QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
Olimpismo
Alibaba no Movimento Olímpico (artigo de Gustavo Pires, 52)
17:19 - 20-01-2017
Gustavo Pires
Os produtos falsificados produzidos na China são tão bons como os originais. Ou até melhores. Quem o diz não sou eu. Quem o diz é Jack Ma fundador e Presidente Executivo da Alibaba.
Note-se que a Alibaba de que estou a falar não tem nada a ver com o célebre Ali Babá e os Quarenta Ladrões do livro das Mil e Uma Noites. Na realidade, a Alibaba trata-se de uma mega empresa chinesa do ramo do comércio eletrónico que tem sido amiúdas vezes criticada por comercializar em todo o Mundo produtos falsos fabricados na China.
Entretanto, ficámos a saber pela comunicação social que o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) de seu nome Thomas Bach assinou um contrato milionário com Jack Ma da Alibaba. O acordo prevê que a Alibaba, em troca de poder associar o seu nome ao grupo dos doze magníficos patrocinadores institucionais do COI, vai pagar 100 milhões de dólares em cada Ciclo Olímpico para além de passar a anunciar no Olympic Chanel e a disponibilizar os seus serviços nos domínios da nuvem, da plataforma digital e do e-comércio.
Aqueles que ainda acreditam nos valores do bom exemplo certamente não conseguem compreender como é que é possível o COI ser patrocinado por uma empresa como a Alibaba cujo líder, Jack Ma, defende uma politica de contrafação, argumentando que “os produtos falsificados de hoje – são feitos com mais qualidade e melhores preços do que o produto original”. Se a esta perspetiva acrescentarmos o poder do Marketing Direto da Alibaba somos obrigados a concluir, aliás como o faz o próprio Jack Ma, que “os fabricantes chineses simplesmente não precisam mais das marcas internacionais para ganhar dinheiro” Ora, esta perspetiva económica já está a levantar enormes problemas no comércio internacional, sobretudo a partir dos EUA.
Em conformidade, só conseguimos compreender o referido acordo entre o COI e a Alibaba numa lógica pós-moderna sustentada na imoralidade de um relativismo cultural sem fronteiras. Desde logo porque o dito acordo é estabelecido à revelia dos princípios e dos valores de lealdade, da honestidade e da justa competição, que devem presidir ao Movimento Olímpico (MO). Por isso, a pergunta que se coloca é a que procura saber se a ganância pelo dinheiro que tem vindo a tomar conta do COI desde os Jogos Olímpicos de Roma (1960) está transformada num imperativo categórico que determina a própria ação do COI? Quer dizer, sob a liderança de Thomas Bach, são os valores manifestados por Jack Ma, em alternativa aos de Pierre de Coubertin, que vão passar orientar o comportamento de todos aqueles que, de acordo com a Carta Olímpica, fazem parte do MO internacional? Pelos vistos, parece que sim na medida em que Thomas Bach afirmou à comunicação social que o acordo com a Alibaba se trata de “uma revolucionária e inovadora aliança”. Uma aliança que “ajudará a impulsionar a eficiência na organização dos JO”.
Por nós, quer a nível internacional quer a nível nacional, recusamos qualquer possibilidade de enraizar na ética de autenticidade que deve presidir ao MO um certo relativismo moral em que os fins justificam os meios. O Olimpismo é uma filosofia de vida que deve colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento humano. Se assim não for, todas as reflexões em torno dos seus princípios e valores passam a estar subjugados por um relativismo moral determinado pelo valor do dinheiro e os Jogos Olímpicos transformados num espetáculo de características protofascistas em que o desporto deixa de ter qualquer vestígio de humanidade como, em muitas circunstâncias já se está a verificar. Quer dizer, o que interessa às mais diversas organizações do Mundo desenvolverem projetos de Ética Desportiva e de Jogo Limpo quando, depois, o COI, a troco de uns milhões de dólares, corrompe os princípios e valores que ele próprio, em primeiro lugar, devia defender. Infelizmente, estamos perante mais um salto quantitativo das grandes empresas multinacionais a fim de controlarem o processo de desenvolvimento do MO à escala do Planeta.
Mas o acordo agora firmado entre o COI e a Alibaba torna-se tanto mais tanto mais estranho quanto se sabe que foi assinado precisamente na véspera da tomada de posse de Donald Trump. Sendo a Alibaba uma competidora da americana Amazon e os EUA, através das suas televisões e outras grandes empresas como a CocaCola, os grandes financiadores do COI, não se percebe como é que Thomas Bach foi colocar a organização a que preside no meio de um conflito geoestratégico no domínio comercial que vai, certamente, acontecer entre a China e os EUA, quer dizer, entre as virtudes da globalização e de uma economia aberta defendida pelo presidente chinês Xi Jinping e o “America first” e uma economia protegia defendida pelo presidente americano Donald Trump.
Contudo, no jogo de alto risco, porque desprovido de princípios de ordem moral, em que Thomas Bach está a colocar o MO internacional, falta uma terceira figura de fundamental importância: Vladimir Putin, o presidente todo-poderoso da Rússia que, para além de estar psicologicamente ferido devido ao processo de doping e às consequências do Relatório McLaren da World Anti-Doping Agency, considerando o facto de ter sido alto funcionário do KGB soviético, não vai, certamente, deixar de tirar desforra da humilhante situação em que o seu país foi colocado nos últimos JO e Paralímpicos.
Acresce que o grande problema desta visão economicista do COI é que ela está a passar para os Comités Olímpicos Nacionais (CONs) dos mais diversos países do mundo que dão mais importância ao sucesso dos resultados financeiros do que aos resultados desportivos. Todavia, a continuar-se assim é a morte do desporto, dos seus princípios e dos seus valores, tal como Pierre de Coubertin os idealizou. Porque, a partir de tal transmutação de valores acontece a passagem do modelo do desporto moderno sustentado nos valores da dignidade da pessoa humana ao serviço do desenvolvimento da sociedade, para um modelo pós-moderno sustentado na lógica de um relativismo moral ao serviço das oligarquias dominantes.

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