SEGUNDA-FEIRA, 24-04-2017, ANO 18, N.º 6295
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Espaço Universidade
Moçambique: O Basquetebol chegou ao Parque Nacional da Gorongosa (artigo de Eduardo Monteiro, com fotos 11)
16:21 - 18-11-2016
O Parque Nacional da Gorongosa é uma área de conservação da natureza de 4.067 km2 situado na zona limite sul do Grande Rift Africano, no coração da zona centro de Moçambique. Outrora uma reserva de caça, foi oficialmente criado em 1960 sendo um dos locais de maior biodiversidade do Planeta. Durante o período da guerra após a independência registou-se uma perda significativa das diversas espécies de animais.

Nos finais dos anos 90 encetaram-se os primeiros esforços para a recuperação do Parque, mas só com a assinatura de um acordo, em 2004, entre o Governo de Moçambique e a Carr Foundation e, posteriormente, em 2008 com a concessão por 20 anos renováveis da gestão conjunta do Parque pelo Governo e o “Gorongosa Restoration Project” foi possível relançar de forma definitiva o processo de reabilitação do Parque.

Assim, a restauração do Parque Nacional da Gorongosa é um esforço conjunto entre o Governo de Moçambique e a Fundação “Gorongosa Restoration Project”, uma entidade dos EUA sem fins lucrativos. O acordo assinado entre as duas entidades tem como principal objectivo a restauração do ecossistema, o apoio às comunidades locais no seu desenvolvimento socioeconómico e a criação de uma indústria turística sustentável.

Os resultados obtidos que podem considerar-se notáveis só foram possíveis devido aos recursos financeiros encaminhados pela Fundação, pelo Governo americano e ainda pela actividade turística realizada. Os principais resultados conseguidos foram os seguintes:

- Constituição de uma força de fiscalização com cerca de 180 fiscais preparados e equipados para a protecção do Parque e seus recursos;
- Reintrodução de animais de diversas espécies e o crescimento das diversas populações animais;
- A construcção de um santuário destinado à recepção de animais reintroduzidos com vista ao seu controle sanitário, crescimento dos efectivos e posterior introdução no Parque;
- Reinício da actividade turística com a reabilitação da estrutura hoteleira e a realização de safaris fotográficos;
- Reabilitação e construcção de clínicas para prestação de serviços de saúde e de escolas para as crianças das comunidades vizinhas;
- Construção de um Centro de Educação Comunitária onde se desenvolvem acções de formação e educação ambiental;
- Início de um programa de criação de viveiros de plantas indígenas e a plantação de milhares de árvores na Serra da Gorongosa com a participação das comunidades, assim como apoio à produção agrícola nas áreas vocacionadas para tal;
- Construcção de um Laboratório de Biodiversidade e desenvolvimento de projectos de investigação específicos nesta área científica incluindo a formação de investigadores;
- Criação de cerca de 500 postos de trabalho e respectiva formação ligados ao projecto de restauração do Parque;
- Constituição da equipa de gestão do Parque com técnicos experientes nas diversas áreas responsáveis pela sua organização e desenvolvimento.
Deste modo, pretendeu-se assegurar a preservação de uma das áreas de maior biodiversidade à escala mundial com a participação da comunidade internacional, do sector empresarial Moçambicano e alargar à própria comunidade empresarial Portuguesa.
No Parque desenvolvem-se diversos projectos e actividades indispensáveis ao sucesso da sua recuperação. Desse conjunto de projectos e actividades seis foram considerados prioritários pelo que foi necessário mobilizar apoios adicionais. Nesse sentido, foi criado o Clube Internacional da Gorongosa através da concessão de contrapartidas aos seus membros patrocinadores, tais como:
- Reconhecimento público do membro como patrocinador num determinado projecto e divulgação online no site do Parque e em newsletter periódicas;
- Menção do patrocínio nas instalações do Parque Nacional da Gorongosa;
- Oferta de placa de patrocinador para ser exposta nas instalações da empresa;
- Participação na “Gala Gorongosa”, jantar realizado anualmente em Lisboa ou Porto, com a presença da comunicação social;
- Viagem anual, Lisboa-Gorongosa-Lisboa, para 2 pessoas em representação da empresa membro do Clube;
- Oferta de vídeo promocional, filmado na Parque da Gorongosa, para utilização da empresa nas suas actividades de marketing na qualidade de patrocinador.

Vasco Galante, antigo jogador internacional de basquetebol do Sport Lisboa e Benfica nos anos setenta, ao tempo em que tive a honra e o prazer de treinar o clube, enquanto Director do Departamento de Comunicação e Marketing, é o grande responsável na implementação e êxito do Clube Internacional da Gorongosa.

Os seis projectos do Cube, selecionados como prioritários são os seguintes:

1 – Investigação dos Elefantes
O Parque pretende intensificar a monitorização da população local de elefantes com o objectivo de reduzir dois dos maiores problemas relacionados com estes grandes mamíferos: o conflito Homem-Elefante e a actividade criminosa em busca de marfim. O conflito Homem-Elefante nas áreas fronteiriças do Parque resulta do aumento de pessoas e suas actividades agrícolas, assim como o aumento da população de elefantes. Anualmente, na margem sul do rio Pungué, ocorrem incidentes dramáticos com consequências desastrosas para a população residente e para os próprios elefantes. As actividades criminosas em busca de marfim são uma realidade em todo o mundo e com grande expressão em Moçambique. A monitorização intensiva das manadas residentes no Parque, são uma prioridade para se poder detectar e reagir a tempo de evitar a caça furtiva.

2 – Educação das Crianças Vulneráveis
As crianças que vivem na periferia do Parque são oriundas de famílias muito pobres. Elas caminham diariamente longas distâncias para ir e voltar da escola. Durante os períodos de chuva, livros e cadernos acabam por se deteriorar e muitas destas escolas são ao ar livre sendo impossível o seu funcionamento nestas situações. As condições precárias oferecidas a estas crianças influem negativamente no seu desempenho escolar. Deste modo, o grande desafio é melhorar as condições de estudo e ainda promover a prática de actividades complementares nas áreas da produção agrícola, educação ambiental e ensino desportivo. É neste projecto que aparece a introdução do ensino do jogo do basquetebol, modalidade com grande implantação e tradição em terras moçambicanas. Construção de tabelas com cestos, oferta de bolas e apresentação do jogo simplificado são os primeiros passos na introdução do basquetebol às crianças e jovens que vivem nas zonas circundantes do Parque da Gorongosa. Educar as crianças e jovens destas comunidades significa dar-lhes a possibilidade de acesso ao mercado de trabalho e a novas oportunidades. Este programa tem como principal objectivo capacitar os jovens para o exercício de novas profissões e desenvolvimento de actividades produtivas e comerciais, afastando-os de actividades ilegais em prejuízo dos recursos naturais do Parque.

3 – Luta contra a Caça Furtiva
A contagem aérea dos animais na Gorongosa mostrou que o crescimento da vida selvagem do Parque cresceu cerca de 40% nos últimos 3 anos. A Unidade de Luta contra a Caça Furtiva tem como responsabilidade a protecção da vida selvagem do Parque. Esta unidade é composta por 180 fiscais dedicados, exclusivamente, à luta contra a caça furtiva e à resolução do conflito homem-animal. Esta equipa patrulha todo o PNG associando-se às comunidades locais, através dos respectivos chefes, na tentativa da sua educação em relação a estes assuntos. O sucesso desta missão implica a realização de acções de treino contínuo e ajustamento permanente aos métodos usados pelos caçadores furtivos. Aumentar a capacidade de patrulhamento das áreas mais remotas, sobretudo na época das chuvas (Dezembro a Março) período em que vastas áreas do Parque ficam inundadas e por conseguinte inacessíveis.

4 – Educação “Clube de Raparigas”
Este projecto é extremamente importante atendendo a que as meninas são as mais afectadas pela pobreza. Dedica uma especial atenção à educação das adolescentes, à sua segurança pessoal, à nutrição e ao acesso ao planeamento familiar. Actualmente, 40% das mulheres moçambicanas, adolescentes entre os 15 e os 19 anos, já são mães e 1/3 deste grupo engravida antes dos 15 anos. As meninas e as mulheres jovens constituem 71% das novas infecções pelo VIH entre os adolescentes da África Subsariana. As mulheres moçambicanas são em grande maioria analfabetas (71%) e, por esse facto, têm poucas oportunidades de emprego fora de casa. Este número sobe para 81% nas áreas rurais ao redor do PNG. As mulheres jovens e as raparigas enfrentam barreiras únicas ao nível social. A falta de educação básica, a discriminação e a violência do género que as deixam especialmente vulneráveis ao VIH –SIDA. Em África muitas famílias retiram, prematuramente, as suas filhas da escola para as casar com homens mais velhos e, assim, assegurar o sustento familiar. A educação e emancipação das raparigas adolescentes e mulheres jovens é fundamental para a protecção da sua saúde e bem estar. No ano passado foi adoptado, por 192 países, uma declaração internacional no sentido de acabar com a pobreza extrema entre as mulheres, pelo que se torna urgente passar para a sua aplicação prática à escala mundial.

5 – Investigação dos Leões
Enquanto a vida selvagem do Parque Nacional da Gorongosa vai aumentando, o número de leões parece ter estagnado. A equipa de investigação está focada em analisar os factores que afectam o crescimento da população de leões, tais como: a composição e abundância de presas, genética, doenças e impacto humano (caça ilegal). Até hoje, o estudo abrangeu 20% da totalidade da área do Parque onde foram documentados mais de 70 leões. Agora, o estudo está a expandir-se para áreas inexploradas a norte do Lago Urema. Esta investigação também abrange outros carnívoros como leopardos e hienas. Foram colocadas com sucesso coleiras com sinal de satélite, em machos e fêmeas, que permitem segui-los de perto de modo a estudar o seu comportamento e hábitos. Para além das coleiras existem outros métodos de observação no terreno, como câmaras colocadas em pontos estratégicos e uma rede de colaboradores nos quais se incluem os fiscais e guias turísticos.

6 – Laboratório de Biodiversidade
O Laboratório é um novo e importante centro de pesquisa de actividades científicas e educacionais em Moçambique. Criado para explorar, documentar e proteger a biodiversidade do Parque da Gorongosa, este laboratório oferece oportunidades de investigação e formação, nesta área, para estudantes e técnicos de conservação ambiental em Moçambique. O funcionamento adequado do laboratório de forma a se atingirem os objectivos a que se propõe implica a disponibilidade de recursos adicionais, para além dos já investidos na sua construcção. Tais fundos são necessários para assegurar a aquisição de equipamentos e materiais complementares de utilização corrente e permanente e, igualmente, para a formação e treino de estudantes e estagiários, divulgação de resultados de pesquisas e trabalhos realizados no sentido da conservação de espécimes.

Aquilo que, na qualidade de português, mais me incomoda é ver a situação de enorme dificuldade económica, social e política em que Portugal se encontra devido, sobretudo, a má gestão política e administrativa enquanto, por esse mundo fora, vemos portugueses com enorme sucesso a trabalharem em áreas que vão do desporto à economia. É uma enorme satisfação saber que no Parque da Gorongosa está um português de seu nome Vasco Galante que, no quadro do desenvolvimento do Parque está a desenvolver um projeto de basquetebol destinado às meninas moçambicanas residentes no Parque.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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