SÁBADO, 25-03-2017, ANO 18, N.º 6265
Joana Reis
Espaço Universidade
Será que se vai correr a maratona em menos de 2 horas? (artigo de Joana Reis)
16:18 - 17-02-2017
Joana Reis
A procura de ultrapassar barreiras e limites sempre guiou o ser humano. Ao longo da história sempre houve marcas e recordes emblemáticos que inevitavelmente começaram por parecer inatingíveis: correr 100 metros em menos de 10 segundos, nadar 100 metros em menos de 1 min, ultrapassar os 6 metros no salto com vara, etc. Na maratona masculina, a próxima barreira emblemática (a história prova-nos que haverão mais no futuro) são as duas horas. Se o leitor for corajoso convido-o a colocar a passadeira do ginásio a 21 km/h com inclinação a 1.5 % (que mimetiza as condições de corrida em estrada) e tente manter-se o máximo de tempo possível. Se suportar mais de 1 minuto, decerto estará em ótima condição física, imagine fazê-lo durante 2 horas….

O atual detentor da melhor marca mundial é o queniano Daniel Kimetto que realizou 2h02m57s na maratona de Berlim de 2014. Para o objetivo ser atingido o recorde do mundo teria de sofrer uma melhoria de 1,7%. Contextualizando, na evolução recente do recorde do mundo, verificamos que uma melhoria desta dimensão demorou 12 anos a acontecer…
No final do ano passado, Nike anunciou a intenção de colocar um homem a realizar a maratona em menos de 2 horas na próxima Primavera. A empresa americana de equipamentos desportivos reuniu uma task force multidisciplinar que vai realizar uma exaustiva avaliação fisiológica, biomecânica, nutricional e psicológica de alguns dos melhores corredores mundiais da atualidade despistando parâmetros a melhorar. Simultaneamente, vai tentar prever as condições do percurso, da corrida e do material que teria de ser utilizado para permitir que o objetivo fosse alcançado.

Mas afinal que características tem de ter um atleta para correr a maratona a esta velocidade? Os investigadores apontam para a combinação de 3 parâmetros decisivos para o desempenho neste tipo de provas. 1) Consumo máximo de oxigénio (VO2max) acima do 80 ml em cada minuto, por kilograma de peso corporal (para comparação um indivíduo ativo de 30 anos terá aproximadamente 45 e uma pessoa indicada para transplante cardíaco menos de 10), ou seja, excelente potência na produção aeróbia de energia; 2) a capacidade de sustentar esforços muito próximos do máximo durante longos períodos de tempo (manter 80 % do VO2max sem instalação de fadiga) e 3) ter uma elevada economia de corrida, ou seja, gastar menos energia por distância percorrida (consumindo menos de 180 ml/kg por Km). Metaforicamente teríamos de guiar um “Ferrari”, com grande velocidade de ponta, ir de Lisboa ao Porto quase “prego a fundo” e mesmo assim gastar 4 litros aos 100 na viagem. O grande desafio será desenvolver um atleta que apresente estas 3 características em simultâneo no dia da competição, mesmo que seja num percurso escolhido a dedo para o efeito e aproveitando as vantagens de correr em grupo.

A Nike parece estar a tentar otimizar o 3.º parâmetro através de calçado que melhore a economia de corrida, ou seja, que minimize o gasto energético em cada passada, revelando a ligação comercial e de marketing por trás do projeto. Provavelmente a tentativa será realizada fora do circuito oficial de maratonas, decorrendo num percurso (ainda não divulgado) que deverá ter um desnível superior ao permitido para poder ser considerado a melhor marca oficial da distância. No entanto, não deixa de ser um ótimo exemplo de associação de desenvolvimento tecnológico à promoção empresarial e ao desempenho humano. Manobra de publicidade para a marca? Decerto, mas também uma forma de tornar a procura dos limites humanos “mainstream” e se despertar a atenção e vontade de correr de alguns sedentários, já valeu a pena...

Joana Reis é Professora Auxiliar do Departamento de Desporto da Universidade Europeia

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