupo, da inteligência em acção determinada, demonstra a cooperação entre vários seres humanos para alcançar um objectivo comum, exige esforço, capacidade de sofrimento, e a elegância da superação que se materializa na vitória da competição, sendo que nesta a violência é transformada apenas em luta entre iguais, respeitando regras estabelecidas e reconhecidas, que um intérprete abalizado faz cumprir o mais estrita e rigorosamente possível e justificável.

O desporto, nesta sua multíplice consagração dignificada como actividade humana tem em si as potencialidades necessárias e suficientes para elevar a condição humana de quem o pratica e de todos quantos por ele são profundamente atingidos.

O desenvolvimento é um processo contínuo de melhoria das condições de vida, de relação e cooperação e sujeito a deveres estritos de respeito pela justiça e equidade entre os seres humanos. Não se trata apenas de um processo de natureza económica, embora esta tenha um carácter determinante, mas também de consecução educativa, cultural e mesmo desportiva. O desenvolvimento é, assim, um conceito de índole sistémica, para o qual contribuem as diferentes vertentes em que se exprime a vida digna e livre dos seres humanos envolvidos numa comunidade nacional, organizada desejavelmente sob tutela política de um estado.

O desporto pode e deve servir o desenvolvimento, sendo seu fautor, mas necessariamente cumprindo escrupulosamente os princípios da ética universal que a carta olímpica estabeleceu há muitos anos. A ética implica sempre a bondade dos meios e a capacidade destes para legitimarem os fins. Nesta valoração moral a regra dourada estabelece que “não se pode impor a outrem aquilo que não se admite que nos seja imposto pelos demais a nós mesmos”, por um lado, e a de que “o meu comportamento em cada circunstância deve poder ser de tal modo que se possa tornar num registo respeitado por todos os demais intervenientes ou circunstantes”, por outro.

Assim sendo, quem fala em nome do desporto tem de ser servidor das suas causas e instituições, sobretudo quando as dirige ao mais alto nível, sabendo que para garantir as exigências de maior valor social e económico do desporto, indispensáveis ao seu contínuo desenvolvimento, tem de agir em conformidade com as suas palavras e nunca de forma enviesada e disforme que possa desmerecer a genuinidade dos seus comportamentos.

Desenvolver é, também, nestas condições éticas, tornar melhor, mais saudável, mais digno, mais justo e equitativo, o desporto, e contribuir sem transigências ou incorrecções para valorizar a sua presença no espaço público, no seu valor económico e social, também no seu significado político, quer no espaço nacional, quer global. Aos homens que servem o desporto ao seu mais elevado nível dirigente devem ser exigidos padrões inequívocos de justiça, honorabilidade, sensatez, humildade e sentido da dignidade indissolúvel de cada pessoa. Só com estas categorias éticas os dirigentes podem estar ao serviço do desporto, garantindo o seu desenvolvimento e fazendo dele um engenho profícuo de paz, quer no interior dos espaços nacionais, quer no seio da comunidade internacional. E é aqui, neste espaço relacional internacional que o desporto, com a nobreza de valores que emana e que o definem intrinsecamente, pode apoiar e sustentar os esforços de geração de paz e frutuoso relacionamento inter-nações e inter-comunidades.
O desporto servirá a paz, tanto no interior de cada país, quanto usando do seu valor diplomático a nível global, pela promoção dos seus valores intrínsecos de audácia, vontade, ambição, luta controlada, arte e estratégia, quanto pela possibilidade de colocar em comum povos e nações, competindo pela vitória das suas equipas desportivas nos campos e infraestruturas específicas, sublimando durante toda a competição a violência e transformando-a, primeiro, em superação e excelência atlética e de desempenho, e depois em exaltação e paixão pela vitória celebradas pacificamente, sendo essa competição sempre sujeita a estrito cumprimento das regras estabelecidas e devidamente avaliadas no tempo de duração dos confrontos individuais ou de equipas.

Sim, o desporto com a sua nobreza exaltante pode servir o desenvolvimento humano, na sua condição sistémica e valorativa, e promover a convivência pacífica entre os homens, organizando espaços nacionais e internacionais onde a paz seja afirmada com vigor e permanência, ajudando a construir a “Boa-Sociedade, a Boa-Vida e o Bem-Comum”.

Mestre em Gestão do Desporto

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