QUINTA-FEIRA, 30-03-2017, ANO 18, N.º 6270
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Quando o amor era mais íntimo (artigo de Manuel Sérgio, 174)
16:34 - 23-12-2016
Manuel Sérgio
Quando o amor era mais íntimo: quando nenhum ruído levantava as pálpebras dos que dormiam – de súbito, despontou, naquela noite, uma estrela de luz ofuscante. Os pastores acordaram sobressaltados, os animais atiraram à beleza da noite mugidos, grunhidos, relinchos de susto. Aos guerreiros, magistrados, arúspices, sibilas, às figuras gradas do Império Romano, ao próprio Otávio César Augusto passara despercebido este espanto.

Entretanto, corrido o primeiro susto, começou a chegar aos ouvidos dos pastores hinos embaladores e misteriosos, como o odor de rosa oculta em jardim. Simultaneamente, uma voz desconhecida, mas serena, repleta, prodigiosa proclamou: Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade. E a mesma voz continuou, adornando os ares, enchendo o escuro e o frio: Tranquilizai-vos. Trago-vos notícia de grande alegria, que será também para todo o povo. Na cidade de David, nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor, E isto vos será por sinal: achareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.

Quando o silêncio voltou a sulcar a noite, um frémito inquietante os tomou. Um velho pastor refletiu: Coisa extraordinária deve ter sucedido, para termos aviso do Céu! Resoluto, afastando o cortejo de sombras, que se instalara no cérebro daqueles homens rudes, um dos mais jovens propôs: Vamos a Belém e vejamos o que se passa. E deitaram-se ao caminho, em passos leves. Estavam prestes a chegar à cidade, quando descortinaram um límpido fulgor a brotar de uma caverna aberta na rocha.

Acercaram-se. Penetraram nela. E encontraram este quadro que nada tinha de singular: um homem, uma mulher e, deitado sobre as palhas, um recém-nascido. Todavia, uma floração repentina de respeito e de ternura obrigou-os a ajoelharem-se, adorando a criança e louvando a Deus “por tudo o que viram e ouviram, conforme o que lhes tinha sido anunciado”. Foram os simples, os desprotegidos, os explorados os primeiros a descobrirem numa criança o Deus-Menino. No macio lusco-fusco amanhecente, escrevera-se na História a lição definitiva: só os simples são livres, para conhecer e amar!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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