QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
José Antunes de Sousa
Espaço Universidade
A aporia do inferno (artigo de José Antunes de Sousa, 70)
20:19 - 17-01-2017
Escrevo estas linhas a poucas horas do início de um escaldante evento nas “terras do Demo” e do frio, o jogo entre o Desportivo de Chaves e o Sporting Clube de Portugal, jogo cujo desfecho pode abrir uma clareira para o piquenine nas matas do Jamor. E, olhando para as implicações que esse jogo terá para os apaniguados da equipa lisboeta, o mínimo que me ocorre é a analogia de uma tempestade prestes a desabar sobre o universo leonino – sim, que até o rei leão está sujeito à crudelíssima lei do sofrimento.

Sobre o trêmulo – de vibração e de medo – reino do leão, paira o negrume de uma certeza: vai haver borrasca pela certa. E a espada de Dâmocles está já no seu fatídico movimento descendente – vão rolar cabeças.

Mas, perguntar-se-á, donde tanta certeza no meio deste irrespirável clima de incerteza? Nisto, que é, e, para meu pudor de analista, uma verdade lapaliciana: perca ou ganhe, o Sporting não vai já a tempo de se livrar de uma saraivada. E, aos responsáveis, nem lhes valerá acolherem-se à musculosa protecção de Neptuno, o mitológico deus dos mares: teremos seguramente um tsunami. Vejamos, de forma exageradamente simplificada, o porquê.

Se o Sporting ganhar – e é bem possível que ganhe, dada a assimetria gritante de valores – os “media” e o volúvel universo dos adeptos tenderão a atribuir os louros do feito ao truculento presidente, à sua intempestiva irrupção balneário dentro e aos decibéis dos seus gritos – e há quem diga que também à virulência dos seus mimos -, enfim, à desabrida prelecção junto dos jogadores, já de si amachucados o bastante com o revés que acabavam de sofrer, e que assim se sentiram revolteados na lama, chocados e atónitos com tão demolidora investida presidencial.

Ora, no caso de sucesso da equipa leonina, este comportamento abrasivo do mais alto responsável ver-se-á de algum modo credibilizado, pois neste nosso mundo e sobretudo no mundo volátil da bola, só há um critério que tudo legitima – o resultado. Neste caso, o presidente cantará vitória e exibirá ufano os galões de um estilo de liderança mais assente na gritaria do que na sensatez. Mais, ele terá obtido a vitória, apesar dos jogadores e do treinador. Eu diria mais: contra o treinador, uma vez que tomou de assalto, de punho em riste, o território da intimidade da equipa no qual é soberano e exclusivo o poder do técnico principal.

Deste modo e no caso de vitória, os jogadores – e seguramente o próprio treinador – ter-se-ão visto forçados a engolir a frio o amargo e infernal paradoxo: ganhar por a isso os obrigar a sua mais elementar deontologia profissional, apesar de , no recôndito ínvio e azedo de si, desejarem retaliar à intempestividade abrasiva e vexatória do presidente – e, claro que nada mais certeiro para esse fim do que a punhalada da derrota.

Paradoxo supremo e crucial – também crucificante - para os actores: ter que ganhar, ainda que secretamente lhes apetecesse perder. Este o resultado embaraçante da impetuosidade de um presidente à deriva. E é obvio que uma eventual derrota na capital termal converterá o seu homérico sonho de reeleição em pouco mais do que uma bola de sabão, ou numa nuvem passageira.
Se, pelo contrário, o Sporting perder – o que é também uma séria possibilidade (porque o potencial relativo de combate se faz da resultante sinérgica entre armamento ou poder de fogo e condição mental), bem, neste caso, como ficou dito, teremos o desespero de um presidente na iminência de deixar de sê-lo, e, nesse seu aperto de fim, tentar arrastar na queda os aliados da véspera: sim ninguém aceita perder sozinho.
Todos se precipitarão para o largo do pelourinho para a sonora e espalhafatosa execução. Mas haverá mais que um a subir ao cadafalso – que a populaça pela-se por uma zanga na corte, por uma zanga de comadres, neste caso, compadres.

O presidente atirará setas envenenadas, denunciando as pretensões ruinosas nas escolhas do treinador, como não hesitará em lamentar a falta de qualidade leonina do sangue que corre nas veias dos vilões, os jogadores – saudados e exaltados dias antes como heróis no Restelo, ali mesmo junto da Praça do Império.

E eis que todos os ventos soprarão em fúria sobre o cais de todas as esperanças e que, algo levianamente, o havia sido, na boca em chamas de um férvido e impetuoso presidente, de todas as certezas.

A incontinência verbal, esse jeito intemperado e nevrótico de apontar e atirar a tudo o que mexe, serve apenas o anti-demiúrgico e apocalíptico desígnio da Caixa de Pandora: de todos os males que do vaso se soltaram, só resta um, que é, afinal, um bem – o da esperança: para o ano é que vai ser!
Entretanto a procissão quaresmal continua!


José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile

comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ESPAÇO UNIVERSIDADE

Espaço Universidade O futebol, a política e todos os “universos” do país têm de começar a identificar principais responsáveis e atribuir-lhes as devidas sanções e penalizações. Só assim também poderemos valorizar a competência. O clima de guerra que o futebol atravessa,
Espaço Universidade Decorreu na Guarda o 2.º Congresso de Futebol do Instituto Politécnico da Guarda (IPG), dedicado ao debate em torno da aquisição de competências multidisciplinares para uma intervenção qualificada, que contou com aproximadamente 200 participantes. Su

destaques