QUINTA-FEIRA, 29-06-2017, ANO 18, N.º 6361
José Neto
Espaço Universidade
«ALTA PRESSÃO» - veneno para os incompetentes e alimento para os audazes (artigo José Neto, 47)
17:32 - 20-03-2017
José Neto
Muito embora em alto rendimento a exigência para demonstrar os valores da competência em qualquer jogo esteja sempre presente, pode no entanto acontecer que a maior pressão para a obtenção dum resultado em confronto competitivo, esteja sempre mais dependente da equipa que necessita de não deixar fugir o adversário em termos classificativos, no caso específico na conquista dum título.

Esse foco de grande espectativa quando não for capaz de ser ultrapassado, pode gerar nos jogadores um presságio devastador pelo risco ou receio em perder, acusando um estado de negligência emocional, sabendo-se, que como tantas vezes tenho repetido, quando o medo de perder supera a vontade de ganhar, perde-se quase sempre, vendo-se abertas as portas dos balneários e dos seus acessos, àqueles que se podem identificar como os prisioneiros da desgraça. Não se pode por isso ignorar a importância e influência que os processos emotivos exercem sobre o comportamento dos jogadores. As emoções adequam-se aos comportamentos. A demonstração do estado consciente está de acordo com o nível dos jogadores e da forma como metodologicamente são orientados, sendo capazes de transformar cada gesto numa arte de bem jogar.

Pelas atitudes verificadas em jogadores movidos duma causalidade onde possa residir falta de confiança, os nervos e a angústia aumenta-lhes o cansaço, pensam que tudo lhes pode sair mal, individualizando em excessivo as técnicas de ação, cometendo faltas sucessivas, discutindo sobre questões para as quais não têm possibilidades de resolução (relvado, público, árbitro, chuva, vento, etc…), deixando-se envolver por um sentimento base negativo e olhando o futuro como um pesadelo provando que a inquietação, o desespero e a derrota tem um efeito mais retumbante.

Para contrariar este estado de sítio, terá que se definir a capacidade de empenhamento dos jogadores para o rendimento desejado, permitindo sonhar com o futuro e admitindo nesta circunstância um sentimento base positivo, porque forte, convencido e motivado, acreditando mais em si próprio fará com que os demais também acreditem nas suas capacidades. Por vezes o ter de ganhar para ultrapassar o adversário pode transferir para o processo emocional um acicate, quando os jogadores não são capazes de dominar este estado de pressão.

No entanto, nem sempre é linear este pensamento de causa determinada a efeito consubstanciado. A capacidade humana para superar adversidades é fenomenal. Há equipas e jogadores que após o relato de fatores adversos renovam um espírito avassalador, transformando a adversidade numa força mobilizadora e aglutinadora onde pode despertar maior empenhamento para a obtenção do sucesso. Associando a estas circunstâncias algumas experiências de êxito conseguido, passa a habitar mais disponibilidade transferir o sonho em realidade.

Contemplando o que de forma repetida procuro inserir nas minhas reflexões, anoto a premente necessidade de remodelação de conteúdos no que corresponde à inserção de metodologias de treino. Sendo assim passo a equacionar algumas dessas referências:

- Restabelecer ou incrementar um compromisso por parte de cada jogador na concretização de objetivos quer em cada treino, quer em cada jogo, construindo para o efeito um quadro de excelência onde possa colocar os seus rankings de sucesso, podendo ser validados como um elemento desafiador de conquista (passos positivos, assistências para remate e golos, desarmes com eficácia, remates e sua qualificação, etc…). Isto é, pelo estudo e regulação dum código de conduta, permitir através do esforço, disciplina e dedicação uma matriz onde se incorpora a dinâmica de sucesso de cada qual. Estaremos assim a ajudar a transferir para o processo de consciência, este enriquecimento dum património justificadamente qualificado e substancialmente enaltecido das funções que são exigidas, quer a cada jogador na sua individualidade, quer à equipa na sua globalidade.

Sabemos que os jogadores mais capazes de obter o sucesso, também são aqueles que melhor conseguem dominar os índices de pressão que se vão acumulando ao longo do jogo. Para isso necessitam de identificar as origens deste estado crítico. Em termos somáticos identificam-se pela transpiração excessiva, garganta seca, forte transpiração, arritmias diversas, etc… Em termos cognitivos, estão mais sujeitos às crises de pensamento (não consigo, sou fraco, tenho receio de me lesionar, etc…, aparecendo na memória uma nuvem de incerteza, provocada pelas histórias negativas dos insucessos nos desempenhos registados). Chamei-lhe num dos artigos em tempos publicado, o veneno da memória. Como consequência de tudo isto, geralmente apresentam uma qualificação técnica de miséria – passes errados, faltas sucessivas, incapacidades flagrantes no teor de finalização, etc…
Podemos construir a partir destas avaliações e reflexões os traços de personalidade dos jogadores que mais resistem e combatem, ou por outro lado “desaparecem” perante os desafios que a pressão do jogo lhes impõe.

- Inserir na dinâmica processual de treino a técnica de visualização criativa dos gestos técnicos que estão inscritos no código do êxito participativo. É fundamental que as imagens de sucesso sejam previamente e insistentemente documentadas, exaltadas e experienciadas associando um trabalho respiratório intenso, visualização em vídeo, sendo mobilizadas as fontes de convicção no desejo de se verem repetidas.

Outra das formas para ajudar a eliminar os estados de pressão, está na aplicação metodológica do trabalho respiratório profundo, associado à técnica de relaxamento muscular progressivo com base nos exercícios de tensão/relaxamento capazes de transmitir paz, serenidade, tranquilidade, que pode ser treinada inicialmente num gabinete, sala ou balneário para depois ser aplicada durante o jogo no momento das suas paragens (assistências médicas, substituições, etc…). Assume-se como um processo modelar que ajuda a libertar a tensão acumulada, podendo um jogador em estado de crise momentânea, ver fortalecido o seu domínio de autoconfiança, manter ou porventura melhorar a capacidade de concentração e autocontrolo e selecionar os melhores níveis de eficácia nas tomadas de decisão.

A propósito da candidatura ao título de campeão e dos recentes resultados obtidos e cujas consequências poderão originar espectativas ou desencanto e sabendo da próxima competição “intra pares” após um tempo de interregno por via das convocatórias para as seleções dos seus países, veremos quem e como foi capaz de melhor se readaptar aos requisitos para a obtenção do sucesso.

O facto da saída do seu “habitat natural” para a inserção de novas metodologias com distintas estruturas técnicas, substituições dos estado de rotina, associando a qualificação (ou não) do êxito obtido no resultado alcançado e porventura a necessidade de adaptação às alterações pelas mudanças de fusos horários, que podem conduzir a situações de dessincronização dos ritmos biológicos, ocasionando mais complexidade no que respeita à capacidade de atenção e decisão, alterações do estado de alerta, perturbações do sono e maior irritabilidade provocada pelo desgaste, será com certeza mais uma medida de reflexão e estudo que importará evidenciar. Cá estaremos para isso…

José Neto – Metodólogo do Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F.- U.E.F.A.; Docente Universitário

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