QUARTA-FEIRA, 24-05-2017, ANO 18, N.º 6325
Espaço Universidade
Os maiores desafios ao futebol (artigo de Aníbal Styliano, 7)
13:41 - 28-12-2016
Aníbal Styliano
I. A Pandemia do vídeo-arbitro

Há jogos que nunca se podem perder. Deles dependem muitos aspetos entre os quais a própria sobrevivência de um modelo, de uma obra, que levou muitos anos a construir.

Obra que preserva segredos da vida, da evolução, da longa caminhada, sofrida por vezes, mas sempre vitoriosa.

Assim se conseguiu criar, manter e potenciar um tesouro que encerra o segredo da Humanidade, o seu ADN.

Tesouro que representa esforços de gerações, contributos fantásticos e dedicações exemplares.

Por vezes, o futebol é a mais eficaz aula/investigação sobre os seres humanos e as suas relações com o mundo.
Por isso, o jogo mantém elementos que são do Tempo e não de tempos, que são de Arte e não de repentes, que representam simbolicamente a Vida nas suas mais diversas dimensões.

O futebol é sonho, magia, encantamento e vida. E como vida, uma representação simbólica da nossa presença no planeta que nos acolhe.
Tem uma matriz fundacional que nunca se pode romper sob o risco de mudar completamente a herança genética que o suporta, de forma redutora, sombria e mesmo destruidora.

O futebol mantém uma linguagem comum que abarca o pensamento global: o desejado Esperanto.

Facilmente se podem detetar as inúmeras e indispensáveis representações simbólicas que permitem a conjugação perfeita entre o jogo e o nosso lugar no universo.

São vários os exemplos de tentativas para subverterem a essência do futebol com as mais diversas justificações. É certo que, periodicamente, devem ser pensados e criados ajustes e aperfeiçoamentos mas sem destruir o património essencial.

A excelência do jogo tem de estar sempre acima do voraz apetite financeiro, na maior parte das vezes, unicamente com interesses imediatos, logo desvalorizando a sustentabilidade do próprio jogo… Quando for altura, descobrem outro negócio que o substitua ou uma melhor adaptação aos seus interesses!

A tão atual questão do vídeo-árbitro surge de uma eventual estratégia mais alargada, onde entroncam diversos objetivos com que alguns pretendem apoderar-se do jogo, transformando-o num mero produto de engenharia financeira e marketing ao serviço de grandes lóbis.
Aceitando as evoluções indispensáveis (sistemas de comunicação imediata entre os árbitros durante o jogo), atualização de pormenores de algumas regras, há limites que, aparentando uma eventual eficácia, podem transformar-se num aprisionamento do jogo e numa nociva transformação.


São diversos os simbolismos latentes e imprescindíveis:
- A bola como representação do Sol, da Vida, ao alcance de todos.
- O lançamento de bola pela linha lateral, feita com as mãos, como representação simbólica da sementeira, da fixação e domínio do espaço.
- A posse bola, as desmarcações e os golos como representação do ancestral instinto de sobrevivência do caçador. O erro e a experiência como aprendizagens…
- O estádio ou campo como lugar sagrado, de culto, de união da comunidade.
- A derrota como morte momentânea (todos já ouvimos a expressão ”morrer na praia”) e a vitória como renascimento, ressurreição.
- A crítica ao treinador ou ao árbitro como o mecanismo simbólico de encontrar o bode expiatório e sacrifícios tribais.
- A festa, os cânticos, as bandeiras, as camisolas e as movimentações ensaiadas, como forma de oração e de participação na cerimónia coletiva de apoio às suas crenças e aos seus deuses.
- As deslocações em grupo como peregrinações, procissões, para o local de jogo, à custa de sacrifícios e de promessas sempre criando um espírito de grupo forte e intergeracional onde os heróis, os mitos e as tradições se perpetuam eternamente.
- A identificação grupal, inclusive com pinturas faciais, funciona como ritual de iniciação e de integração, marcante e sedutor para os mais novos.

Jogo de emoções, jogo de paixões que ultrapassam o TEMPO, qualquer tempo.
Este é o futebol simbólico, invisível, mas sentido, presente, que faz do jogo uma festa que se repete num tempo sempre de encantamento (ou desencanto).

Sistematicamente as leis devem ser ajustadas, para se reforçar a herança natural do futebol, para lhe dar maior contribuição humana.
Anualmente, várias modalidades alteram regras.
No futebol, isso nunca pode acontecer de ânimo leve, retirando-lhe uma estabilidade decorrente da simplicidade tão difícil de atingir.
A International Football Association Board (IFAB), é o órgão que regulamenta as regras do futebol. Por vezes, surgem decisões e indicações para os árbitros, que colocam muitas dúvidas sobre a capacidade de conhecimento do jogo e de prevenção dos efeitos de quem as faz.
Quer para ajuizar os fora-de-jogo ou a questão da mão na bola ou da bola na não, os critérios são tão “abrangentes e difusos” que causam confusões generalizadas, quando deveriam uniformizar de forma mais precisa.
Ver defesas centrais a saltar com as mãos atrás das costas é algo surreal!

Quanto ao vídeo-árbitro para o futebol (cada modalidade é específica logo pode encontrar soluções diferentes) quer as experiências feitas no nosso país, quer as realizadas durante o Mundial de Clubes, nada de claro e significativo trouxeram além de situações ridículas (no citado mundial). Subvaloriza-se o árbitro, acrescentando mais uma contribuição humana que mesmo com recurso a alta tecnologia, tem sempre “a mão de quem não está em jogo”.
Decisões que, passado um tempo, obrigam a parar o jogo para regressar a situações anteriores…
Toda essa parafernália de certezas tecnologicamente perfeitas deixa muitas dúvidas e incapacidades (o que se passou entretanto, enquanto não se corrige definitivamente a situação, volta atrás? Passa a virtual?).
Não acreditamos muito em coincidências… Entendemos que há planos que estão sendo elaborados para fins que desconhecemos, embora possamos procurar antever.
A tecnologia deve estar sempre ao serviço da humanidade, reforçando a ética, os valores, a competência, sem nunca criar dependências nem atropelos à liberdade.
O jogo é sempre o essencial, nunca o acessório.
O futebol continuará a saber resistir, a evoluir, mantendo a sua dinâmica imparável de construtor de espaços de magia, de genialidade e de entendimento.

II. As tentativas dos poderosos

O jogo de futebol é, e ainda bem, um universo da incerteza. Sejam quem forem os clubes que disputam os jogos, não há certezas antecipadas sobre os resultados.
A imprevisibilidade é património único a defender.
No campo, e não nas entrevistas ou previsões dos habituais “especialistas”, tudo é possível e já vimos acontecerem resultados julgados “impossíveis”.
Daí a sua grandeza, a sua sedução e capacidade de mobilizar paixões e entusiasmos, alegrias e mudanças estruturais.
Porque tem envolvência planetária, o jogo passou a motivar mais interesses diversificados.

Apostas desportivas, investimentos e outros negócios paralelos, tornaram o futebol numa das maiores “indústrias” globais.
Controlar orçamentos e a sua execução tornou-se uma necessidade, embora sempre ultrapassada pela “criatividade” de muitos artistas da finança.
Desde há uns anos que se nota, cada vez de forma mais acentuada, a tendência de representantes de países/equipas mais poderosas em termos económicos pretenderem “adaptar” as regras da melhor e mais conveniente forma e função dos seus interesses.

Depois das notícias dos escândalos de corrupção que envolveram a FIFA, a UEFA e outras entidades do topo da hierarquia desportiva mundial (Comités Olímpicos incluídos), vivemos um momento em que se procura aprisionar o desporto e colocá-lo unicamente ao serviço do investimento.
Nada acontece por acaso, daí que se possam ir descobrindo iniciativas que se foram fortificando de forma mais ou menos silenciosa.
Para a atribuição da “Bota de Ouro”, que distingue os jogadores europeus que marquem o maior número de golos em relação a todos os campeonatos, as regras foram alteradas em 1990, mediante um coeficiente que estabeleceu o seguinte:

- para os campeonatos que a UEFA considerava entre os 1.º e 8.º “melhores campeonatos”, cada golo passou a valer 2; para os campeonatos que a UEFA considerava entre os 9.º e 21.º “melhores campeonatos” cada golo passou a valer 1,5; para todos os outros cada golo valia 1 golo!

Esta foi uma das marcas que acrescentou velocidade ao apetite dos mais fortes. Seguiram-se propostas para Campeonatos Europeus em 13 países, para Campeonatos Mundiais com 48 países, mudança de horários de transmissões televisivas das provas europeias, atribuindo horário nobre aos clubes dos 5 campeonatos que a UEFA considera melhores (com maior poder económico), os chamados BIG 5 e, segundo a comunicação social, com o acordo da Associação Europeia das Ligas Profissionais de Futebol.

Por outro lado, surgiram notícias de fraude e de evasão fiscal (“Football Leaks”), de contratos que passaram a integrar uma parte relativa aos direitos de imagem (para melhor se ajustarem às exigências do fair play financeiro) cuja componente deixa de estrar a cargo do clube onde os jogadores atuam mas pertence a outras empresas sediadas em outros locais, assim como uma total discrepância de taxas de impostos entre os diversos países, onde surgem alguns que nada cobram de impostos (ou um mínimo simbólico) e outros com taxas elevadas.

Logo, uma “subversão” efetiva de competitividade. Uma Europa a várias velocidades, como também é usual na vida “económica” dos países da União Europeia.

Há quem afirme, e tudo parece confirmar, que existe um plano com anos de trabalho contínuo para conseguir “fechar as ligas europeias” exclusivamente para os mais endinheirados que assim poderiam capitalizar verbas muito mais elevadas. Os efeitos sobre o futebol global seriam catastróficos.

Portanto, sem uma uniformização de ordenamentos jurídicos e de cargas fiscais, sem um eficaz modelo de controlo e de fiscalização, a competitividade é afetada com parcialidade.

Situação idêntica ocorre com a deslocação da sede das grandes empresas nacionais para países onde a carga fiscal é mais baixa – o que é perfeitamente legal. Naturalmente, quem mais lucra com tudo isso são os países mais fortes que podem oferecer essas taxas mais reduzidas. Isso é competitividade justa?

Ora no futebol, ao contrário de outras atividades, mesmo com esse estado de condições desiguais, há um fator incontrolável: mesmo difícil, é sempre possível que o talento e a genialidade alcancem a vitória imprevista dos menos “abastados”.

Ouvimos e lemos que principais dirigentes das grandes entidades do Futebol estão preocupados com essas questões… Porém, o que se vê fazer é muito pouco, para não dizer que é nada.

Há uma suspeição crescente sobre forças que tentam influenciar os rumos do futebol para satisfazer unicamente os interesses económicos de grandes grupos.

Há uma certeza absoluta: os grandes jogadores, os grandes treinadores, estejam onde estiverem, encontram sempre os caminhos para superar os grandes desafios e manter o jogo ao nível que ele merece e nos exige.
No campo, e só aí, é que as vitórias estão ao alcance de todos.
O Futebol, como outras áreas, precisa sempre de bons planos para um desenvolvimento sustentado, solidário, cooperante, responsável e que ajude a manter e reforçar o sonho de criar novas oportunidades, novos golos fantásticos e vitórias inesquecíveis.

Assim se manterá sempre a chama e o ADN do futebol.

Curiosamente, um pequeno país como o nosso alcança títulos coletivos e individuais: Campeão da Europa, melhor selecionador do mundo, melhor jogador de futebol do mundo, melhor jogador de futsal do mundo, melhor jogador de futebol de praia do mundo, melhor selecionador de futebol de praia do mundo, melhor empresário do mundo e muitos mais (já nem refiro, mas recordo sempre, os diversos títulos internacionais obtidos pelos clubes portugueses e pelas seleções jovens, os enormes jogadores e treinadores nacionais que atingiram os lugares máximos de prestígio internacional).

O reconhecimento global e público elogio do talento dos nossos jogadores e treinadores de futebol é unânime.

Será Portugal um argumento decisivo para contribuir para um desenvolvimento sustentado, solidário, justo e uma nova reorganização do futebol “sem campos inclinados” mas para potenciar a qualidade do jogo de forma imparável?

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.

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