QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
Espaço Universidade
Contas de sumir (artigo de José Antunes de Sousa, 72)
23:45 - 17-02-2017
José Antunes de Sousa
Venho hoje propor que façamos um pequeno exercício de denúncia, de desmantelamento, de desconstrução – enfim, de sadia e atrevida iconoclastia.

Todos sabemos como ganhou o Benfica ao Borússia na terça-feira passada no estádio da Luz – lugar dado ao milagre!
Ganhou, é um facto, mas ninguém acha que seja efectiva e definitiva essa vitória. Diria mesmo que poucos, muito poucos, para o caso de que haja alguém, acreditam que, no final da disputa – que é isso que interessa – a vitória caia para o lado dos aquilinos (e inquilinos!) da Luz.

Sim, trata-se de um resultado, além de tangencial, rigorosamente parcial: estamos a meio de uma partida de, pelo menos, 180 minutos.
Mas há mais: o problema da vitória épica, quase miraculosa, do Benfica é que ela surgiu tão desalinhada com o teor da relação competitiva entre as duas equipas no terreno de jogo que, para sermos sinceros temos que reconhecer que ela se caracteriza pela surpresa, pela excepção, não colhendo no ânimo dos benfiquistas visíveis e sensíveis sinais de auspício e esperança num sucesso final.
Mas o que é admirável é que toda esta bruma crepuscular acontece em compasso e perfeita sintonia com o que foi tecido e criado nos luzidios gabinetes dos responsáveis: eles são exímios na nubelosa arte do menos – mesmo quando apontam para o mais é com o menos que dão toda a impressão de se contentarem.
De facto, tecem hinos de louvor por uma mais que residual hipótese de a equipa poder atingir os quartos-de-final da Champions League, mas já abundam descaradamente em ditirâmbico discurso (de argentário festejo) por se ter chegado aos oitavos: implicitamente celebram a excepcionalidade épica da vitória tangencial sobre o Borússia como o limite extremo do possível e o real limiar do impossível.
Convenhamos: o seu mais é sempre um menos oficial – porque, mesmo atingindo imprevistamente os quartos, isso será sempre um menos, pois ninguém por aí recordará esse cinzento feito, apenas registado no baú das curiosidades arqueológicas e na folha excel das estatísticas da UEFA.
Ora, esta mentalidade conformista e minimalista empresta total segurança a uma óbvia previsão: assim, o Benfica não voltará a ser campeão europeu – enquanto o máximo dos seus actuais responsáveis continuar a ser o mínimo dos outros grandes da Europa. E, neste flatulento regurgitar da mediocridade, o Benfica continuará neste estado de um auto-comprazimento, mergulhado na letargia de um engodo, insidiosamente neurótico, de uma grandeza passada e vagamente romântica. Parece até que já se sentem amplamente compensados com o duvidoso gozo de poder espreitar pelo buraco da fechadura a tradicional festança do senhor vizinho.
Reconheçamo-lo: é complexo de congénita e pegajosa pequenez medir a grandeza dos próprios feitos não pelas vitórias, mas pelas derrotas alegada e artificiosamente honrosas: perder por poucos com os grandes – eis a bitola anémica da nossa idílica e fugidia grandeza!
Mas voltemos ao jogo Benfica – Borússia, que vai ter agora uma segunda parte Borússia – Benfica: resultado épico, sem dúvida – mas previsto.
Rui Vitória não fez segredo da receita para o aguardado feito: resistir estoicamente ao assédio do colosso germânico (resistir: a presunção de que se é mais fraco), não sofrer golos e, numa transição rápida ou num lance de bola parada, tentar marcar. Perfeito! Na arte de criar o menos: sempre no fio da navalha, no limiar do precipício.
Ora, como, por vício cultural, estamos mais calhados para acolher o menos do que o mais (“quando a esmola é grande santo desconfia!”), a mente humana é mais diligente e literal em satisfazer as nossas expectativas mínimas – já as máximas é bem mais preguiçosa e relapsa. Porquê? Exactamente por isso: estamos mais treinados nas outras, nas baixas.
E quais as expectativas para o segundo jogo?
Eis a receita do Vitória (mas dificilmente da vitória): aguentar o zero a zero e, na sorte de uma bola parada ou de um eventual contra-ataque, procurar surpreender.
Qual a realidade implicitamente procurada? O ZERO!
Mas só há vitórias com golos – eis o que deve concitar o foco intencional de uma equipa que almeja o sucesso. Defender sim, claro, mas essa defesa só enquanto elemento catalisador da ofensiva vitoriosa.
Sem titubeios: as equipas defensivas chegam às finais, as equipas ofensivas ganham-nas!
De facto, acalentar o menos e esperar o mais constitui insanável contradição, doloroso equívoco;
A maldição de Bella Gutmann só tem força porque lha continuam a dar os responsáveis através de uma atitude tímida e minimalista.
Enquanto persistir a retórica frívola de uma grandeza doméstica e acanhada as portas da glória europeia manter-se-ão fechadas.
Foi, aliás, essa atitude contracta (e contrita) e acomodada a uma grandeza minúscula do jardim ibérico que o próprio Gutmann quebrou com seu ousado gesto de acreditar sem cálculo: sem contas de sumir! E sem medo do poderio do Barça ou do Real – os vizinhos que agora tanto medo metem!
Porque onde mora a conta e o cálculo não cabe o sonho – e só o sonho realiza o impossível!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile

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