QUINTA-FEIRA, 27-04-2017, ANO 18, N.º 6298
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
A Sociedade do Cansaço (artigo de Manuel Sérgio, 166)
15:51 - 30-10-2016
Manuel Sérgio
Segundo o Lypovetski da Era do Vazio, na era pós-moderna “todos os gostos, todos os comportamentos podem coabitar, sem se excluir, tudo pode ser escolhido, conforme o gosto (…), sem referências estáveis, sem coordenadas”. De facto, são muitos, no tempo em que vivemos, os que pensam que não existem valores universais a semear luz, nos caminhos por que andamos e, no caos axiológico que daqui nasce, mais descobrimos caprichos e ressentimentos e diletantismo mesmo do que um sério compromisso com o que é radicalmente humano. O filósofo germano-coreano Byung-Chul Han, no seu livro A Sociedade do Cansaço (Relógio d’Água Editores, 2014), na linha de Hannah Arendt tem uma opinião curiosa da sociedade atual: “a sociedade moderna, transformada em sociedade do trabalho destrói qualquer possibilidade de ação, pois reduz o homem a animal laborans, a animal trabalhador. A ação gera ativamente novos processos, ao passo que o homem moderno está entregue, de forma passiva, a um processo anónimo de vida. Até o pensar se degrada e se transforma em mero cálculo mental, em função cerebral. Todas as formas da vita activa, incluindo a produção e a ação, se reduzem ao nível do trabalho” (p. 33). E o ser humano, vivendo para o trabalho, limitando-se ao trabalho, como valor supremo, e julgando qualquer discussão filosófica um mero vazio especulativo, uma generalidade abstrata, descamba numa total ausência de crenças e de convicções, “A vida humana nunca foi tão efémera como nos dias de hoje. Contudo, não é só esta que é radicalmente efémera, como também o mundo enquanto tal. Nada nos garante duração ou estabilidade” (p, 34). Na perspetiva filosófica de Eduardo Lourenço, divisa-se, no nosso tempo, uma “ausência ontológica de um absoluto transcendente, que oriente e dê sentido à vida humana” e “a dominância de um sentimento trágico ou de uma cisão ontológica, entre o Homem e a Realidade, originada por essa ausência essencial” e portanto a “incapacidade humana contemporânea de gnosiologicamente se atingir a essência ou o fundamento do Ser” (Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, p. 254).

E continuemos com Byung-Chul Han: “O homem reage a esta vida nua e convertida em algo radicalmente efémero com a hiperatividade e a histeria do trabalho e da produção. A aceleração da nossa vida atual tem também muito que ver com esta ausência de Ser” (p. 35). E o filósofo volta de novo a Hannah Arendt: “O que fica por concluir no estudo de Arendt é que é precisamente a perda da capacidade contemplativa (que está em igual correspondência com a absolutização da vita activa) que leva em grande medida à histeria e ao nervosismo da sociedade moderna da ação” (p. 37). Para mim, o animal laborans (o animal trabalhador), que são as mulheres e os homens do nosso tempo, movimenta-se cansado, os olhos doentes de fastio, de uma vida sem sentido. Falta ao animal laborans a vita contemplativa. “A vita contemplativa pressupõe uma determinada pedagogia da visão (…). Aprender a ver significa acostumar o olho à serenidade, à paciência, ao paulatino aproximar das coisas, isto é, educar o olho para uma atenção profunda e contemplativa, para uma visão lenta e morosa. Este aprender a ver seria o primeiro estádio preparatório para a espiritualidade. É necessário aprender a não reagir de imediato a um impulso, a fazer uso dos instintos que travam ou inibem as reações. A falta de espiritualidade e a vulgaridade baseiam-se precisamente na incapacidade de oferecer resistência a um impulso” (p. 38). Mas não é este o modo peculiar de existir, de habitar o mundo e de relacionar-se com o Homem e a Natureza do homem hodierno? Não é este o modo peculiar de viver de um homem que reduziu o Ser aos entes e mais parece tão-só um objeto da política e, como tal, reificado, manipulado, produzido? Não é este o modo peculiar de uma cultura que proclama o “fim da metafísica” e portanto o surgimento da dimensão crepuscular do pensamento? No entanto, por mais que o esqueçamos, por muitos que sejam os viajantes refastelados em sibarítica indiferença - a consciência integral da experiência supõe vita contemplativa, quero eu dizer: tempo para a contemplação e a meditação.

De facto, o pensamento atual tem uma dimensão crepuscular? Poderemos lembrar, a propósito, o que Hegel nos disse, em célebre passagem do Prefácio aos Princípios da Filosofia do Direito: “é apenas no início do crepúsculo que a ave de Minerva (a Filosofia) levanta voo”. Chegou , portanto o tempo de criar, no Desporto, um pensamento novo, onde a fisiologia, sendo muito, não seja tudo. Porque a objetividade que dizem assim alcançar-se transforma-se em objetivismo e este continua a fazer das “razões do coração” pura metafísica, simples poesia, para recitar na mansuetude de noites românticas. Assim, não são ciência, nem a tristeza, nem a ternura, nem o amor, nem uma alegria flamejante, que não se esconde. E, no entanto, existem! E, se existem, porque não podem ser ciência? Na obra (que muito admiro, aliás) Conhecimento e Interesse, Habermas distingue três blocos fundamentais de ciências: as Ciências da Natureza (empírico-analíticas, positivas, de pendor físico-matemático), as Ciências Humanas (histórico-hermenêuticas) e as Ciências Críticas (com interesse emancipativo, visando a transformação da sociedade e um grau mais complexo de humanização). Só que há muita gente que só reconhece estatuto científico às Ciências da Natureza. E lá fica sem caráter científico uma norma moral, a sentença de um juiz, o conselho de um psiquiatra ou até de um pedagogo! No Desporto, conheci fisiologistas, adeptos de um cego “fisiologismo” que, no estudo do ser humano, proclamavam uma guerra aberta natureza-cultura. Ora, este reducionismo significa, hoje, distração ou ignorância. “Eu sou meu corpo”, quero eu dizer: tudo o que é humano está no corpo. Citando de cor Teilhard de Chardin, acrescento: “A matéria destila espírito”. Assim, quando pratico uma qualquer atividade corporal não é só o biológico que eu trabalho, mas o homem todo!
A Educação Corporal (vulgo Educação Física) é portanto a educação da complexidade que o ser humano é. A força, a velocidade, a resistência, a impulsão, etc., etc. não podem substituir a “força” das qualidades espirituais e mentais – como estas não podem substituir aquelas! A Educação Corporal só tem sentido quando, centrando-se na técnica, ou na tática, de um desporto, visa a educação integral da pessoa. No treino desportivo, deverá acontecer outro tanto, porque há espírito no treino de dominância física, como há físico no treino de dominância espiritual e mental. “O desporto escolar tem de estar presente nas transformações por que a Escola deverá passar”. Assim mo disse o atual Secretário de Estado do Desporto e da Juventude, Dr, João Paulo Rebelo. Sábias palavras que, imediatamente, aplaudi. Porquê? Porque há demasiado ensino, na Escola, que não prepara para a vida, mas tão-só para os exames. E há mais vida, para além dos exames! A Escola deverá dar a primazia à formação sobre a informação, ao desenvolvimento da personalidade sobre a simples transmissão de conhecimentos, ao ser sobre o ter. E, para tanto, o jogo e o desporto podem desempenhar papel primacial, pois que nos ensinam a converter as dificuldades em possibilidades. Porque o desporto é um dos aspetos do “movimento intencional da transcendência”, ou da motricidade humana, nenhuma disciplina escolar pode ombrear com o desporto no exercício da vontade, da capacidade de sacrifício, de um agonismo que é simultaneamente competição com os outros e connosco mesmos. E também de um ludismo, de uma confiança, de uma solidariedade, onde a alegria de viver sobrenadam. No meu modesto entender o homo faber precisa do homo ludens para humanizar-se. Na Sociedade do Cansaço, o Desporto, quando o Homem assim o quiser, parece-me a atividade de pendor mais antropológico e civilizador, que eu conheço. E assim por que não converter o desporto, no saber primeiro da educação? Porque são de mais valia os conteúdos de ordem cognitiva do Desporto, no cotejo com as outras disciplinas?... Por esta razão, sobre as mais: porque é mais uma sabedoria do que um saber, porque é pretexto para se pensar a vida humana, para agir em direção a uma vida mais humana.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

comentários

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kgb3
30-10-2016 16:24
Ohhh Sr professor !!!! Ja tinha saudades suas e do seu saber escrever sobre assuntos que ninguém sabe mais que o Sr Professor! Onde anda o seu amigo e catedratico Jorge Jesus ! Aquele que tem a universidade da vida , nao é Sr professor ? MAnde lhe cumprimentos meus !

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