QUINTA-FEIRA, 29-06-2017, ANO 18, N.º 6361
Olimpismo
A Derrota do Olimpismo (artigo de Gustavo Pires, 56)
00:07 - 28-02-2017
O recentemente eleito presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), numa eleição olimpicamente contranatura em que, enquanto candidato único, competiu contra si próprio que é a maneira menos olímpica de competir, utilizando um critério de avaliação diametralmente oposto ao que utilizou para si próprio, afirmou que “os atletas portugueses continuam a ser muito queixinhas”.

Na Grécia antiga, a palavra “stasis”, tal como outras, podia designar várias coisas tal como perturbação, movimento, revolta ou guerra civil. A guerra era uma realidade endémica sempre presente. Os gregos aceitavam-na como uma consequência natural da vida tal como eram o nascer-se ou morrer-se. Assim, “stasis” significava a disputa do equilíbrio entre a guerra e a paz na medida em que o objetivo de todos os homens de honra era o de serem os primeiros e superiores aos outros, através da demonstração de diversas competências competitivas tais como a luta, a capacidade oratória, a sabedoria, o autocontrolo, a lealdade, a coragem e a bravura que tinham origem nas virtudes e capacidades militares. Nesta perspetiva, como refere Carl Schmitt, a palavra “stasis” estava envolta numa contradição com “tensa dialética” que significava a procura de uma situação eurítmica de “estabilidade dinâmica” pela permanente competição, por oposição a uma situação de “estabilidade podre” pela anulação da vontade dialética com a consequente subordinação de todas as vontades a uma única vontade que, nas palavras de Nietzsche, significava o “instinto de rebanho”.
Vivemos num mundo de oposições constantes. Entre: a natureza e a cultura; o conhecimento e a ignorância; a memória e o esquecimento; o amargo e o doce; a simpatia e antipatia; o pensamento e a ação; o amor e ódio; ou, entre outros, a luz e as trevas. Todas estas oposições estão juntas e ligados entre si, como dois lutadores, dos quais ora um ora outro está em vantagem. O mel, segundo Heraclito, é, ao mesmo tempo, amargo e doce e o próprio mundo do desporto (acrescentamos nós) é uma caldeira cuja mistura tem de ser constantemente remexida a menos que se deseje transformar o Sistema Desportivo num autêntico rebanho. Quer dizer, a existência humana é feita de antinomias. Como Heraclito dizia há cerca de 2500 anos na natureza: Nada há de permanente a não ser o conflito e a mudança; Nada pode ser pensado sem o seu contrário; A origem de todo o dinamismo assenta na luta entre opostos; A realidade do devir passa pela constante mobilidade das coisas; Os opostos devem manter-se num estado de alternância cíclica e de equilíbrio global.

E porque vivemos num mundo de contradições permanente, em que sem uma competição justa, leal e nobre não existe nem evolução nem progresso, Pierre de Coubertin idealizou o Movimento Olímpico moderno com uma postura ideológica que tinha em consideração que o desenvolvimento decorria da luta dos opostos. Quer dizer que as qualidades estáticas que parecem duradouras exprimem, tão só, a preponderância momentânea de um dos lados da dialética. Contudo, a luta nunca chega ao fim por mais que a desejem anular e introduzir a paz podre da “mentalidade de rebanho”.
Mas se “stasis” significava a luta necessária pelo equilíbrio competitivo, devido à luxúria e soberba dos homens, como referiu Tucídides n’ “A Guerra do Peleponeso”, também podia ser a causa de todas as fraquezas do Homem pela simples razão de que, na luta competitiva, os vencedores, enquanto homens que eram, muitas vezes, deixavam-se tomar pela arrogância e a presunção do mal de “hybris” como decorre do discurso dos atenienses aos habitantes da ilha de Melos: “… sabeis, tão bem como nós, que o direito, nos tempos que correm, é apenas uma questão aplicável aos que se igualam em poderio, enquanto o forte faz o que quer o fraco sofre o que deve”.
O triunfo competitivo desencadeia no comportamento humano um desequilíbrio que, necessariamente, obriga à procura de um novo equilíbrio a menos que o vencedor caia numa situação a que os gregos antigos chamavam de “mal de hybris”. Esta preocupação expressou-a Coubertin em 1890 na qualidade de Secretário-geral da USFSA, relativamente à realização dos Jogos Escolares quando disse: “as competições escolares não devem ser realizadas à porta fechada; os camaradas dos concorrentes, os seus amigos, seus professores, são os convidados adequados. Em circunstâncias solenes é bom ir mais longe. O Sr. Presidente da República participou dos campeonatos deste ano. A distribuição dos prémios foi realizada com algum brilho. Foi ouvida música militar. A reunião foi grande sem deixar de ser íntima. Cada ano vamos fazer o mesmo, mas não vamos fazer mais nada. A multidão agitada barulhenta jamais vos aclamará senão contra nossa vontade, meus amigos, nunca concordaremos em transformar os campeonatos em espetáculos públicos. Tal seria prestar-vos um mau serviço. A preocupação da parte teatral do festival violaria as exigências do desporto; o objetivo real seria perdido de vista e os vencedores acreditariam ser semideuses”. Quer dizer, Coubertin não queria ver os atletas transformados em semideuses mas também não lhes chamava “queixinhas”. O objetivo de Coubertin era, entre os atletas e os espetadores, suscitar uma sensação estética de harmonia competitiva que ele denominava de “ideal de euritmia” que, no que diz respeito aos eventos desportivos, definia como: “…a combinação harmoniosa das linhas, dos sons e das proporções. O justo equilíbrio das faculdades a fim de formar uma combinação eurítmica”. A este respeito, no discurso proferido no 1º Congresso Olímpico já avisara que: “na antiguidade (…), à força de contemplarem os espetáculos olímpicos, perderam de vista o seu valor verdadeiro; o grande ideal prosseguido foi-se e o atleta degenerou num gladiador miserável cujo heroísmo é pago para satisfazer a mais vil e a mais bestial das paixões populares, a paixão do sangue”.
Temo que os nossos dirigentes, alguns deles sem darem por isso, se estejam a transformar em autênticos lanistas do desporto, quer dizer, em promotores de um espetáculo desportivo que não admite atletas “queixinhas” na medida em que eles devem estar conscientes de que devem “morrer na arena” para honra e glória dos próprios dirigentes que, em demasiadas situações, o são sem a honra de passarem pelo crivo de uma simples competição eleitoral justa, nobre e leal. Nestas circunstâncias, direi que estamos perante dirigentes desportivos que agem contra a cultura olímpica e promovem a “moral de rebanho”. Porque, ao fugirem do confronto de ideias inerente aos processos eleitorais, no conforto dos lugares que ocupam, entendem que podem fazer o que querem, enquanto os atletas, no calor da competição desportiva, são obrigados a sofrer o que devem.
No Movimento Olímpico, a vitória de uma lista única numas eleições sem contraditório significa, tão só, a derrota do Olimpismo.
Redação

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