DOMINGO, 25-06-2017, ANO 18, N.º 6357
Gustavo Pires
Olimpismo
Pierre de Coubertin e a Síndrome da Olímpica Autodestruição (artigo de Gustavo Pires, 60)
17:03 - 07-04-2017
Num documento intitulado “A Carta da Reforma Desportiva” (La Charte de la Réforme Sportive) datado de 1930, Pierre de Coubertin dizia: “aquilo que podemos censurar no desporto resume-se a três tipos de problemas: (1º) Excesso de esforço físico; (2º) Contribuição para o declínio intelectual; (3º) Difusão de um espírito mercantil e de amor pelo lucro. Trata-se, podemos dizer, da síndrome de autodestruição.

A leitura da referida Carta é de fundamental importância para se analisarem e compreenderam os acontecimentos ocorridos no jogo de futebol entre o Rio Tinto e o Canelas (02-04-2017), em que um árbitro foi barbaramente agredido. E é de fundamental importância uma vez que eles representam bem o descalabro político-administrativo em que o desporto nacional está a funcionar, quer dizer, “sem rei nem roque”, como se fosse um Estado dentro do próprio Estado. E a situação é tanto mais confrangedora quanto se sabe que, salvo algumas exceções, a generalidade dos dirigentes políticos e desportivos, não revela a mínima capacidade ou interesse sequer em resolver um problema que, há muito, tem vindo a ser urdido por eles próprios. Em consequência, o desporto está a funcionar em roda livre através de um modelo organizacional absolutamente caótico, com fraquíssimos resultados na base do Sistema Desportivos e resultados mais do que medíocres no topo da pirâmide desportiva, quer dizer, nos Jogos Olímpicos, para além das anémicas taxas de participação desportiva.

Coubertin, para além de ter sido um empreendedor foi, sobretudo, um visionário, cujas principais ideias, ainda hoje, estão perfeitamente atualizadas. Por isso, relativamente aos estigmas por ele apontados há cerca de noventa anos, olhando para o que, de uma maneira geral, está a acontecer no desporto, temos de concluir que, embora a história nem sempre se repita com exatidão, o futuro também não surge por acaso.

No que diz respeito ao “excesso de esforço físico” apontado por Coubertin, está a surgir no Movimento Olímpico uma certa “cultura equestre” que ao transformar os Comités Olímpicos Nacionais (CONs) em Comités de Alto Rendimento, acaba por promover uma prática de violência pessoal e social sobre os atletas, incluindo a utilização de produtos dopantes, em alternativa a uma cultura desportiva sustentada numa ética de autenticidade que, do ensino ao alto rendimento, promova o desenvolvimento humano. Quer dizer, está em curso uma cultura promotora de “bestas esplendidas” (para utilizarmos a expressão de Manuel Sérgio), que mais não representa do que a exploração dos atletas a quem se exige tudo sem que estejam garantidas as condições e os apoios relativas às exigências que se lhes fazem. Mas se, por um lado, é lamentável ver atletas olímpicos completamente abandonados e vilipendiados na comunicação social só porque não atingiram os resultados previstos, por outro lado, uma vez retirados da competição formal, é confrangedor vê-los a serem utilizados como autênticos adereços tanto por dirigentes desportivos oportunistas e medíocres quanto por dirigentes desportivos medíocres e oportunistas. Mas, mais grave ainda, é a situação daqueles ex atletas olímpicos com formação superior nas mais diversas áreas sociais, só porque não se sujeitam a fazer de meros adereços das estuporadas políticas que os dirigentes desejam implementar, são, simplesmente, ostracizados em benefício de listas diretivas composta por uns quaisquer paisanos, autênticos pesos-mortos sem cultura, sem competência e sem vontade própria, mas que aceitam ser uns “verbos encher” da vontade do líder que já se confunde a ele próprio com a instituição que devia servir.

No que diz respeito à “contribuição do desporto para o declínio intelectual” apontada por Coubertin, está a acontecer um dramático declínio moral dos dirigentes desportivos e políticos que, na já referida visão equestre do processo de desenvolvimento do desporto, têm como objetivo fundamental acrescentar valor político à competição desportiva. Ora, a história é pródiga em exemplos que nos dizem que, quando se tem como objetivo acrescentar valor político ao desporto, acaba-se por promover um modelo de desenvolvimento, simplesmente, fascista. O nível desportivo de um país é determinado por uma relação eurítmica entre os praticantes de base e os praticantes de elite sob pena dos dirigentes desportivos e políticos não passarem de simples lanistas a viverem à custa do corpo e da alma dos atletas. Hoje, é escandalosa e preocupante a corrida despudorada dos mais variados dirigentes político-partidários em exercício aos corpos gerentes das organizações desportivas, sob o ar abúlico das gentes do desporto.
No que diz respeito à “difusão de um espírito mercantil e de amor pelo lucro” apontado por Coubertin, está a ser desenvolvido um espírito economicista com o consequente amor pelo lucro, quer dizer, o já referido acrescentar valor só que, desta feita, comercial, que leva alguns dirigentes a estarem mais preocupados em satisfazer os patrocinadores (inclusivamente o patrocinador Estado) do que em garantir o desenvolvimento do desporto, do ensino ao alto rendimento, passando pela generalização da prática desportiva.

Em conformidade, colocam os desportistas na situação de terem de obter resultados, quer dizer, se não rendem desportivamente não valem economicamente, o que significa, tão só, o exercício de uma violência inaceitável semelhante àquela que acontece antes dos Jogos Olímpicos quando os dirigentes, assumindo as funções de autênticos lanistas, não se poupam a prometerem medalhas que, depois, para além de não aconteceram, acabam por agredir violentamente os atletas que se sentem utilizados como “carne para canhão”. Tal como aconteceu em Pequim (2008) e no Rio de Janeiro (2016). Ou, como agora aconteceu no jogo de futebol entre o Rio Tinto e o Canelas em que Marco Gonçalves o protagonista principal dos tristes acontecimentos, perante a covarde debandada dos dirigentes políticos e desportivos disse: “Eu assumo o que fiz. Sou mais homem que vocês”. Marco Gonçalves agrediu um árbitro o que é absolutamente inadmissível e reprovável, mas ainda é mais inadmissível e reprovável ver dirigentes desportivos e políticos, passados e atuais, diretores de clubes e federações, ministros, secretários de estado, deputados e diretores-gerais a "escovarem a água do capote" com se nada do que aconteceu tivesse a ver com eles. E, para ficarem completamente salvaguardados, trataram de crucificar o futebolista que foi imediatamente expulso do clube. Depois, não perderam tempo a pedirem mais leis, mais e maiores penas, mais polícias e com mais armamento, a fim de fiscalizarem os jogos. Claro que estão somente a iludir o problema uma vez que o clube Canelas e Marcos Gonçalves são, somente, as tristes consequências que decorrem da ausência de verdadeiras Políticas Públicas em matéria de educação desportiva. Basta lembrar há quantos anos um jogador de futebol da seleção nacional agrediu um árbitro ou um outro que agrediu o treinador nacional sem que, entretanto, nada de significativo tivesse sido feito para mitigar o problema. Assim, é necessário que os portugueses não se deixem sedar e compreendam que os dirigentes políticos e desportivos são os principais responsáveis pelo que se passou na Freguesia de Canelas.

O dramático da situação é que tanto o Estado quanto a generalidade das organizações civis se demitiram da sua missão educativa e cultural. Em consequência, o Sistema Desportivo está transformado numa espécie de “casa dos segredos” onde tudo vai acontecendo, olimpicamente, ao sabor do improviso. Agora, a palavra de ordem é penas mais duras para resolver um problema que, há muito, devia ter sido começado a resolver com educação e cultura por dirigentes que, há dezenas de anos, se perpetuam agarrados ao poder ou que têm andado a saltar de lugar em lugar ao serviço de vários partidos sem se atreverem a mudar o que quer que seja. E, a menos que se afaste este tipo de pessoas e se alterem radicalmente as Políticas Públicas em matéria de desporto, podem crer que ainda vem aí pior.

Pelas piores razões o caso Canelas acabou por, novamente, trazer para a opinião pública a designada Síndrome de Autodestruição equacionada por Pierre de Coubertin.

Hoje, o desporto: (1º) sofre de excesso de esforço e, por isso, na lógica de uma cultura equestre, está encharcado em produtos químicos legais e ilegais; (2º) sofre de declínio intelectual e, por isso, numa lógica mercantil está tomado por violência física e psicológica que destrói as relações interpessoais; (3º) sofre de um espírito mercantil e de amor ao lucro e, por isso, à margem de uma ética de autenticidade, o comportamento dos dirigentes nada tem a ver com o discurso que eles próprios produzem.

Não chega dizer que são necessários mais polícias e penas mais pesadas como era prática em Portugal “ao tempo da outra senhora”. É urgente assumir que é necessário mais educação, mais cultura e mais prática desportiva, do ensino ao alto rendimento, através de programas perfeitamente articulados, integrados e amplamente participados na sua conceção e execução, dirigidos à generalidade das populações. Esta é a verdadeira missão dos CONs assim sejam os seus dirigentes capazes de estudar o pensamento de Pierre de Coubertin e compreender o verdadeiro espírito da Carta Olímpica.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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