QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Aníbal Styliano
Espaço Universidade
O futebol como exemplo de liberdade (artigo de Aníbal Styliano, 10)
16:39 - 28-01-2017
Aníbal Styliano
Falamos do jogo de futebol que conhecemos. Não das sucessivas tentativas que pretendem mudar-lhe a matriz (esperemos que nunca consigam). Os clubes, base de sustentação do jogo nas suas múltiplas faces, mesmo com divergências naturais, devem valorizar o jogo, assumir responsabilidades, aperfeiçoar-se, de forma contínua, em função das suas possibilidades. No essencial fazem isso.

No estádio, os jogadores têm as mesmas condições e os adeptos a mesma representação. Ninguém é mais do que ninguém. Claro que a competição envolve paixão e, naturalmente, a emoção dos adeptos e dirigentes potenciam diferenças, entendimentos, ansiedades, que desfocam as realidades… O que é natural e pouco duradouro: nos dias seguintes a prioridade é o próximo jogo e a imprevisibilidade do resultado.

O espírito desportivo, da grande maioria, passado o momento de exaltação, cede lugar à razão, à análise e (a não ser em casos muito específicos e felizmente raros) o regresso a uma visão mais nítida (mesmo não sendo a mais agradável) acaba por se tornar factual. Hoje não vou repetir a fantástica capacidade de integração e cooperação que o futebol promove a nível global…

Vou simplesmente indicar algumas contradições que são sinais, cada vez mais frequentes, de ataques ao futebol, pelo menos ao futebol que defendemos porque gostamos muito. Como pano de fundo, convém não esquecer que há quem continua a pretender conseguir como objetivo final a criação da Superliga europeia (tipo NBA) por interesses exclusivamente económicos, misturando “alhos com bugalhos”. Muitas vezes sobre esses lóbis surgem suspeitas de corrupção, o que não pode ser encarado como natural, mas como crime e grave crime a merecer penalização adequada.

Com instituições credenciadas e rigorosas, sem protagonismos oportunistas, o futebol tem de ser defendido, salvaguardado, para continuar a evoluir como destino da humanidade: criando espaços para genialidade, criatividade, talento, descoberta, investigação, sonho e muito trabalho ao serviço de uma equipa, perante uma bola que sempre se pretende manter indomável e inesperada! O futebol nacional, com parcos recursos, consegue formar os melhores jogadores e treinadores do mundo – um caso de produtividade. Assim, não é de estranhar a constante procura de que são alvo.

Alguns exemplos atuais para reflexão:

1. Taça da Liga, Taça CTT

Com uma fórmula nova, foi pensada pela LPFP para ser, em primeiro lugar, uma forma de prestígio e de excelente negócio (houve treinadores que afirmaram que o sorteio favorecia os “grandes”). Neste caso, a bola e o futebol tiveram a última palavra e como resultado (totalmente inesperado) duas equipas do Minho (Braga e Moreirense) vão disputar a final, com o mérito alcançado no campo, num estádio do Algarve, a cerca de 500Km de “casa”, provavelmente contrariando as expectativas da organização. Duas equipas “vizinhas”, com ambições e capacidades diversas, lutarão pelo mesmo resultado. Futebol: um exemplo de liberdade. Que essa final seja um magnífico jogo e, independentemente de quem vencer, que mereçam parabéns pelas respetivas prestações. Pensar futebol é imprescindível mas em função do seu contexto integral.

2. Vídeo-árbitro

Experiências sucessivas estão a ser feitas em Portugal. Alguns especialistas e antigos árbitros afirmam que se trata de “procedimento não legal”, pois envolvem árbitros e ex-árbitros ainda em funções na área (mesmo tratando-se de processo sem ligação direta ao árbitro do jogo). Sem manifestar os fundamentos que me afastam da concordância com essa medida, tenho a impressão que, no imediato, este empenhamento total terá mais a ver com a possibilidade de libertar os árbitros e seus assistentes do centro dos protestos como resultado das falhas cometidas, procurando passar a responsabilidade ou as “culpas” para uma entidade virtual – o vídeo e/ou os computadores.

Numa das meias-finais da Taça da Liga, houve quem levantasse dúvidas num golo que nem os diversos suportes tecnológicos conseguiram esclarecer definitivamente! Portanto, o vídeo-árbitro, neste caso concreto, já “poderia funcionar” como uma fuga à contestação, desviando eventuais responsabilidades… para ninguém. Não se estará perante uma “usurpação” de funções do Presidente da Liga perante o Presidente do Conselho de Arbitragem da FPF? Curiosamente, a sugestão vinda de um elevado quadro da FIFA, para acabar com o fora-de-jogo, também poderá servir esse objetivo, o que não deixa de ser uma enorme coincidência…

3. Fair play

Quando se vence, é mais fácil surgirem exemplos positivos. Nas derrotas, nem sempre se confirma a coerência e surgem contradições que, em alguns casos, não seriam de esperar. Mas as emoções são terríveis: por isso, antes de “atirar a pedra”, pensar bem, pois o silêncio e a não culpabilização dos outros, são sempre a atitude mais inteligente. Há quem defenda alguns princípios que se têm desvalorizado mas que continuam essenciais: Respeito e Ética. Felizmente, o futebol continua a ser um jogo democrático e livre.

No campo, independentemente da “dimensão financeira” atribuída a cada jogador, ou da sua projeção mediática, há sempre quem consegue subverter as expectativas iniciais, pois o factor humano é o mais importante de tudo. E um jogo de futebol é “simplesmente” um momento de confronto entre pessoas que num espaço definido e com regras determinadas, em função de escolhas, de métodos e de estratégias, disputando a posse de uma bola irreverente, conquistam a eternidade no final do tempo de jogo, procurando sempre e até ao último momento alcançar uma vitória.

Por isso, pelos exemplos fantásticos que nos oferece, há sempre quem o pretenda dominar para outros fins menos artísticos mas unicamente mais rentáveis, nem se importando de o diminuir, de o destruir, de o mudar completamente. Os que gostam do jogo mágico continuam a levantar a voz, sem tibiezas, com determinação e superando divergências que acabam por servir de elemento de união. Nunca abandonam o jogo ao qual dão o seu máximo contributo possível, pois é também um universo de amizade e de solidariedade.

Os outros, segundo notícias da imprensa, preocupam-se com jogos de “apostas desportivas” nem sempre muito transparentes, com campeonatos mundiais com menor competitividade mas maiores rendimentos, com outros interesses (venda de bilhetes e não só) e jogos de poder… Na primeira contrariedade fogem, são convidados a fugir ou mesmo são presos. Para além da sedução que um jogo de futebol nos pode proporcionar é a sua herança ancestral de exemplo de liberdade que nos provoca singular encantamento.

Num momento de grande instabilidade e insegurança que o nosso mundo atravessa, há sinais e patrimónios que são alicerces seguros para reedificar o progresso e o desenvolvimento. Todos os agentes desportivos que intervêm no futebol devem compreender a sua importância como facilitador de diálogos e de consensos. Uma jogada genial, um drible inigualável, um golo “impossível”, um voo inesquecível de um guarda-redes, são memórias que acrescentam ao tempo mais-valias afetivas pois crescem de geração em geração, sem risco de inflação. Assim se renova e evolui com base num conhecimento estável e sustentável. O Futebol continua (enquanto o soubermos preservar dos ataques, apetites e modas que sempre surgem) como um excelente exemplo de liberdade.

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.

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