SEGUNDA-FEIRA, 27-03-2017, ANO 18, N.º 6267
Espaço Universidade
Futebol traído? (artigo de Aníbal Styliano, 9)
13:25 - 21-01-2017
Aníbal Styliano
O futebol cria ídolos, heróis, mitos e “deuses”.
Uns são efémeros, outros perpetuam-se numa fusão perfeita com o tempo.
Como desporto tem a sua memória, a sua história, o seu património genético.
Ao longo dos tempos, foi-se construindo, emancipando, evoluindo num constante desafio, sempre sem perder a matriz, os referenciais que lhe dão sentido e que o tornam a única linguagem comum planetária.
Ganhou independência, tornou-se o maior fenómeno global, mantendo a sua especificidade sem perder heranças ancestrais na sua base, no seu quotidiano, numa cúmplice e intensa relação entre: memória – presente – possibilidades de futuro.
Quando se perde a memória, perde-se o rumo, perdem-se importantes parcelas da vida, experiências e aprendizagens indispensáveis para a sustentabilidade, encurtando assim o caminho para potencial caos.
O futebol estruturou-se em termos de hierarquias, de regras e de funções, de forma local e global, muito antes de se falar de globalização (FIFA: 209 Federações; ONU: 193 países).
Jogo de emoções e de paixões, envolvendo diretamente um enorme número de pessoas (jogadores, treinadores, dirigentes, árbitros, médicos, terapeutas e massagistas, intermediários, técnico de instalações, de equipamentos e muitos mais) e uma enorme quantidade de outros que também interferem com o futebol e que o ligam à investigação, ao ensino, às estruturas do poder político, ao marketing, aos patrocínios e ao negócio.
O futebol é, portanto, um mundo dentro do universo.
Desde cedo, evidenciou características que permitem uma crescente progressão e potencialidades de concretização de valores humanos essenciais: solidariedade, vontade de superação, tolerância e integração, reconhecimento justo da competência.
Muitos exemplos da história da humanidade o comprovam.
Claro que, por vezes, surgem distorções, desvios vindos de fora e que se mediatizam em função de uma “colagem forçada” (para servir fins pouco dignos) de grupos com interesses definidos e alheios ao futebol (mesmo que pretendam dar a ilusão de proximidade que nunca é real mas antes estratégia para esconder os verdadeiros objetivos).
Ao longo dos tempos, muitas imagens perduram, muitos títulos e troféus se contemplam, mas são as equipas e os ídolos que, endeusados pelos feitos que conseguiram “oferecer” ao jogo, marcam épocas e são referências que vencem o tempo.
Alguns mantêm-se atuais pelos contributos com que enriqueceram o jogo, outros perderam-se em “tentações” que contariam a sua marca de genialidade como jogadores e que marcam pela negativa o que passaram a fazer contra o futebol.
Sinais dos tempos? Penso que não, provavelmente egoísmos, ambições desmedidas e muitos esquecimentos.
Todos os “deuses da bola” atingiram a dimensão universal graças ao jogo e à memória dos adeptos e da comunicação social.
No campo, jogavam de forma brilhante, fantástica, com a simplicidade de beleza única, com elegância, sempre com a arte de encantar.
Pelé, Garrincha, Eusébio, Yashin, Maradona, Johan Cruyff, Beckenbauer, Platini, Ronaldo, Messi, Cristiano Ronaldo, entre muitos outros de uma lista infindável, são intemporais…
No campo atingiram o “paraíso”, mesmo que nas suas vidas alguns tenham encontrado um universo conturbado.
Mesmo assim, são muitos os que continuam a “dar a cara” pelo futebol de excelência, o tal que maravilha e perdura nas mentes de cada um, independentemente da cor da pele, da religião, do local onde vivem. Merecem a nossa admiração.
Contudo, há alguns que nos últimos anos não têm devolvido ao futebol o que ele lhes possibilitou, antes pelo contrário.
Deixando-se contaminar por ventos perversos (nos últimos anos com enorme e péssima influência de Blatter) passaram a usar o jogo não para o engrandecer mas para se engrandecerem (Platini e mais alguns são triste exemplo).
Ontem, surgiu na comunicação social uma notícia que deixa preocupados todos os que gostam de futebol: “Marco van Basten apresentou dez medidas para melhorar o jogo e torná-lo mais honesto”.
Marco van Basten, excepcional jogador holandês, foi um avançado dos melhores do futebol e autor de golos “impossíveis”, portanto um ídolo que todos apreciam.
Agora, exerce funções de diretor técnico (ou de desenvolvimento, segundo outras fontes) da FIFA.
Todos gostávamos de conhecer os critérios pelos quais ocupa esse cargo bem como se houve definição de perfil, convite ou outro qualquer processo.
Mas o que mais preocupa é o facto desse atual diretor técnico da FIFA apresentar dez medidas para revolucionar o futebol com argumentos do género “Tenho muita curiosidade sobre o que seria o futebol sem fora-de-jogo” (uma das medidas que sugere).
Com este cargo, divulgar numa entrevista as “10 medidas que podem vir a revolucionar o futebol”, no mínimo parece ligeireza e no máximo falta grave de memória sobre o jogo que o promoveu.
Para além de esquecer a especificidade do jogo (as raízes) sugere adaptações que são próprias do andebol, do basquetebol, do râguebi e até do hóquei em patins.
Como cidadão tem direito a expressar a sua livre opinião.
Nas funções que exerce perdeu uma boa oportunidade para identificar os principais problemas que afetam o desenvolvimento do futebol e de enviar as sugestões sobre alterações para o local apropriado: International Football Association Board (IFAB) que é o órgão que regulamenta as regras do futebol.
As suas ideias englobam: “Abolição do fora-de-jogo; suspensões temporárias para substituir o cartão amarelo que desaparece; um shot-out (corrida de 25 metros até á baliza adversária com oito segundos para finalizar) para substituir as grandes penalidades para desempatar jogos; paragem do relógio nos últimos dez minutos, nos tempos mortos, para se combater o antijogo; só o capitão deve falar com o árbitro; limitação do número de faltas e exclusão do jogador que atingir esse limite; diminuição do número de jogos por época, a cerca de 50; aumentar o número de substituições nos prolongamentos; substituição de jogadores sem paragem do jogo; no futebol profissional manter o 11 x 11 mas nas camadas jovens e para maiores de 45 anos utilizar-se o 8 x 8 em campo reduzido”.
Revela desconhecimento da progressão faseada que se utiliza, em diversas latitudes, para os escalões jovens e muitas confusões.
Não se nega a possibilidade de evolução sempre necessária.
De facto, houve alterações que trouxeram influência positiva ao jogo, como é o caso da proibição do guarda-redes agarrar uma bola vinda diretamente de um passe com o pé ou de um lançamento de linha lateral de um colega de equipa.
Também o sistema de comunicação entre os árbitros se revelou bastante positivo, hoje indispensável.
Mas daí a lançar para o ar ideias, sugestões, por apetite ou “curiosidade” pessoal, especialmente quando se exercem funções de grande responsabilidade na FIFA, não devia acontecer, se verdadeiramente se pretende defender a estabilidade do próprio jogo.
Esta confusão em apresentar publicamente o que cada alto dirigente pensa ou gostava que fosse experimentado para satisfazer a própria curiosidade para o que possa acontecer no futebol (particularmente das instituições que dele deviam cuidar muito bem) começou a ter maior “roda livre” após o desempenho do antigo presidente Blatter.
A tendência de “homogeneizar” é sempre um prejudicial erro de casting (veja-se também os nossos atuais cursos de treinadores...).

O futebol desperta inúmeros apetites… Os dirigentes das estruturas e superestruturas devem saber encontrar com competência, investigação cuidada, reflexão profunda, rumos possíveis para o desenvolvimento… Sem manifestações, tiques de vaidades redutoras ou meras opiniões pessoais próprias de conversas informais à mesa de um café.
Já se revelaram muitas e lamentáveis desilusões com vários ídolos (Platini, Beckenbauer e outros…).
Agora também com Marco van Basten.
Ninguém contava.

“Mas como Coubertin era um estratega do soft power, sabia que as pessoas falam muito em mudar para depois, quando se trata de realmente mudar, mudarem o menos possível.”
(Gustavo Pires, OLIMPICAMENTE, A RUTURA DE PIERRE DE COUBERTIN COM A EDUCAÇÃO FÍSICA, FMH, 2014;50, Lisboa)

O futebol nunca é vencido!

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