SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
Espaço Universidade
Basquetebol Universitário nos EUA (NCAA): O Desporto na valorização dos estudantes/atletas (artigo de Eduardo Monteiro, 12)
15:27 - 01-01-2017
A evolução histórica do basquetebol universitário nos EUA teve a sua origem com a criação do jogo na YMCA International Training School, mais conhecida como Springfield College em Massachusetts. Foi aqui que um professor de educação física, de seu nome James Naismith, inventou o jogo de basquetebol, em 1881, cujo objectivo inicial era o de manter em actividade, nos meses de inverno, os diferentes praticantes dos desportos jogados ao ar livre.

O jogo teve tanto sucesso que rapidamente começou a ser praticado em diversas universidades e, segundo consta, em 7 de Fevereiro de 1893, realizou-se um primeiro jogo de exibição entre Vanderbilt University e a YMCA de Nashville e, pouco depois, a 8 de Abril um outro entre Geneva College e a YMCA de New Brighton. Dois anos mais tarde (1885), num jogo de divulgação entre duas universidades, Minnesota A&M venceu por 9-3, Hamline University (com 9 jogadores por equipa) e no ano seguinte (1886) realizou-se o primeiro jogo universitário, da história do basquetebol, já com a versão definitiva dos 5 jogadores por equipa, entre a Universidade de Chicago e a Universidade de Iowa em que a primeira ganhou por 15-12.

Os primeiros torneios nacionais de basquetebol começaram em 1898, sob a orientação da Amateur Athletic Union, com a participação de equipas universitárias e outras que não o eram, chegando mesmo algumas representações das universidades a conquistarem o título nacional, como aconteceu com as universidades de Utah (1916), NYU (1920), Butler (1924) e Washburn (1925). O primeiro torneio exclusivamente com equipas universitárias, de que há memória, foi disputado durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1904, no qual o basquetebol participou na qualidade de modalidade desportiva de demonstração, no intuito de ser aprovada como modalidade olímpica de pleno direito, como de facto veio a acontecer. Em Março de 1922, realizou-se na cidade de Indianapolis, o primeiro torneio nacional exclusivamente para equipas universitárias com a participação dos campeões das seguintes Conferências: Pacific Coast Conference, Southern Intercollegiate Athletic Association, Western Pennsylvania League, Illinois Intercollegiate Athletic Conference, Michigan Intercollegiate Athletic Association e Indiana Intercollegiate Athletic Association do qual saíu vencedor o Wabash College. A primeira instituição que se propôs organizar com regularidade uma prova nacional foi a National Association of Intercollegiate Athletic (NAIA), em 1937, mas foi rapidamente ultrapassada com o prestígio alcançado pelo National Invitation Tournament (NIT), que trouxe seis equipas universitárias para o Madison Square Garden, em Nova Iorque, na Primavera de 1938.

A NCAA implementou, em 1939, uma competição nacional em que a principal novidade era a disputa da prova, todos os anos, em diferentes locais do país, não tendo as equipas e os espectadores que se deslocar anualmente para Nova Iorque como acontecia com o NIT. Embora, o torneio de Nova Iorque tivesse sido criado há mais tempo e disfrutasse de maior prestígio, a NCAA regulamentou que nenhuma equipa universitária podia participar na mesma época nos dois torneios, pelo que teria de fazer uma opção em relação a um deles. Esta medida e o facto da Universidade Californiana de Los Angeles (UCLA), nos anos de 1960 e 70, sob a orientação do conceituado treinador John Wooden, ter conquistado 10 campeonatos nacionais da NCAA, fez com que as atenções sobre o basquetebol universitário deixassem de se concentrar somente em Nova Iorque e se descentralizam-se por diversas zonas do país norte americano. Por outro lado, o aumento progressivo do número de universidades com acesso ao campeonato nacional, de 25 para 32 em 1975, para 48 em 1980, para 64 em 1985 e finalmente para 68 em 2011, fez com que as mais prestigiadas universidades tivessem optado pelo torneio da NCAA em detrimento do NIT que, actualmente, é disputado pelas melhores equipas universitárias que não sejam apuradas para o torneio nacional.

O sonho de muitos rapazes e raparigas nos Estados Unidos da América, e não só, é o de poderem competir no Desporto Universitário.

Presentemente, oito milhões de estudantes do ensino secundário (High School) participam regularmente nos quadros competitivos escolares, de âmbito local e estatal. No entanto, somente 480.000 é que conseguem obter uma bolsa de estudo numa universidade e, em consequência, participar nos campeonatos universitários em sua representação. As vantagens de competir no Desporto Universitário nos EUA são imediatas e para toda a vida, porque fornecem oportunidades de aprendizagem em termos académicos no ensino superior, permitem a participação em competições de elevado nível desportivo e asseguram a obtenção de um grau académico que lhes permitirá ter sucesso na sua futura actividade profissional.

O Desporto Universitário nos EUA é dirigido por instituições constituídas por pessoas, com larga experiência, oriundas dos departamentos técnico-desportivos (School Athletic Director) das diferentes universidades. Nos quadros competitivos das 22 modalidades desportivas que fazem parte dos programas desportivos de âmbito nacional, participam milhares de Universidades e Escolas de Ensino Superior de diferentes regiões, que têm grande número de alunos, enorme prestígio académico e elevado nível competitivo que, ao longo dos anos, foram sendo agrupadas em conferências em função destes e outros critérios. Assim, organizações como a National Collegiate Athletic Association (NCAA), a National Association of Intercollegiate Athletics (NAIA), a United States Collegiate Athletic Association (USCAA), a National Junior College Athletic Association (NJCAA), e a National Christian College Athletic Association (CCAA) são as responsáveis pela implementação e gestão dos seus respectivos campeonatos. No Canadá as estruturas organizativas das competições desportivas universitárias são da responsabilidade do Canadian Interuniversity Sport (CIS) e da Canadian Collegiate Athletic Association (CCAA). Cada uma destas organizações estão divididas em divisões (de uma a três) em função do número de bolsas de estudo disponíveis para oferecer aos estudantes/atletas.

De todas as instituições atrás enunciadas, a National Collegiate Athletic Association (NCAA) que tem como membros cerca de 1.100 Universidades é a maior e mais importante entidade da tutela do desporto universitário nos EUA, tendo como principal responsabilidade a organização das competições regionais e nacionais nas diferentes modalidades desportivas. No entanto, a sua verdadeira missão é a de garantir o sucesso do estudante-atleta no campo desportivo, nos estudos académicos e na preparação para toda a vida. Nesse sentido, tem como prioridades fundamentais:

1 – Criar oportunidades de obtenção de um curso superior, através do Desporto, aos estudantes/atletas que completaram o High School e mostraram qualidades técnico-desportivas, acima da média, nos quadros competitivos escolares no ensino secundário nos diversos Estados federais americanos;

2 – Assegurar o bem estar e segurança dos estudantes/atletas envolvidos nas competições universitárias é uma preocupação prioritária da NCAA para a obtenção de resultados de excelência;

3 – Proporcionar igualdade de oportunidades aos estudantes/atletas exigindo-lhes, em contrapartida, respeito pela instituição universitária que os acolhe, integridade e responsabilidade dentro e fora do campo desportivo.

Contrariando a ideia, de alguns incrédulos, de que estes desportistas universitários não eram controlados nos estudos académicos, existe uma regra que diz que quem não tiver aproveitamento escolar fica impedido de jogar e corre o risco de perder a bolsa de estudo. Entretanto, tem-se constatado que os estudantes/atletas graduados pelas diferentes universidades estão a atingir parâmetros iguais ou mesmo superiores em relação aos restantes estudantes.

Deste modo, aquilo que está a acontecer é que, cada vez mais, há um maior número de estudantes/atletas, de ambos os géneros, a participar nos campeonatos universitários organizados pela NCAA. O investimento financeiro em bolsas de estudo, que também abrange o seguro médico-desportivo, serviços de apoio académico e treino especializado, atribuídas pelas diversas universidades, atinge anualmente cerca de 2,7 biliões de dólares verba proveniente, maioritariamente, das receitas das transmissões televisivas dos jogos dos campeonatos universitários e respectivas receitas de bilheteira, essencialmente, do basquetebol e futebol americano.

De todos os desportos, que a NCAA coordena, o Basquetebol é aquele que mais equipas movimenta, a nível regional e nacional, atendendo a que a grande maioria das universidades também já possui representações femininas. Por essa razão, dividiu o seu universo competitivo em 3 divisões, de acordo com o currículo desportivo e nível demonstrado pelas equipas das diversas universidades. O sistema organizacional da Divisão I que, nesta época desportiva de 2016-17, engloba 351 equipas universitárias que, por sua vez, estão agrupadas em 32 Conferências de âmbito regional, apenas quatro não possuem equipas femininas, as duas Academias militares e duas universidades privadas por opção própria.

Embora os treinos tenham o seu início coincidente com a actividade curricular, o que não sucedia no passado recente, as competições oficiais do basquetebol universitário começam em Dezembro e prolongam-se até ao final de Março/início de Abril, ocupando todo o período de aulas curriculares de forma a libertar os estudantes/atletas para a época de exames, a partir de Abril.

O Torneio masculino da Divisão I da NCAA é uma prova de eliminação simples que se realiza anualmente, durante a Primavera, com a participação das 68 melhores equipas universitárias do EUA. O Torneio foi criado em 1939 pela National Association of Basketball Coaches e idealizado por Harold Olsen treinador da Universidade de Ohio. Pelo facto de ser efectuado durante o mês de Março é conhecido por “March Madness” e pela sua popularidade tornou-se num dos mais famosos eventos desportivos dos Estados Unidos. No torneio participam os campeões das 32 Conferências que constituem a Divisão I: American East, American Athletic, Atlantic 10, Atlantic Coast, Atlantic Sun, Big 12, Big East, Big Sky, Big South, Big Ten, Big West, Colonial Athletic, USA, Horizon League, Ivy League, Metro Atlantic, Mid-American, Mid Eastern, Missoury Valley, Mountain West, Northeast , Ohio Valley, Pac 12, Patriot League, Southeastern, Southern, Southland, Southwestern, Sun Belt, Summit League, West Coast e Western Athletic. As 36 restantes equipas, com base no ranking da respectiva época desportiva, são escolhidas por um Comité de Selecção, constituído por Athletic Directors das universidades, nomeados pela NCAA, que no Domingo anterior ao início do evento, as dão a conhecer publicamente através duma transmissão televisiva, em directo, a nível nacional. O torneio começou a ser televisionado em 1969 e, actualmente, todos os 67 jogos deste quadro competitivo são emitidos, em directo, pelas cadeias de televisão CBS, TBS, TNT e truTV podendo ser vistos a nível nacional e internacional. Durante alguns anos tivemos a oportunidade de seguir, em directo, as competições universitárias de basquetebol e de outras modalidades dos EUA, através da cadeia ESPN Europa, situação que deixou de se verificar já no ano passado por razões que desconhecemos. O basquetebol universitário, praticado por jogadores ainda muito jovens, ensinado e orientado por treinadores muito experientes e conhecedores do jogo, com formação académica de nível superior, muito variados nas suas concepções estratégicas e tácticas, proporcionam uma aprendizagem de qualidade a todos os treinadores que estiverem atentos às diversas transmissões televisivas. A nossa formação como treinador sempre foi alicerçada nos ensinamentos dos treinadores das universidades norte americanas. Os treinadores da NBA, sem formação anterior e pouca experiência são, na maioria das situações, recrutados nos ex-jogadores que se encaixam perfeitamente no espectáculo que é o basquetebol profissional. No momento mais adequado com o início da realização do “March Madness” publicaremos um artigo específico sobre este espectacular evento desportivo.

Quando falamos de Desporto Escolar e Universitário e olhamos para o que se passa em Portugal, ficamos com a sensação de que não existe nenhuma organização credível, que é tudo uma brincadeira de mau gosto, bastante pior do que no nosso tempo de estudante liceal e universitário. Ninguém, na área política se preocupa com as crianças e com os jovens, na implementação de um sistema de desenvolvimento desportivo que sirva para a sua valorização, para a valorização das futuras gerações através do Desporto. Uma verdadeira vergonha nacional.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais


comentários

0
Imprimir Enviar e-mail Facebook Twitter
Faça um comentário (máx: 300)

mais de ESPAÇO UNIVERSIDADE

Espaço Universidade Vivemos tempos de instabilidade única, total, global. Os exemplos sucedem-se a velocidade incalculável e a incerteza tornou-se absoluta em todas as latitudes. O caos nunca surge de improviso, nem devagarinho pela sombra. Vai-se alimentando de vícios,
Espaço Universidade A Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto do Instituto Politécnico da Guarda vai organizar, no próximo dia 25 de abril, o 2.º Congresso de Futebol subordinado ao tema Competências multidisciplinares para uma intervenção mais qualificad

destaques