SÁBADO, 29-04-2017, ANO 18, N.º 6300
Espaço Universidade
Jogos que não se podem perder: o futebol ou vence ou é destruído! (artigo de Aníbal Styliano, 14)
22:45 - 13-03-2017
Aníbal Styliano
Não vou repetir a importância do futebol como Esperanto e esperança global, para um desenvolvimento à medida das ancestrais heranças da humanidade.

Há marcas civilizacionais que, sendo destruídas ou totalmente alteradas, vão provocar mudanças radicais, vão impor comportamentos liberais mais “selvagens”, onde unicamente existirá um critério: o poder do dinheiro.

Futebol é muito mais importante do que um fundamentalismo redutor e do que um mero negócio de milhões ao serviço de grandes “investidores”, muitas vezes sem rosto mas sempre deixando uma obra caótica.
O Futebol ou vence o jogo que estamos a viver ou, caso não o consiga, será destruído e substituído por outro jogo, menos genial e menos fantástico, certamente potenciando conflitos e corrupção contínuos, porque sempre ansiosa por mais…

Há vários indícios, uns externos e outros internos, mas todos com finalidades que se completam.

1. Comecemos por analisar, de forma sucinta, o panorama a nível internacional.

Notícias afirmam que as instituições internacionais do futebol (neste caso e com mais pressão, a UEFA) estão sendo sujeitas a ultimatos disfarçados.

Grandes clubes (clubes que dispõem de maiores verbas, particularmente das ligas inglesa, alemã, espanhola e italiana) continuam a “exigir” uma competição independente (tipo organização de clubes e não das entidades que tutelam o futebol) para assegurarem um maior volume de distribuição de verbas.

Esta vontade de crescer certamente será imparável, sem limites…até ao caos.
A UEFA foi cedendo, prometendo maiores volumes de verbas, com proveniência nos direitos desportivos das transmissões para outros mercados mais poderosos.
Terá sido por isso que a UEFA, juntamente com o próximo europeu em 2020, agendou uma nova competição: UEFA NATIONS LEAGUE, cujo play-off final decisivo (Março de 2020) apura também 4 países para esse europeu?
A criação dessa competição, aprovada na UEFA, nunca teve a divulgação e debate merecido junto das Federações nacionais, junto dos clubes que representam, junto da opinião pública… continuamos nos domínios dos unanimismos estranhos.

Só como mera indicação, esse europeu terá uma experiência única: será disputado em 14 cidades europeias envolvendo 14 países?!
A sede será Londres, onde se jogarão as finais e meias-finais… 2020, portanto com Brexit concretizado, será mesmo assim?
Começam-se a definir rankings de países melhor classificados, aos quais se pretendem atribuir mais entradas diretas de clubes nas fases de grupo da Champions e ainda um sistema de distribuição financeiro inovador: prémios de entrada, de desempenho, em função de coeficiente do clube e não do país que representa…

A UEFA criou mesmo uma “nova” estrutura/empresa para enquadrar as competições europeias que passará a contar com dirigentes da UEFA e representantes da ECA (Associação de Clubes Europeus).
Pensar que promessas de maiores verbas irão calar os desejos dos que pretendem a Superliga Europeia, é um engano injustificável…
Eles querem mais e irão querer sempre mais… Até que se diga, frontalmente, NÃO!

Como fica a questão do fair play financeiro?
Essa pretensão sistemática, esse voraz interesse por mais verbas astronómicas, essa dependência de querer cada vez mais, se não forem travados a tempo, podem criar situações destrutivas para o edifício global do futebol… algo sempre esquecido.
As instituições existem para cumprir e fazer cumprir legislação e estatutos.

Se têm medo, se têm interesses estranhos, ou outros injustificados, deixem os cargos e sejam substituídos por quem, além de competente, tem cultura democrática e institucional.
Acima das regras, ninguém.
As leis são para cumprir.

Quem as não respeitar tem de sofrer sanções e/ou exclusões.
Os votos nunca podem ser subvertidos nem as pressões (algumas vezes com notícias de corrupção) podem alterar conceitos civilizacionais.

Podíamos falar da FIFA, da UEFA (até da FPF) e do “modus operandi” que, tal como acontece nas superestruturas desportivas, carece de maior transparência e divulgação.
Saber servir essas entidades é uma referência necessária e indestrutível.

Será possível e conveniente que um presidente de um grande clube italiano, o Inter, acumule funções de presidente do comité olímpico indonésio (além do mais com suspeitas de corrupção)?
Sinais deste género penalizam o futebol.


2. Internamente, também vivemos uma fase que urge resolução rápida e que tem penalizado a imagem e o universo do nosso futebol.

Em grandes títulos, notícias de agressões a árbitros têm ocupado espaços mediáticos de grande audiência.
Só agora? Ou se só souberam agora, aonde têm estado?
Claro que os números atuais, em relação ao ano anterior (números sempre difíceis de pormenorizar, pois uma grande parte não é divulgada) subiram o triplo nas competições seniores do futebol distrital e mais do dobro nas competições do futebol jovem.
Há muitos mais por divulgar (incluindo ameaças, vandalização de viaturas e outras formas de coacção, mas na maioria silenciadas, até com medo de retaliações).
Mesmo assim, 35 casos de agressões a árbitros (nos quais 12 são menores) é um dado muito grave e um sinal das consequências de falta de atenção sistemática para o futebol não profissional.
Alguns pormenores:
Tribunal de Paredes (2014): 7 arguidos condenados por coação e ameaças a um árbitro internacional de futebol.
Tribunal de Oeiras (2017); 1.ª condenação de um jogador (futsal) a pena efetiva de prisão por agressão a árbitro.
Muito pouco perante uma realidade sempre desvalorizada…infelizmente.

São diversos os sintomas que têm sido menosprezados, muitas vezes por protagonismos efémeros de quem não sabe, nem conhece, as realidades do futebol não profissional ou seja, a maior parte do futebol.
Tenho sempre algumas dúvidas quando surgem grandes coincidências: os inúmeros comentadores desconheciam a realidade ou só agora o momento é mais favorável para abordar o tema, em função do que se vive na principal Liga?
Custa-me acreditar em coincidências, mas também não é fácil entender tamanho desconhecimento do que se passa no futebol não profissional e no futebol de formação…

3. Tentemos distribuir as faltas de atenção pelas entidades respetivas:
O Governo
O Estado demite-se sistematicamente, e até permite que existam competições desportivas sem exigência de policiamento (claro que há países que fazem isso, mas há outro tipo de cultura desportiva e não só).
Curiosamente nos cursos de treinadores, o governo estatizou, interveio, mal, muito mal e agora tem graves problemas para resolver, com urgência e competência.
Nesse caso não deu liberdade de opção e ultrapassou a autonomia do movimento associativo, por pouco não destruindo um princípio essencial - a especificidade.
Por outro lado, é normal os governos não conseguirem nomear, para esta área, alguém que conheça e domine bem este universo nas suas diversas valências… de meros comissários políticos está o desporto farto…

A Federação Portuguesa de Futebol
Certamente conhece a fundo a questão, nem pode ser de outra forma.
Contudo, também sabemos que há múltiplas atividades, projetos e prioridades que absorvem o tempo.
Mesmo assim e achando curiosa a preocupação para com a “Universidade do Futebol”, sempre pensamos que a casa se constrói pelos alicerces.
Neste caso, temos dúvidas se alguma presunção para deixar marcas não terá dificultado um pouco uma análise atempada, perante as realidades que subsistem há diversos anos e que se vão mantendo como problemas sem soluções adequadas.
De forma global, os clubes de futebol têm sido pacíficos e pouco exigentes, quando deveriam reivindicar muito mais, pois para apoiar os clubes, que se substituem ao Estado, são enormes as dificuldades e a falta de verbas, bem como a falta de meios necessários…
Apoiar o pagamento da percentagem do policiamento (que deveria ser integralmente coberto pelo Governo) não causaria dano algum à FPF.
Os dirigentes benévolos ainda nem Estatuto específico possuem… Continuam correndo riscos e superando muitas dificuldades, sempre sem um público e nacional reconhecimento.
Outra questão importante é a suspensão de formação dos massagistas/terapeutas de futebol. Participei em vários cursos e constatei a sua enorme importância, bem como tivemos conhecimento de vidas que foram salvas graças ao que se aprendeu nesses cursos.
Confundir futebol profissional com não profissional e de formação, não é só um enorme erro de perspetiva mas antes um mau serviço ao país.
Claro que permitir que os melhores árbitros vão apitar para o Dubai e o Catar, não terá sido a melhor estratégia de defesa do nosso futebol, num momento decisivo do campeonato principal (obrigaram a nomeações que geraram prejuízos, inclusive para o nomeado – descuido evitável).
Por vezes, seria útil ver jogos de jovens arbitrados por internacionais…

As Associações Distritais/Regionais de Futebol
São quem melhor e mais de perto devem conhecer o universo do futebol distrital. Antigamente , eram as Associações que tinham a incumbência de organizar as competições.
Há vários anos essa responsabilidade passou para os clubes, que ainda têm de pagar uma taxa às Associações.
De qualquer forma, as Associações devem sempre procurar prevenir, antecipar, pois conhecem o que se passa nos jogos e na vida difícil dos clubes…
Por outro lado, terão sempre de representar um “porto seguro” e de apoio as vítimas nos jogos de futebol, bem como oferecer as melhores condições de segurança (e não só) e apoios aos árbitros, pois é aí que também nascem os talentos da arbitragem.
E sem apoio, correndo muitos riscos, superando cada vez mais dificuldades, “perdendo dinheiro”, abandonam triste mas naturalmente.
Mais apoio aos árbitros deveria ser um dos principais objetivos (e nós sabemos que nem sempre é assim).
Depois, também os diversos agentes desportivos têm a sua importância para defender e melhorar o futebol.

Os clubes
Obrigatoriamente, devem definir grupos de receção e acompanhamento aos árbitros e à equipa adversária.
Esses elementos de recepção só devem concluir funções quando todos se tiverem retirado, após o jogo, para os seus destinos de origem.
Em relação aos árbitros, devem prestar apoio solicitado, bem como acompanhá-los até ao momento em que todos considerem estarem garantidas as necessárias condições de segurança.
Estes representantes dos clubes devem, graças à colaboração das Associações Distritais, fazer reuniões periódicas para analisarem situações específicas e encontrarem as melhores opções.
Com reuniões deste género e com a coordenação de um elemento da direção das Associações, poder-se-iam evitar muitos problemas. De realização acessível, reforça a relação entre clubes e cria laços de amizade que nas situações mais complexas, são um fator imprescindível para encontrar o melhor equilíbrio e sensatez.

Os Treinadores
São sempre muito importantes e podem mudar comportamentos.
Isso pressupõe formação adequada e constante acompanhamento.
Treinar jovens ainda acrescenta maiores exigências pedagógicas, sociais e desportivas…
Caso contrário, são unicamente técnicos mas nunca treinadores.
Até na reunião inicial com os pais dos jovens jogadores, se pode definir um conjunto de regras/atitudes bem como consequências para quem não cumprir. Essas reuniões podem ser um dos principais elementos para que o futebol alcance bons alicerces partilhados e com compromissos pelas famílias.

Os adeptos
Para além da motivação para que a sua equipa vença, têm de conhecer a lei, as regras, formas de convivência social, sem fanatismos.
Os clubes são o elo mais próximo e mais eficaz elencando as vantagens, bem como as consequências.
Colóquios/ações de formação, por iniciativa dos clubes mas também por dever das Associações Distritais, dão sempre resultados favoráveis.
Nos escalões mais jovens, foi divulgado na imprensa que há associações que determinam a passagem de fase pelo cartão branco, pela classificação do fair play.
Para nós, a competição não se pode desmembrar em partes soltas – “O todo é maior do que a simples soma das suas partes.” disse Aristóles há milhares de anos atrás.
Há um conjunto integrado cujo valor reside nisso mesmo.
Assim, quando ajudamos a criar o “Torneio Interseleções concelhias” (com apoios que nunca poderemos esquecer) além do resultado desportivo, os árbitros avaliavam o fair play de cada equipa, preenchendo um boletim específico, onde constavam critérios bem precisos.
Assim se valorizava o “todo”.

Nomeações dos árbitros
Seja para que jogo for, as nomeações têm de ter critério adequado para preservar o árbitro, prepará-lo para melhorar e se motivar, bem como um eficaz acompanhamento permanente.
Importante é sentir-se seguro no jogo, no seu final e no percurso para regressar a casa.. Preparar com competência evita autoritarismos desproporcionados.
O árbitro tem de ter noção da importância do seu desempenho e estar preparado para gerir a comunicação tranquilamente, dominar situações de stresse com tranquilidade e coerência.
Um jogo de jovens é também um espaço de crescimento para um futuro que se deseja melhor, seja como praticante, seja como adepto e membro da sociedade.
A Pedagogia (elemento desvalorizado nos atuais cursos de treinadores que terão de ser reformulados) é fundamental, para equilibrar e contextualizar emoções, compreendê-las e criar competências para agir da melhor forma, para um ambiente pacífico, natural e desportivo.


Os pais
A questão dos pais é cada vez mais difícil: nos cursos de treinadores anteriores a 2012, além de áreas como especificidades pedagógicas do treino com jovens, formação e especialização, lecionei também sessões para enquadrar reuniões com pais e dirigentes.
Divulgação de regras, técnicas de comunicação e gestão de grupos, obtenção de compromissos, definição de objetivos, sempre procurando envolver os pais/famílias em tarefas do jogo/treino – observações focadas, apoios logísticos, atitudes do grupo “família”, comportamentos de segurança, registos do jogo.
Se tiverem tarefas definidas que compreendam como importantes para o grupo, a focalização é positiva e exemplar.
Com valores, regras aceites e partilhadas, cada um sabe como se deve comportar.

comentários

1
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kgb3
14-03-2017 09:04
Muita conversa! O Futebol é um entretenimento global ao serviço da globalizaçao ! Tal como a musica ! As musicas regionais e culturais morreram e nasceram as musicas globais , como shakira , Beonce entre outras ! O Futebol é um instrumento politico. Guarde seus livros DR !

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