QUINTA-FEIRA, 23-03-2017, ANO 18, N.º 6263
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
A aporia do inferno (artigo de José Antunes de Sousa, 70)
20:19 - 17-01-2017
Escrevo estas linhas a poucas horas do início de um escaldante evento nas “terras do Demo” e do frio, o jogo entre o Desportivo de Chaves e o Sporting Clube de Portugal, jogo cujo desfecho pode abrir uma clareira para o piquenine nas matas do Jamor. E, olhando para as implicações que esse jogo terá para os apaniguados da equipa lisboeta, o mínimo que me ocorre é a analogia de uma tempestade prestes a desabar sobre o universo leonino – sim, que até o rei leão está sujeito à crudelíssima lei do sofrimento.

Sobre o trêmulo – de vibração e de medo – reino do leão, paira o negrume de uma certeza: vai haver borrasca pela certa. E a espada de Dâmocles está já no seu fatídico movimento descendente – vão rolar cabeças.

Mas, perguntar-se-á, donde tanta certeza no meio deste irrespirável clima de incerteza? Nisto, que é, e, para meu pudor de analista, uma verdade lapaliciana: perca ou ganhe, o Sporting não vai já a tempo de se livrar de uma saraivada. E, aos responsáveis, nem lhes valerá acolherem-se à musculosa protecção de Neptuno, o mitológico deus dos mares: teremos seguramente um tsunami. Vejamos, de forma exageradamente simplificada, o porquê.

Se o Sporting ganhar – e é bem possível que ganhe, dada a assimetria gritante de valores – os “media” e o volúvel universo dos adeptos tenderão a atribuir os louros do feito ao truculento presidente, à sua intempestiva irrupção balneário dentro e aos decibéis dos seus gritos – e há quem diga que também à virulência dos seus mimos -, enfim, à desabrida prelecção junto dos jogadores, já de si amachucados o bastante com o revés que acabavam de sofrer, e que assim se sentiram revolteados na lama, chocados e atónitos com tão demolidora investida presidencial.

Ora, no caso de sucesso da equipa leonina, este comportamento abrasivo do mais alto responsável ver-se-á de algum modo credibilizado, pois neste nosso mundo e sobretudo no mundo volátil da bola, só há um critério que tudo legitima – o resultado. Neste caso, o presidente cantará vitória e exibirá ufano os galões de um estilo de liderança mais assente na gritaria do que na sensatez. Mais, ele terá obtido a vitória, apesar dos jogadores e do treinador. Eu diria mais: contra o treinador, uma vez que tomou de assalto, de punho em riste, o território da intimidade da equipa no qual é soberano e exclusivo o poder do técnico principal.

Deste modo e no caso de vitória, os jogadores – e seguramente o próprio treinador – ter-se-ão visto forçados a engolir a frio o amargo e infernal paradoxo: ganhar por a isso os obrigar a sua mais elementar deontologia profissional, apesar de , no recôndito ínvio e azedo de si, desejarem retaliar à intempestividade abrasiva e vexatória do presidente – e, claro que nada mais certeiro para esse fim do que a punhalada da derrota.

Paradoxo supremo e crucial – também crucificante - para os actores: ter que ganhar, ainda que secretamente lhes apetecesse perder. Este o resultado embaraçante da impetuosidade de um presidente à deriva. E é obvio que uma eventual derrota na capital termal converterá o seu homérico sonho de reeleição em pouco mais do que uma bola de sabão, ou numa nuvem passageira.
Se, pelo contrário, o Sporting perder – o que é também uma séria possibilidade (porque o potencial relativo de combate se faz da resultante sinérgica entre armamento ou poder de fogo e condição mental), bem, neste caso, como ficou dito, teremos o desespero de um presidente na iminência de deixar de sê-lo, e, nesse seu aperto de fim, tentar arrastar na queda os aliados da véspera: sim ninguém aceita perder sozinho.
Todos se precipitarão para o largo do pelourinho para a sonora e espalhafatosa execução. Mas haverá mais que um a subir ao cadafalso – que a populaça pela-se por uma zanga na corte, por uma zanga de comadres, neste caso, compadres.

O presidente atirará setas envenenadas, denunciando as pretensões ruinosas nas escolhas do treinador, como não hesitará em lamentar a falta de qualidade leonina do sangue que corre nas veias dos vilões, os jogadores – saudados e exaltados dias antes como heróis no Restelo, ali mesmo junto da Praça do Império.

E eis que todos os ventos soprarão em fúria sobre o cais de todas as esperanças e que, algo levianamente, o havia sido, na boca em chamas de um férvido e impetuoso presidente, de todas as certezas.

A incontinência verbal, esse jeito intemperado e nevrótico de apontar e atirar a tudo o que mexe, serve apenas o anti-demiúrgico e apocalíptico desígnio da Caixa de Pandora: de todos os males que do vaso se soltaram, só resta um, que é, afinal, um bem – o da esperança: para o ano é que vai ser!
Entretanto a procissão quaresmal continua!


José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile

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