SEXTA-FEIRA, 26-05-2017, ANO 18, N.º 6327
Espaço Universidade
«Futebol sem cartilhas» (artigo de Aníbal Styliano, 17)
17:31 - 07-04-2017
Aníbal Styliano
A autenticidade da ética pressupõe concordância do que se afirma com a
correspondente ação/desempenho. Surgiu recentemente um texto/documento, não assinado mas unicamente apresentando como título as iniciais de um clube de Lisboa e notas para a semana 36, o que indica um processo contínuo e sistemático. Documentos para uniformizar opiniões e formatar pensamento trazem à memória um estilo de propaganda e de infelizes tempos de extremismos, que culminaram num drama mundial. Texto anónimo (o que diz muito sobre a coragem do autor/es) que representa talvez um dos piores adversários dos últimos tempos para tentar derrubar o futebol.

Agressões, violência, ação inadequada dos pais de jovens atletas, viciaçãode resultados, inação dos Órgãos que deviam saber tutelar o setor e outros temas similares, têm causado danos que o futebol vai superando, por vezes com maior dificuldade, graças a "receitas" responsáveis e com alguma eficácia de membros que sentem e participam no movimento associativo: o caminho é longo e exige sempre esforços comuns. Agora, vejo aparecer um dos piores inimigos: um autêntico atentado à liberdade de expressão individual.

Em qualquer área, a quem é convidado para comentar deve ser reconhecido o direito às suas opções, mas também deve ser exigida a responsabilidade de afirmar as suas opiniões com total liberdade.

Investigar factos, identificar indícios e contextos é sempre uma tarefa
individual porque vai ser transmitida como tal.

Um texto com várias páginas que, num primeiro momento, revela um "desespero fundamentalista" que procura ganhar (sem se saber bem o quê) a qualquer preço, pode ser considerado um triste exemplo de "terrorismo verbal" de quem eventualmente pretende aproveitar o futebol em função de apropriação indevida. Será pela frustração de nunca ter conseguido "dominar bem" uma bola? Ou haverá ideia concertada?

Quem o escreveu não é (não são, se forem vários os autores) adepto do
futebol, do desporto em geral, nem da convivência e diálogo civilizados. Não conhece, não entende, nem gosta de futebol.

Há sempre motivações estranhas, eventualmente "patológicas", de pessoas que tentam destruir e desunir, para reinar, para servir "donos", para lucrar de qualquer forma e agradar a alguém.

Certamente que esses senhores desconhecem que, ainda há poucos dias, a
nossa Seleção de Râguebi de Sub-20 se sagrou campeã europeia. Eles visam outros focos mais lucrativos.

Desporto nunca é espaço de cobardia mas antes de confronto: competição, com regras, princípios e valores essenciais e fundamentais. Por vezes, surgem falhas, erros, imprevisibilidades e atos que urge combater, corrigir, resolver, bem como analisar os contextos que os possibilitaram.

Todos queremos que as nossas cores ganhem títulos: é natural e legítimo. Mas também sabemos reconhecer (por muita tristeza na derrota) o mérito de quem vence.

A esperança mantém-se para a próxima oportunidade, sem dramas, cada vez com mais apoio e novas emoções. O futebol (e o desporto em geral) é muito mais do que uma simples vitória, é talvez um dos espaços mais privilegiados para a humanidade perseguir o sonho da imortalidade e da perfeição.

Os tempos que atravessamos são complexos e favorecem extremismos, por falta de respostas adequadas e competentes aos desafios globais que se colocam aos cidadãos e ao planeta. Confiamos que a inteligência, o bom senso, a ética e o desportivismo, vão voltar a ser pilares indispensáveis para novas construções, novos golos
decisivos.

O tal documento surge num momento em que a competição da nossa principal liga de futebol se encontra numa fase crucial. Que ganhe o melhor, o mais competente e com toda a justiça, sem influências
externas e ilícitas. Só assim, as vitórias perduram com lealdade e admiração. Cartilhas há muitas. Cartilhas de orientação de pensamento e comportamento são marcas de tempos idos, de más memórias e ideias anacrónicas, intoleráveis e inconcebíveis.

Uma cartilha assim valoriza palavras e conceitos como "orgulho", "nação
unida" (num sentido imposto não escolhido), "nós contra todos", além de
sugestões/indicações de como se deve uniformizar o início dos comentários. George Orwell sempre visionário de excelência, bem alertou.

Ideias como só valorizar o nosso, destruir argumentos contra nós, rebuscar memórias para fundamentar factos atuais, desprestigiar adversários (até distorcendo factos), pesquisar casos antigos, "pidescos", para prejudicar outros, ajustes de contas, distorção de imagens, convencer a realçar, de forma intensa, quase fervorosa, o que se pretende hipervalorizar numa reportagem televisiva, condicionando as conclusões e os pormenores que se
devem descobrir (ou encobrir), caluniar adversários, desmentir falhas a
favor, desculpabilizar atitudes de jogadores por mais incorretas, convencer que só se ouve o que se quer, desmentir falhas cometidas, disfarçar com elogios erros constantes como virtudes de âmbito internacional.

Enfim, uma cartilha castradora da liberdade de expressão e de opinião, ao serviço de um Big Brother qualquer que procura limitar intelectualmente, potenciando alienação e um certo "zombismo" que, além de ser ridículo, pode ser prova de insanidade.

Por isso, mesmo que repetida muitas vezes, a mentira tem perna curta e
nunca conseguirá "lesionar gravemente" o nosso desporto. O futebol derrotará todas as tentativas extremistas que colocarem em causa
a sua sobrevivência, venham de onde vierem e pelas ordens de quem quer que seja (no plano nacional e internacional). Todos os que gostam do jogo devem afirmar sempre: "Não passarão." O Futebol é invencível, enquanto quisermos e nos soubermos respeitar como
humanidade livre. Tema importante e preocupante: Que decisão tomará a Federação? "Quem não aprende com a história está condenado a vê-la repetir-se." (Rob Riemen, "O Eterno Retorno do Fascismo", Bizâncio, 2012, 13).

O futebol proporciona momentos de beleza singular quais telas de génios
pintores. Por falar em quadros e em pintores, destaco a memória de beleza, de cor, de transparência. nas janelas de Lisboa da grande e saudosa Maluda.


comentários

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jlcaf
10-04-2017 09:56
Mas o quê? É ilegal? Não!! É proibido? Não!! Então porque esta questão à volta deste documento. Se os outros não fazem o mesmo é porque não querem. O que eu duvido. parem com falsas questões e ganhem os pontos no campo.
Kymerah
09-04-2017 17:26
Quando se fala ou comenta deve-se estar o melhor informado possível sobre os temas. Não vejo a dita "cartilha" a forçar ninguém a dizer o que quer que seja. Vejo, sim, a fornecer dados para os temas em debate. Caberá sempre ao comentar utilizar, ou não, a informação fornecida.

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