DOMINGO, 30-04-2017, ANO 18, N.º 6301
José Neto
Espaço Universidade
Jogos entre seleções e … VIVA PORTUGAL (artigo José Neto, 38)
12:07 - 04-10-2016
Em vésperas de mais um encontro de seleções para a fase de apuramento do próximo mundial Rússia 2018, convido os nossos estimados leitores a uma reflexão crítica circunstanciada a uma visão cultural, educativa e social do futebol.

Pelo facto da modalidade ter ressurgido a partir da capacidade criativa e adaptativa de gente ligada à educação e cultura a conduziu a um estado emblematicamente universal, sem esquecer que foi em 1848 na Universidade de Cambridge que num encontro entre universidades mais representativas do momento, catorze estudantes propuseram as primeiras regras uniformizadas. Até que em 26 de Outubro de 1863, onze dirigentes provindos das universidades de Eton, Cambridge, Oxford, se reuniram em Londres na Freemaison´s Tavern e fundam a “Football Association”, codificando as principais regras e a que o mundo jamais deixou de aderir de forma tão empreendedora quão entusiástica.

“Há duas grandes razões que ajudam a explicar a popularidade do Futebol: uma o teor transgressivo e bizarro do seu padrão gestual, isto é, o facto de este desporto, ao contrário dos demais, ser jogado com os pés, as extremidades mais afastadas do nosso mediador da consciência que é o cérebro e, por isso mesmo, uma das partes do corpo porventura mais negligenciada. Ao invés as mãos simbolizam desde sempre, o poder. Ora, integrar a atividade dos pés no desígnio inteligente com admiráveis manifestações de beleza e precisão é algo que surpreende e fascina. A outra prende-se com a sua simplicidade de processos e de normas – qualquer pessoa entende imediatamente as regras e a intencionalidade deste jogo fantástico” (José Antunes de Sousa – Desporto em Flagrante, Livros Brasil, 2010).

A permanente resistência no que respeita à mudança ou alteração criteriosa das suas regras por parte da Internacional Board, confere-lhe também uma acentuada singularidade, uma vez que as sucessivas modificações poderiam provocar uma desencorajante diminuição da margem aleatória e incerteza do resultado (Daolio, cit. Costa, 2005).

Todos estes fatores relevam o forte impacto social que o Futebol possui, nos diversos países, sendo assim um reflexo de expressão cultural de um povo. Cada estilo de jogo acaba por ser produto das idiossincrasias em que se envolveu. A preservação dos traços identitários de cada local são fundamentais para que o Futebol mantenha as suas caraterísticas genuínas e, definidoras dos seus “futebóis” (Lobo, L.F.; 2002).

Poderemos, por isso, caraterizar por exemplo, as diferentes formas de jogar como decorrentes de um determinado contexto social, educativo e cultural, dum tipo de sociedade que lhe dá suporte. Anotamos alguns exemplos mais justificativos:

Argentina: os jogadores apresentam algumas características – tipo, tais como: uma grande voluntariedade e entrega ao jogo, aliada a uma boa capacidade atlética e visão de jogo, qualidade técnica superior, habilidade e objetividade que partilham como os europeus. Exemplos: Leonel Messi; Simeone; Sensini; Maradona; Valdano; Saviola; Zanetti; Lisandro Lopez, etc.

Brasil: jogadores com grande capacidade criativa, com alto pendor ofensivo, mas de fraca objetividade e uma elevada tendência egocêntrica, fazendo valer a sua máxima característica no toque de bola criativo como primado da arte e da genialidade. Exemplos: Pelé; Romário; Garrincha; Zico; Ronaldinho Gaúcho; Robinho; Neymar, etc.

Itália: jogadores com elevada qualidade na leitura de jogo e sua compreensão tática. Pragmáticos, objetividade de função e sentido coletivo aliada a uma elevada capacidade técnica e habilidade. Exemplos: Baresi; Paulo Maldini; Pirlo; Nesta; Baggio; Del Piero, etc.
Holanda: normalmente os jogadores deste país apresentam uma grande capacidade técnica aliada a uma excelente leitura de jogo, objetividade e rapidez de execução, resultando num Futebol coletivo e de grande sedução. Exemplos: Ruud Gullit; F.Rijkaard; Van Basten; M.Overmars; D.Bergkamp, etc.

Inglaterra: jogadores muito fortes do ponto de vista atlético, com grande tendência ofensiva e que fazem do passe à distância a sua marca, acompanhada dum elevado pragmatismo acompanhado pelo respeito às regras do fair play e lealdade, desprezando qualquer tipo de situação injusta que possa ter ocorrido. Exemplos: Bobby Robson; M.Ferguson; B.Charlton; D.Backam; F.Lampard; W.Ronney; M.Owen; Gerrard, etc.

Alemanha: jogadores com grande porte atlético, sendo muito fortes no aspeto coletivo. Registam uma notável capacidade posicional, com muita agressividade e boa visão de jogo, aliando a eficiência à forma objetiva de bem jogar. Exemplos: F.Beckembauer; F. K.Rummenigge; J.Klinsman; L.Mattaaus; S. Effenberg; Podolski; T.Muller, etc.

Portugal: é dos poucos países que rivalizam com o Brasil no que concerne à produção de jogadores com capacidade de improvisação, com elevado espírito de jogo ofensivo, capacidade técnica elevada e improvisação. A pouca objetividade e algumas características do individualismo não destroem a espetacularidade do criativo e do imaginativo. Exemplos: Eusébio; Fernando Gomes; Luís Figo; Paulo Futre; Chalana; Rui Costa; Cristiano Ronaldo; Ricardo Quaresma, etc.

O Futebol português, (segundo Lobo, L.F.; 2002), foi fortemente influenciado pela miscigenação, resultante da inclusão de jogadores das ex-colónias. O Futebol português “ tem o cheiro de África e do Brasil advém-lhe o toque, o bailado “, como gostam de referir os analistas, caraterizando-se pela dominância dos aspetos técnicos, pelo passe curto, a desmarcação constante e pelo improviso dos jogadores.

A dinâmica imprimida pelas formas de jogar, implica algumas referências que não podem ser separadas do viver das sociedades que lhe estão associadas. Podemos por isso dizer que o modelo latino é normalmente caraterizado como sendo representativo do “romantismo”, revelando um estilo de jogo com base no domínio de posse de bola, explorado pelos passes curtos, ancorado na virtuosidade individual, procurando o espetáculo assente numa elevada capacidade técnica e criatividade (Soares, A; 2002). Itália, Portugal, Espanha e França são exemplos.

Contudo, a França, à medida que começou a receber alguns jogadores provindos da África negra, ilhas do pacífico e suas antigas colónias, foi modificando o seu padrão de jogo. O grande sucesso do Futebol francês foi de facto ter recebido essa corrente migratória que lhe ajudou a conferir uma identidade muito própria.

A Itália manteve-se fiel às suas raízes. O seu mundo reserva-se pela manutenção do estilo. Por isso o Cattenacio continua a fazer sentido, sendo a expressão da sua mais genuína escola.

Por outro lado, o Futebol anglo-saxónico tem como premissas a aplicação dum estilo de jogo fundamentado na força físico-atlética, capacidade muscular, alguma falta de improvisação, mecanizado e com algum débito imaginativo.
Voltando-me a reportar ao Futebol latino e no que concerne à vizinha Espanha, verificou-se que durante muito tempo prevaleceu um Futebol de “fúria” espanhola, expressão utilizada pela primeira vez por Paco Bru nos jogos de Antuérpia em 1920 em que a seleção espanhola se sagrou vice-campeã. Mais do que um estilo de jogo, era um estado de alma. As atmosferas regionais geraram um Futebol híbrido, onde existiam diferentes escolas. No entanto novas gerações imprimiram ouros conceitos e por consequência outras influências. Assim é que o Basco é diferente do Andaluz e este do Galego e do Catalão, sem contudo perder uma ideologia técnica latina, verdadeiramente transversal.
Como última nota de referência, importa justificar o Brasil em que o Futebol representa uma atividade que tem sobre a sociedade um efeito tremendo, constituindo-se a sua prática como foco de eleição da população.

Magno et al. (2007) salienta que o modelo de vida dos brasileiros se conjuga com o estilo brasileiro de jogar, onde o jeitinho e a malandragem se manifesta, podendo ser celebrado como estratégia de sobrevivência social. Netto, (2005) refere esta paixão com as seguintes palavras: “o menino ao nascer ganha nome, religião e um time de Futebol. Mal começa a andar e já chuta bola com uniforme do seu clube de preferência.”. Inicia-se assim a construção dum facto sócio - histórico que mescla a identidade pessoal e coletiva do chamado torcedor.

Como vimos neste relato sucinto, contemplando alguns exemplos mais significativos, a exploração das diversas formas de jogar está de acordo com a adaptação às condições sociais e culturais de vida vigentes, pela sociedade que lhe está subjacente. Por isso é que os padrões de jogo se vão modificando à medida dos índices migratórios de jogadores oriundos de países de diferenciadas culturas, não deixando também de se equacionar o facto da participação cada vez mais operante do jogador português no mundo envolvente.

Nesta conformidade e à medida do tempo, novos conceitos se vão ministrando. Os estilos de jogo vão adquirindo diferentes rostos ao longo do tempo, nestes “estádios” com o carimbo da globalização.

Não obstante algumas referências marcadamente positivas pelo conhecimento generalizado e daí mais profundo, algumas inquietações se perfilam perante a ameaça da globalização, muito em especial no que concerne ao estatuto da representatividade máxima dum país, como seja a Seleção Nacional, hoje felizmente não tão ameaçada por duplas nacionalidades de contorno duvidoso, como outrora aconteceu.

Mas, quer queiramos ou não, a mundialização da nossa vida coletiva é irreversível. (Neto, J.; Futebol de Corpo Inteiro, Prime Books, 2012).

Uma nota final para a EQUIPA DE TODOS NÓS – na luta para o apuramento do próximo mundial Rússia 2018.

Reporto o meu sentimento inscrito no texto “ o meu Europeu 2016 com Portugal no coração” e que “A Bola”, através de abola.pt, muito me honrou em o publicar:

Portugal Campeão Europeu 2016. E agora, qual o futuro?!... Como muitas vezes o refiro – claramente um aumento crescente de responsabilidades, pois a recompensa de um trabalho de excelência feito, está na oportunidade de o repetir … e se possível, melhorar!...
No passado repousam as recordações, no presente as convicções, no futuro … uma sagrada esperança!... e a propósito, citando o ensaísta francês Victor Marie Hugo (1802-1885) : “ o Futuro tem muitos nomes – para os fracos é inalcançável. Para os temerosos o desconhecido. Para os valentes é a oportunidade!”…

VIVA PORTUGAL


José Neto – Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol;Formador de Treinadores F.P.F. – U.E.F.A.; Docente Universitário.

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