QUINTA-FEIRA, 29-06-2017, ANO 18, N.º 6361
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
É preciso fazer do Homem o futuro do Homem (artigo de Manuel Sérgio, 186)
18:24 - 18-03-2017
Redação
Começo com um texto de Agostinho da Silva, nas Sete Cartas a um Jovem Filósofo: «Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse: nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos, segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim, não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que, depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu, mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim, porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de não se conformarem”.

Eu também não me conformo em ver determinados clubes desportivos governados, dirigidos, presididos por tanta mediocridade desencantada, que se esforça por esconder a incompetência, através de um palavreado boçal e primário, numa instintiva conivência com a irracionalidade de algumas claques e de certos bandos. Quem os ouve falar, alteando as sobrancelhas, com um discurso como um faiscar de navalhas, inventando um inimigo em cada esquina da vida, logo é tentado a comentar: “Trata-se de uma visão individualista, reacionária, conservadora do Desporto, pois que estas pessoas têm da História uma visão individualista e não estrutural”. E tanto é assim que, no fim dos seus consulados, feitas as contas, foram poucos os êxitos e muitos os inêxitos, foram muitos os sonhos e pouca a realidade. Os clubes não podem voltar ao velho “estamos orgulhosamente sós”, pois que o desporto é um permanente convite à sinergia.

No desporto, antes de formar campeões, interessa formar pessoas autenticamente humanas, porque é com pessoas autenticamente humanas que é possível criar as organizações donde nascem as vitórias inolvidáveis. O que é uma “organização”? Na sociedade do conhecimento, que é a nossa, uma “organização” é um grupo de especialistas que se ocupa, com a honestidade possível, de uma tarefa comum, procurando tornar os conhecimentos produtivos. O especialista é um teórico que sabe ser prático… mas que não dispensa a teoria, porque na dialética prática-teoria a prática surge altamente tributária da consciência, a qual, em todas as circunstâncias, deve ser crítica e reflexiva. Cito de cor a frase célebre de Lenine: “Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”. Um departamento de futebol será tanto mais produtivo quanto mais o habitar um conhecimento atualizado, que merece o apoio e o respeito das demais estruturas clubistas. Na sociedade do conhecimento, o treinador principal deve ser também um gestor do conhecimento, onde há prática, teoria e constante informação. Há muito venho também falando na criação, dentro dos clubes, de um Gabinete de Inteligência Competitiva (GIC). Costumo definir a Inteligência Competitiva (IC), num clube desportivo, como uma estrutura cultural e operacional de recolha e de análise e de tratamento e de encaminhamento da informação, visando a tomada de posições dos treinadores e dos gestores. A IC deve fornecer a informação certa, no momento certo, às pessoas certas, para que, finalmente, se possam tomar as decisões certas. Se desmontarmos os vários departamentos que constituem a organização geral de alguns clubes chegaremos à triste conclusão, que não se dá à informação, à cultura, à especialização um lugar relevante.

Demais, muitos clubes definem-se pelo seu espírito conservador e por demasiados preconceitos historicistas. Para existir, não basta ter história. Todos somos convidados a fazer história. E, hoje, desestabilizando o que, ao longo dos anos se julga intocável, indubitável, indiscutível. O Peter F. Drucker diz-nos que “a organização da sociedade pós-capitalista é desestabilizadora. Porque a sua função é pôr o conhecimento a trabalhar (nas ferramentas, nos processos e produtos, no trabalho, no conhecimento em si) deve ser organizada para a mudança constante. Deve ser organizada para a inovação. E inovação é (…) destruição criadora. Deve ser organizada para o abandono sistemático do estabelecido, do habitual e do confortável (…). Faz parte da natureza do conhecimento que ele se altere rapidamente e que as certezas de hoje se transformem em absurdos amanhã” (Sociedade Pós-Capitalista, Actual Editora, Lisboa, 2003, pp. 69/70). Mas sou tentado a continuar no Peter F. Drucker: “As mudanças que afectam mais profundamente o conhecimento, por norma, não vêm da sua própria área, como exemplifica a imprensa. A indústria farmacêutica está a ser profundamente alterada pelos conhecimentos provenientes da genética e da biologia, disciplinas de que, há quarenta anos atrás, poucas pessoas teriam ouvido falar num laboratório farmacêutico” (p. 70). Portanto, cada um dos clubes desportivos deve preparar-se para integrar, no seu próprio seio, muitas das novidades do conhecimento científico dos nossos dias. Depois, deve criar espaços, dentro de si, de estudo e de investigação. E, por fim, deve habituar-se a inovar. É evidente que tudo isto se torna difícil com dirigentes que depreciam a cultura e não sabem estabelecer uma unidade dialética fundamental entre a prática e a teoria. A prática, para eles, é pura repetição. Aliás, para eles, o desporto não transcende os limites do seu desconhecimento, da sua inércia.

A vida do clubismo desportivo, em Portugal, reporta-nos, muitas vezes, para o trabalho de dirigentes de uma operosidade honestíssima e de uma generosidade exemplar. Alguns deles conheci eu e deixo aqui, de passagem, uma flor à sua memória honrada. Mas, hoje, já não pode entender-se como desestabilização as novidades que o conhecimento nos traz e nos privam de uma continuidade adormecente e repousante. Todo o trabalho, para ser produtivo, deverá organizar-se em equipas de especialistas e, portanto, com pessoas que procuram uma informação constante. De facto, e volto uma vez mais a Peter Drucker, “o conhecimento exige uma aprendizagem contínua, porque está constantemente a mudar” (p. 104). Sendo assim, o especificamente desportivo é ciência, ou melhor, ciência hermenêutico-humana. Mas, porque ciência humana, onde a intencionalidade se concretiza numa tensão de busca em prol do mais humano. O horizonte da nossa reflexão, no Desporto, situa-se no desenvolvimento e aperfeiçoamento do ser humano. Não há desporto, sem situação educativa, porque mais importante que todos os campeonatos e taças deste nosso mundo altamente competitivo é o nascimento de um homem novo, de aguçado espírito crítico e de uma sabedoria de vida, capazes de ajudar ao surgimento de uma sociedade diferente, quero eu dizer: mais justa e mais solidária. Em baixa, média ou alta competição, o Desporto nunca deverá deixar de ser Educação. No meu modesto entender, três paradigmas despontam, no horizonte do Desporto: o paradigma biomédico, de claro acento fisiológico; o paradigma das ciências hermenêutico-humanas; e o da teoria crítica, que dá especial relevo aos valores políticos. Por minha parte, escolho o paradigma das ciências hermenêutico-humanas, julgando que assim, melhor do que noutros lados, o Homem é o futuro do Homem.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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comentários

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HumbGomes
20-03-2017 07:38
Meu querido professor e mestre - não obstante, não gostar que o trate assim, considero-o, como tal, porque é sábio ! - Tão sábio que, face ao serviço público de televisão que (não) temos, nos faculta a terapia adequada para suportarmos o caos e a irracionalidade que o futebol nos oferece...HumbGomes

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