QUINTA-FEIRA, 30-03-2017, ANO 18, N.º 6270
Ética no Desporto
Duas Mulheres em Jogo (artigo de Manuel Sérgio, 164)
20:03 - 14-10-2016
Manuel Sérgio
Duas Mulheres em Jogo – Futebol e Liderança é um livro de Catarina Barosa e Beatriz Rubio, editado pela Tema Central, que se distingue por ser porventura, no nosso país, o primeiro a declarar, sem receio, que no futebol predomina o emocional, o sentimental e, com muita frequência, o caos e a irracionalidade. Como tenho convivido com um número apreciável de “agentes do futebol”, são muitos deles os que manifestam opinião semelhante, até com interessante imagética verbal, mas temem macular, ao de leve que seja, com discurso público, a indústria que os sustenta e às suas famílias. A Beatriz Rubio, ao contrário, escreve, sem receio: “O futebol é uma indústria, uma indústria que mexe com milhões. O seu produto/serviço são emoções. É um negócio de espetáculo. Todavia, a diferença em relação a qualquer espetáculo que possamos conhecer é a quantidade de dinheiro que nele se movimenta. Uma empresa, qualquer que seja o ramo ou atividade, tem obrigação de ser solvente e lucrativa. Sendo uma empresa que movimenta milhões, devia ser este o objetivo prioritário e, sem dúvida, o foco da sua atividade. Daí que, apesar de o foco em ganhar o campeonato do ano e, portanto, o tal foco no curto prazo, deveria transformar-se num foco a longo prazo, na continuidade e nos lucros do clube, nem que fosse por causa da responsabilidade social”. E continua, bem ancorada na realidade: “E quando falo da responsabilidade social refiro-me às emoções que o futebol desperta nas pessoas. As pessoas gritam, saltam, choram, vivem o futebol! Se a equipa ganha, ficam mais produtivas e otimistas” (p. 135). Mas, se o emocional constitui um elemento precioso na organização e gestão de um clube desportivo, não pode um dirigente ou um treinador descambar no anacronismo pitoresco das palmas e dos impropérios, sem a serenidade dos grandes princípios éticos, científicos e morais.

Beatriz Rubio, com comprovadas qualidades de trabalho e de ação, empresária de talento e de muitos êxitos, apresenta os seis pilares onde assenta o seu sucesso empresarial: “1. Foco no resultado a longo prazo, sem todavia perder de vista o resultado a curto prazo. 2. Ter uma gestão distintiva, com paixão, que faça a diferença, em relação à concorrência (…). Uma gestão com liderança. 3. Visão prática do negócio. Se não dá de uma forma, dá de outra. E com muita capacidade de inovação. 4. Capacidade de criar relações pessoais fortes, com rápida comunicação, de forma que todos conheçam os objetivos da empresa e os caminhos para lá chegar. 5. Compromisso efetivo das pessoas que nela trabalham, capacidade de tomar iniciativas, assumir riscos e exigir responsabilidades. 6. Capacidade para criar práticas empresariais, que ajudem as gerações futuras, para poder ser, na verdade, uma empresa de futuro”. E, convicta, remata: “Se queremos estabelecer um paralelo entre a gestão e o futebol, temos de ir analisando quais são os passos mais importantes na gestão e como eles se adaptam ao futebol e vice-versa. Falar de líderes na gestão, capazes de criar equipas em que todos querem trabalhar, tal como nos grandes clubes, onde todos querem jogar” (p. 135). Sem qualquer barroquismo, Beatriz Rubio mostra que já criou e compôs várias equipas, na sua indústria (que não é o futebol – trabalha no mercado imobiliário) e conseguiu unanimidade, coisa hoje rara. Mostra assim o seu talento ímpar e a sua personalidade de exceção, na arte da liderança. Escreve ela: “O futebol tem toda uma vida e uma complexidade, fora do jogo,. Tal como nas empresas. O jogo em si não é o mais importante, é sim o mais visível e o que materializa todo o trabalho anterior”. E, dando continuidade ao seu trabalho profissional de todos os dias, aconselha de coração entre os lábios: “Se vive como espectador, pode vibrar, pode irritar-se, mas nunca o jogo depende de si, pois não é você a fazer opções, são os jogadores e aí tem de se adaptar ao que venha como resultado. Eu já vivi dessa forma e decidi que a minha vida, a minha empresa, seria eu a vivê-la, a decidir o jogo que faria pois, apesar de vibrar com a bola do futebol, vibro muito mais quando sou eu a chutar a bola (…). Esta é a sua vida, jogue como se ela fosse o último jogo de um campeonato, entregue-se, passe ao colega, ame, divirta-se, desafie-se, vá ao seu limite… pois este é o melhor jogo que existe e o mais importante, O JOGO DA VIDA, onde não é espectador, mas sim o jogador, líder ou grande herói dos seus resultados. Decida-se! Comprometa-se e atue!” (p. 174). Beatriz Rubio surge, neste livro, na exata dimensão intelectual e humana de um líder – que é, na sua próspera empresa! Vê-se, rapidamente, que se trata de uma pessoa de exemplar comunicabilidade e autenticidade e com a naturalidade expositiva e convincente de quem muito sabe porque muito viveu. Num tempo, como o nosso, de introversões avaras ou ressentidas, Beatriz Rubio demonstra, com naturalidade, a identidade entre o pensamento e o discurso. No meu modesto entender, a primeira grande virtude de um(a) grande líder. Mas o livro Duas Mulheres em Jogo – Futebol e Liderança apresenta uma outra autora, a Dra. Catarina G. Barosa, licenciada em Direito e em Filosofia e doutoranda em Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa. Traz consigo uma novidade: faz uma investigação epistemológica do Desporto (e portanto do futebol) fundamentada na Ciência da Motricidade Humana (CMH), o que me causou surpresa, não o escondo, pois que há um esforço enorme de esconder a nova teoria da motricidade humana e de continuar a acenar triunfalmente, orgulhosamente, para teorias que o tempo já sepultou.

E chega ao ponto de oferecer-me este simpático pedaço de prosa: “Tive a enorme sorte de começar as minhas leituras futebolísticas (…) pelas obras de Manuel Sérgio. Em primeiro lugar, senti uma enorme identificação, no que diz respeito à forma como expressa o seu pensamento, fá-lo com uma linguagem de matriz filosófica, recheada de boas metáforas e outras figuras de estilo, que mostram quão apurado é o seu saber e a sua visão poética do mundo. Percebi, nesse momento, que tinha começado bem o meu percurso e, daí em diante, considerei que podia modestamente ajudar a construir alguma coisa que pudesse mostrar-se útil para o mundo das organizações e do futebol. Para mim, sem a leitura de Manuel Sérgio, não entenderia o futebol de maneira tão nítida” (p. 38). Numa encruzilhada de saberes, diante de um feixe de inclinações, naturais numa licenciada em Filosofia que é jurista, a Dra. Catarina Barosa escolheu, como saber estruturante e regulador, para o seu livro e a sua tese de doutoramento (que mereceu o nihil obstat do seu orientador, o Prof. António de Castro Caeiro) a CMH. Não, não mostrou inclinação, como “arqueologia problemática”, pelo biologismo reinante. Está, se bem penso, no caminho certo. O paradigma científico da CMH e portanto do Desporto só nas ciências hermenêutico-humanas poderá encontrar-se. Porquê? Porque o seu objeto de estudo é o ser humano! Só o pudor me proíbe adjetivar, como inteiramente merece, a Dra. Catarina Barosa, mas este livro (oportuníssimo e só ao alcance de duas mulheres de grande erudição) fala por ela. A partir de agora, Catarina Barosa e Beatriz Rubio poderão ombrear com o que de melhor apresenta a nossa crítica (a nossa investigação científica) desportiva. Numa época de mútua suspeição, saudemos um livro que deverá considerar-se um dos marcos decisivos na transformação científica e social do nosso desporto.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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