SEGUNDA-FEIRA, 27-03-2017, ANO 18, N.º 6267
Aníbal Styliano
Espaço Universidade
Futebol - Uma outra face (artigo de Aníbal Styliano, 3)
15:39 - 26-10-2016
Aníbal Styliano
Além do brilho, do êxito, do destaque social e mediático, inerente aos “craques de outro mundo”, das festas e condecorações, das transferências de sonho às entrevistas “glamourosas”, há várias gerações de futebolistas (de desportistas e de cidadãos em geral) que vão engrossando uma numerosa equipa que tenta resistir, superar dramas, alguns bem dramáticos.

Sem abordar alguns dos casos mais publicitados de jogadores para os quais a vida (e não só) se tornou um tremendo obstáculo, por vezes previsto mas tardiamente anunciado, prefiro analisar a multidão anónima, muito real, que teve um sonho de infância, a quem entregou todos os seus esforços e capacidades, com fundadas e reconhecidas expectativas mas cujo resultado não correspondeu à promessa.

Que possa servir de alerta para diálogos em família, com amigos, sem esconder as realidades aos jovens, para que as decisões possam ser mais refletidas; pelo menos, conhecerem alguns dos riscos.

Do estrelato à indiferença e fracasso, do sucesso às dificuldades inultrapassáveis, vai uma distância mínima, uma indefinida “sorte” ou um momento decisivo e determinante.

Conheci colegas talentosos, geniais, infalíveis, promessas que eram certezas e outros que evidenciavam menos qualidades mas mantinham vontade e esforço para tentar atingir o “Olimpo”.

Certamente, algumas promessas se cumpriram e foram fabulosas certezas mas também o inverso…

Uma minoria ganhou e ganha milhões e uma multidão de outros jogadores, com imenso valor, ficou e fica pelos “tostões”, por oportunidades perdidas, por experiências fracassadas: por “azar”, culpa própria, poucos escrúpulos de terceiros…

Ainda hoje, tal como há cerca de 5 décadas não consigo entender/descobrir onde está e a que se deve o “clic” que muda o mundo de cada um.

Futebol é bola, é arte, é paixão… Todos vemos e sentimos isso.
A porta do êxito para uns ali tão perto, para uma esmagadora maioria é tão inacessível, sem se entenderem as razões!

Lesões, oportunidades mal geridas ou desperdiçadas, azares, complicações, más opções, desequilíbrios, exageros e até “algumas pequenas loucuras”, assim como a utopia de pretender o mundo como se “quer e pronto!”

Muitos elogios precoces, “demasiada complacência com birras”, tolerância exagerada para com irreverências (que são simplesmente faltas de educação), ignorância com vaidades mesquinhas e tiques grosseiros, alimentados e apoiados, numa idade onde o tempo não parece ter limites, mas tem memória e que memória!

A forma como cada um vai organizando os seus talentos e competências, os momentos para escolhas e decisões oportunas, podem facilitar ou impedir a superação dos “muros” que surgem de forma imprevista.

O que fazer? Como fazer? Como utilizar o futebol? Eis algumas das questões.

Da reduzida percentagem de privilegiados nada a acrescentar a não ser desejar que saibam crescer sempre com inteligência e bom senso: parabéns e felicidades. Que consigam evitar desequilíbrios e excessos de consequências trágicas.

Ainda hoje, receio que talentos atuais, mesmo em equipas de enormes dimensões, estejam a repetir passos com memórias preocupantes e com resultados dramáticos, alguns sem retorno.

Um competente gestor de carreira poderia ajudar a minimizar tamanhos riscos e inevitabilidades.

Há “filmes” que nunca se deviam poder repetir!

Os outros (elevado número que não cessa de aumentar) causam sempre certa angústia mas também a mobilização de esforços para que a solidariedade nunca perca espaço, nunca fique em situação de “fora de jogo”.
Ingratidão e esquecimento não devem integrar ADN de desportistas.
São muitas as dificuldades (infelizmente comuns a muitos cidadãos, tenham ou não jogado futebol) e cada vez mais complexas e duradouras.
Pobreza, desequilíbrio emocional, desestruturação familiar, doença, ausência de perspetivas e capacidades para sonhar… Felizmente há sempre amigos, “equipas”, “veteranos”, que se juntam, que reforçam laços de colaboração para afirmar presenças.

A saúde implica gastos com valores inesperados e inexistentes, a solidão é má conselheira e contribui para degradação – não faltam problemas quando a bola roda para trás.

Mas o futebol descobre talentos e afetos que, sem fazerem perguntas, descobrem eventuais soluções e conseguem algumas pequenas vitórias que trazem de volta sorrisos, memórias e confiança.

Tanto talento desperdiçado!

Tanta gente que se aproveitou de ingenuidades, de imaturidades, de ilusões facilitadas, tantas promessas que enlouqueceram e deixaram um deserto árido e trágico.

Tem de ser possível evitar a continuidade desses dramas humanos. Há quem faça por isso diariamente, no anonimato, realizando “jogos” fantásticos…
O futebol é e foi sempre um espaço onde se fazem muitos amigos que, quando se reencontram, mesmo após vários anos de distância, concretizam viagens num tempo feliz, “regressando aos treinos”, aos golos de perfeição que, apesar de momentâneos, são sempre uma eternidade saborosa.

Os clubes têm uma palavra importante a dizer e muito mais a fazer, desde que os dirigentes mantenham a humanidade e coragem que receberam dos fundadores que agora representam.

Preservar a cultura do clube passa também por aí, por acarinhar a história e os protagonistas que vestiram e os que acompanharam aquelas camisolas nos dias em que “os deuses nunca estiveram loucos”.

Em todos os clubes a criação do dia da memória, da visita e tertúlia com os mais antigos e mais carenciados deveria ser hábito essencial marcado no calendário para sempre… Pelo menos, um dia por semana.

Nos chamados clubes grandes (pela enorme dimensão económica) essa atitude poderia dar origem à criação de uma “Fundação: Futebol Solidário”, espaço/tempo também para apoiar, a diversos níveis, quem mais carece e muitas vezes tanto deu.

Mais do que apontar e repetir casos já divulgados, é indispensável que o movimento associativo nunca perca as suas marcas mais importantes: amizade, solidariedade, equipa.

Os clubes enriquecem com histórias que não se perdem, as gerações convivem sem esquecimentos injustos, o entendimento permite reforçar o clubismo e a identidade.

Todos se sentirão melhores desportistas, mais campeões… E isso é mais uma grande vitória.

“Messi, Ronaldo, Neymar, são artistas fora do comum e, como tal, deverão admirar-se, estudar-se e aplaudir-se. Mas que neles se descortine também uma compreensão da sociedade de que são produto, que deles desponte «uma pedagogia da pergunta» inarredável: por que há tanto dinheiro para nós e tão pouco para a Educação, para a Saúde, para a Segurança Social?” (Manuel Sérgio, A des-moralização do futebol, a página da educação, Profedições, Lda, série II, n.º 207, 2016; 88)

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.


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