QUARTA-FEIRA, 26-07-2017, ANO 18, N.º 6388
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Carta aberta ao Jorge Jesus (artigo de Manuel Sérgio, 187)
17:41 - 26-03-2017
Manuel Sérgio
Querido Amigo:

Num Colóquio, onde se procurou estudar a minha obra e o meu pensamento e na Homenagem que alguns amigos meus tiveram a bondade de oferecer-me, nos passados dia 20 e 21 deste frio mês de Março, respetivamente na Fundação Calouste Gulbenkian e na Sala do Senado da Assembleia da República, contei com o talento de um admirável friso de intelectuais, entre os quais se descortinavam o Dr. Jorge Carlos de Almeida Fonseca, presidente da República de Cabo Verde, os Profs. Annabela Rita, da Faculdade de Letras de Lisboa, João Batista Freire, um egrégio mestre da educação física brasileira, Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, Miguel Real, José Eduardo Franco, Paulo da Silva Dias, magnífico reitor da Universidade Aberta, o Dr. Rui Carp, presidente da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, os Profs. Francisco Louçã, Gustavo Pires e Abel Figueiredo, inúmeros doutorandos do CLEPUL da Faculdade de Letras de Lisboa e ainda o apoio afetuoso de alguns deputados, do Prof. Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação, do Dr. João Paulo Rebelo, secretário de Estado da Juventude e do Desporto, do Dr. Augusto Baganha, presidente do IPDJ, do Dr. José Carlos Lima, responsável pelo PNED/IPDJ, do Dr. José Lourenço Pinto, presidente da A.F. Porto, do Dr. Rui Pedroto (filho de José Maria Pedroto), do Dr. Jorge Araújo, do Prof. José Neto, do Toni e do Simões, dois antigos jogadores do S.L. Benfica (e peço desculpa a outros nomes de extensa projeção nacional, por deixá-los no esquecimento, pois que o espaço não me permite mais citações).

Não deixo ainda de realçar o telefonema (de Bruxelas, se não estou em erro) de uma generosidade que muito me honrou, do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República Portuguesa e o abraço, que muito me surpreendeu, de Eduardo Lourenço que, do seu gabinete na Fundação Calouste Gulbenkian desceu a uma das sessões do Colóquio para, nas suas palavras, me “homenagear”. Generoso, afável, cortês, Eduardo Lourenço, perante o meu espanto, mostrou que me lia e que admirava o que eu escrevia. Telefonei logo ao José Carlos de Vasconcelos, seu amigo de muitos anos, a perguntar-lhe se era possível que o Eduardo Lourenço gastasse o seu precioso tempo com a minha modesta prosa. Respondeu-me com um “sim” – que, de facto, muito me alegra, mas não esconde o pouco que tenho e o quase nada que sou…

E, entre estas personagens tão ricamente dotadas e de tamanho relevo social, distinguia-se o treinador de futebol Jorge Jesus que, numa serenidade contemplativa, escutou os testemunhos alheios… até que chegou a altura de fazer o seu! Fez-se o silêncio necessário à ansiosa expectativa das pessoas presentes. Escreveu o Amiel que “a paisagem é um estado de alma”. Eu sustento que a paisagem de Jorge Jesus é um estado de simpatia. Na alta competição onde trabalha o atual treinador do Sporting Clube de Portugal, há um belicismo que ressalta do comportamento de muitos “agentes do desporto”. Para eles, no seu acanhado modo de pensar, qualquer adversário é um inimigo. Talvez porque não tenham um conhecimento vivido e despretensioso do futebol, como Jorge Jesus o tem. Para si, o adversário não é um inimigo. Cumpre as suas obrigações, durante os noventa minutos de jogo, como o Jorge Jesus cumpre as suas. Findo o jogo, de bom grado irá, com o adversário de há pouco, para uma conversa exemplarmente fraterna. Um homem, como o Jorge Jesus, que nasceu de uma família pobre, mas honrada e que portanto sentiu o carinho incomparável de sua Mãe e viu no Pai um modelo inexcedível de honestidade e integridade de caráter – um homem, como o Jorge Jesus, pode aborrecer-se com os momentos infelizes de um árbitro mas, no seu coração, com toda a certeza, não medra o ódio. O meu Amigo, para mim, é incapaz de odiar. Já convivi consigo o suficiente, para poder dizer o que venho de salientar. Numa época, como a nossa, de inquietude e mútua suspeição, você é um homem de boa-fé, de indiscutível sinceridade e lisura. Conversava eu, na homenagem, acima citada, com o Tuck, treinador do Sacavenense (atenção a este profissional, é um grande treinador de futebol, digo-o sem receio) e muito seu amigo também, como sabe, e ouvi dele o seguinte: “O Jorge Jesus é dos homens, que eu conheço, em quem mais confio”. E o Dr. Bruno Dias, treinador-adjunto no Sacavenense, confirma as palavras do seu chefe-de-equipa: “O Jesus, para o Tuck, é um ídolo!”.

Mas, dizia eu acima, “fez-se o silêncio necessário à ansiosa expectativa das pessoas presentes” quando o meu Amigo começou a proferir o seu testemunho onde disse, com a voz amaciada pela amizade: “O meu convívio com o Manuel Sérgio fez de mim melhor treinador”. E o Jorge Jesus permitiu-me que eu confirmasse uma ideia que vou repetindo, ao longo dos anos: “É o homem que se é que triunfa no treinador que se pode ser”. Os treinos que o meu Amigo lidera não se encontram nos livros, porque é o homem que o Jorge Jesus é que os organiza e os cria. É de facto o seu talento indesmentível que torna singulares os seus treinos. Repito-me, uma vez mais: não há jogos, há pessoas que jogam; não há desporto, há pessoas que fazem desporto. Lembra-se do Dick Fosbury? “Revolucionou o salto em altura e venceu a medalha de ouro, nos Jogos Olímpicos da Cidade do México (1968) inventando uma estranha forma de ultrapassar uma fasquia que está a um nível quase sobre-humano. O que parecia estranho, excessivo, anti-natural, ou mesmo louco, quando Fosbury apareceu, veio a tornar-se entretanto na técnica padrão desta modalidade” (João Tiago Lima, Estética e Desporto, Edições Afrontamento, Porto, 2016, p. 28). Dick Fosbury começou por desobedecer às ordens insistentes do seu treinador, que previa um autêntico fracasso a técnica preferida do seu pupilo. E afinal era o seu pupilo que tinha razão! As vulgatas dominantes fazem do treino meia-dúzia de dogmas inalteráveis, inamovíveis, desconhecendo que é a imprevisibilidade do ser humano, ou seja, do homem-praticante, que domina e predomina, na competição. Querido Amigo, vi-o treinar, muitas vezes, e posso por isso escrever sem receio que é o treinador extraordinário que a sua criatividade lhe permite. Em si, como em qualquer outro grande treinador, há mais arte do que ciência, quero eu dizer: há mais Jorge Jesus do que o discurso de qualquer teórico ou de qualquer autor. O Rembrandt, o Goya, o Picasso, ou seja, os artistas que gozam de merecido relevo são quase sempre a negação daquilo que aprenderam. Os grandes treinadores, como o Jorge Jesus, também…

No livro de Vergílio Ferreira, Invocação ao meu Corpo (Bertrand, Lisboa, 1978) colhi esta frase: “O homem não se põe apenas as questões que pode resolver: o insolúvel é que o fascina (…). Se o homem sonha ser Deus é exactamente porque só o impossível vale a pena” (p. 137). Costumo definir assim a motricidade humana: “o movimento intencional e em equipa da transcendência” e faço do desporto uma das suas valências. Portanto, no meu pensar, o desporto tem um paradigma: o movimento intencional e em equipa da transcendência!. A principal característica do desportista, salvo melhor opinião, é esta: a transcendência! O desportista é o que, em todas as circunstâncias, se considera uma tarefa a realizar, alguém que, depois de uma inolvidável vitória, ainda encontra, dentro de si, imperfeições e defeitos. Para prolongar a senda vitoriosa, não há outro caminho: partir em demanda das limitações que continuam a condicionar-nos. Todos os sucessos são passageiros, são transitórios. O compromisso de uma equipa de excecional valia não se resume a esta vitória mas, numa “educação permanente”, a todas as vitórias que nos for possível alcançar, dentro de um esforço contínuo de ultrapassar os limites… sem alguma vez pôr em causa a eminente dignidade da pessoa humana! O postulado racionalista reduz o espírito à inteligência, não cabendo nele, nem a poesia, nem a fé, nem o amor, nem o desejo. Afinal. tudo o que o Jorge Jesus é, sobre o mais: desejo e poesia e fé e amor! Nos seus êxitos, há ciência, mas há muitíssimo mais tudo o que o meu Amigo é. E é por isso que eu aprendo muito consigo e é por isso que o meu Amigo é um dos grandes treinadores da história do nosso futebol. O Jorge Jesus não aprendeu senão uma ideia, comigo: reconheça, sempre, nas vitórias e nas derrotas, os seus erros! Sempre! Como vê, eu aprendo muitíssimo mais, consigo. Por isso, aceite o abraço fraterno e grato do Manuel Sérgio.

comentários

2
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)
orienrac
02-04-2017 14:23
Mais uma extraordinária prosa deste grande Senhor que é Manual Sérgio. Não ficaria mal enviar uma cópia deste artigo a Luís Filipe Vieira e alguns "amigos" que o acompanham!
Kolokota
27-03-2017 09:51
Excelente artigo...

mais de ÉTICA NO DESPORTO

Ética no Desporto O Albergue Espanhol, livro recém-editado pela Rosa de Porcelana Editora (Lisboa, 2017), de Jorge Carlos Fonseca, atual Presidente da República de Cabo Verde, é a muitos títulos um livro surpreendente, tanto pelo ineditismo da forma (ora, parec
Ética no Desporto No magistério crítico que o Padre Manuel Antunes, durante longos anos exerceu na vida intelectual portuguesa, as suas aulas de História da Cultura Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foram talvez as que mais fama lhe granjear

destaques