SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
Quando o medo veste de azul (artigo de José Antunes de Sousa, 74)
18:22 - 25-03-2017
José Antunes de Sousa
Ontem, 24 de Março, dei uma palestra na Faculdade de Educação Física da Universidade de Brasília, algo que faço com relativa frequência e no âmbito da minha qualidade de Professor Visitante, desta vez subordinada ao tema, imagine-se, “o lúdico e autocura”.

Costumo ser, por princípio e por feitio, bastante relapso a publicitar aspectos e factos de minha actividade académica, mas, neste caso, acho oportuno e até educativo fazê-lo. Não que me mova a vã presunção de algo poder ensinar a alguém – porque, segundo um velho ditado chinês, “nada do que pode ser aprendido vale a pena ser ensinado”. Mas porque quer o tema quer o episódio a ele associado merecem umas breves considerações.

Primeiro o tema: algo de novo e interpelante está germinando no território pétreo e rígido da tão propalada educação do físico, como se as pedras também fossem dóceis à pretensão alegadamente transformista, que não transformadora, dos pensamentos humanos – pensamentos sempre envoltos no invólucro deslizante da emoção. Algo de imprevisto e desafiante fervilha por entre a caldeirada sincrética de um erudicionismo postiço: o novo espreita, como o pinto, após a rotura do clima placentário e cómodo do ovo materialista – é todo um novo paradigma que espreita!

A prová-lo aí está o tema da minha palestra que, apesar das insuficiências do orador, concitou a extática atenção de alunos e convidados – e só se presta atenção àquilo que nos suscita interesse (inter+esse: estar dentro/intus). Mas não apenas pelo carácter interpelativo de que se reveste a mera enunciação do tema, mas por este me ter sido proposto, de forma absolutamente espontânea, pelo professor da disciplina que trata das metodologias do jogo. Ou seja, ele intuiu que o jogo, na sua natural capacidade recentrante de promover a presença (e a presença é a única instância capaz de dissolver os resíduos inconscientes do passado), o jogo, dizia, tem a potencialidade de propiciar um natural acesso a um modificado estado de consciência, aí onde germina o processamento inconsciente da criatividade – espaço onde o “milagre” da cura acontece, cura que se dá sempre a partir de um ajuste psicoemocional no íntimo do próprio indivíduo. Como o atesta o edificante e quase despótico engodo das crianças na brincadeira.

Como a provar esse vento da novidade está o facto de ter sido eu solicitado por um importante protagonista do desporto nacional para um depoimento sobre “Desporto e Espiritualidade”, destinado a ser incluído num livro que está a ser organizado sobre tão inovador tema – tão procativamente novo que raia a incredulidade, tamanha é a ousadia. Mas o simples facto de haver quem tenha ousado significa que, lá no íntimo de si, no seu “equilíbrio interior”, isso já se lhe fez plausível e pertinente:” não Te procuraria se não Te tivesse encontrado já” (Pascal).

E vamos, então, ao episódio, apesar do muito que haveria a dizer sobre os benefícios para a saúde e para uma desejável longevidade de uma abordagem lúdica e desdramatizada da vida – como o sugere o grácil exemplo da criança seriamente empenhada em jogar-se por inteiro no jogo que joga. Sim, porque a nossa vida não está refém do despotismo determinístico dos genes: há muito mais vida para além da que parece conter um tubo de ensaio.

Mas vamos mesmo à pequena história que me comoveu: já a palestra se aproximava do seu termo, quando finalmente reparei – tinha olhado várias vezes mas não tinha visto por não ter reparado – naquele jovem sentado numa das filas da frente, certamente para que fosse notado, exibindo garbosamente uma camisola (camisa) do Futebol Clube do Porto. Claro que o meu espanto foi toldado pelo desapontamento pelo facto de não ser outra a cor, pois sou mais apreciador do voo altivo da águia do que do caminhar rastejante do dragão, mas foi genuíno o meu contentamento e notória a emoção, por ver alguém de tão longe exibindo com orgulho a camisola de um grande clube do meu país: a distância dissolve os antagonismos.

A origem da camisola: a mãe numa recente viagem – todo o brasileiro transporta o sonho de visitar Portugal – achou que a melhor lembrança que poderia levar para o filho era a camisola do FCP: comovente sem dúvida – e quis mostrar o seu troféu ao professor português. E, tomado ainda desta emoção, dei comigo a lamentar o clima de guerrilha instalado no seio do futebol luso – não havia necessidade. E surgiu-me a memória da minha experiência no Benfica e como me tive que empenhar para tentar exorcizar medos e fantasmas que sopravam sobretudo do norte: o medo vestia e azul. Mas parece que o pérfido poder da memória persiste – e, com ele, o medo regressou.

Tomemos o exemplo flagrante do basquetebol: enquanto o FCP, travestido de ‘Dragon Force” deambulou furtivo e silencioso pelos escalões inferiores, o Benfica fazia o óbvio: ganhava tudo. Com o regresso ao primeiro escalão da poderosa equipa do FCP, eis que entrou numa estranha e comprometedora tremedeira – dá dó. A mesma equipa que tem à sua frente uma excelente pessoa, um competente treinador, ele que foi o mais extraordinário jogador português de todos os tempos e que inclusive roubara a hegemonia ao FCP em pleno Dragão Caixa. O que torna este medo mais estranho ainda. A equipa provavelmente negaria a pés juntos um tal sentimento . Pois é, mas as nossas escolhas acontecem aos diferentes níveis de consciência – e no inconsciente baila, seguramente, ainda a ameaça desse fantasma.

Como parece estar a acontecer com o futebol: com o aproximar do decisivo clássico, ironicamente agendado para o dia das mentiras, multiplicam-se os sinais de medo, sobretudo por parte dos responsáveis do clube da Luz: comunicados, lamentações, pedidos de audiência, birras – tudo indícios de tremura e pânico: e o medo, meus amigos, é o mais lesto demiurgo da desgraça! O clima é de medo e intimidação – e quem intimida, sejamos francos, é porque está lívido de medo. Sim, eventuais actos intimidatórios por parte do clube nortenho são, em si mesmos, prenúncio de insucesso – porque também eles ditados pelo medo. Com tanto medo de parte a parte, o mais provável é que ambos os contendores se vejam tolhidos em seus movimentos – o mais certo é que empatem!

PS: O professor brasileiro, ao apresentar-me disse que era uma honra “receber alguém vindo da AMADA TERRA-MÃE”: simultaneamente comovente e instrutivo – para a mãe a quem se reclama que trate com desvelo os seus filhos e aos responsáveis políticos, porque esta expressão contem férteis motivos de reflexão para o 10 de Junho que, curiosamente, este ano se festejará no Porto e no Brasil. Nem mais.

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile

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