SEXTA-FEIRA, 23-06-2017, ANO 18, N.º 6355
Aníbal Styliano
Espaço Universidade
Formação de treinadores de futebol em Portugal (artigo de Aníbal Styliano, 2)
16:54 - 28-09-2016
Aníbal Styliano
Quando a razão, a cultura e a inteligência se entendem em liberdade, a superação é sempre possível e inevitável.

INTRODUÇÃO

“O futebol vem do fundo do tempo… No princípio, portanto, era a bola. O jogo da bola…” (Álvaro Magalhães, História Natural do Futebol, Assírio & Alvim, 2004;13).

O sonho começou com a bola e um espaço infinito. Vieram jogadores e “fintabolistas” (como definiu Mia Couto em Pensageiro Frequente, Caminho, 2010; 12).

Surgiram treinadores, árbitros, adeptos, canções, cores, bandeiras, golos e nunca mais se parou.
Nasceram clubes.

Foi a vez dos dirigentes, das regras em movimento, das instituições nacionais e internacionais e passado um tempo de crescente desenvolvimento, paradoxalmente, entrou-se numa fase complexa, regressiva.
Tinham chegado os políticos, as superestruturas, os especialistas de burocratização kafkiana, os técnicos de tudo, o marketing, os investimentos: houve quem dissesse que chegaram a pretender mudar a designação de futebol para investbol… Mas nunca o conseguiram.

Falemos de Formação.
Em particular, da formação de treinadores de futebol em Portugal, em momentos distintos:
- A fase inicial dos pioneiros fantásticos e do desenvolvimento sustentado.
- A fase da estatização, o atual caótico e triste estado.
- Conclusões, sugestões e caminhos para uma fantástica missão.

1- INÍCIO, PIONEIROS E DESENVOLVIMENTO

Poderemos sinalizar o início dos cursos de treinadores de futebol organizados pela FPF na primeira metade do século XX:

- 1.º Curso de Treinadores de Futebol, a nível nacional: Em Lisboa (1944) onde o grupo de formadores incluía o Tenente-coronel Ribeiro dos Reis, Ricardo Ornelas, Eng. Pires Ventura, Dr. Mesquita Guimarães e Dr. Tibério Antunes, respetivamente para as áreas disciplinares de Leis de Jogo, Táticas, Técnica, Traumatologia e Medicina Desportiva. Só passados seis anos decorreu o segundo curso.

- No Porto (1954) decorreu o Curso Regional de Formação de Treinadores de acordo com o plano elaborado por Cândido de Oliveira, onde o grupo de formadores integrava o Padre Marcelino da Conceição, Dr. Paulo Sarmento, Dr. José de Sá, Dr. José Braga, Dr. Albérico Rúber, Dr. Abel Portal, Prof. Almerindo Bentes, Prof. Délio Tamegão, Cândido de Oliveira, Fernando Vaz, Artur de Sousa, Albertino Ferreira de Andrade, David Costa, Manuel Monteiro, Justino Lopes, Artur Baeta. Entre os diversos formandos estiveram José Maria Pedroto, Jacinto Mestre, Júlio Pereira, Jorge Porcel e José Rafael.

Pedroto, que depois frequentou com distinção cursos de formação de treinadores em França, foi também um dos grandes impulsionadores da formação de treinadores em Portugal.

A partir da década de sessenta do século passado, a formação começa a ter planos sistematizados e, na década de oitenta, inicia um movimento imparável de qualificação rumo à excelência com cursos em todas as Associações de Futebol do país, sempre sob a égide natural da FPF.
Com objetivos definidos, com realidades muito bem identificadas e com perspetivas de futuro, foi-se avançando, reforçando bases (sem destruir alicerces) e evoluindo para um plano de carreira estruturado, em vários níveis, progressivos, numa experiência inovadora e reconhecida na Europa.

Começou a fase decisiva:
- Potenciar conhecimentos, partilhar saberes, promover investigação, fornecer novas aprendizagens e reflexões sobre o futebol, a sua especificidade, a evolução de tendências e de metodologias do treino, ultrapassando hábitos antigos de recorrer a imitações lineares de outras modalidades.
A especificidade passou a ser um conceito seguro e fundamentado.

Graças a sucessivas experiências, a colaborações de enorme qualidade e empenho, criaram-se cursos pragmáticos, sem excessivo academismo teórico, resultando num modelo ajustado, integrado e qualificado com conhecimentos e técnicas avançadas.

O aprender a aprender surgiu espontaneamente (fruto de muito trabalho) consolidando um princípio pedagógico basilar - criação do próprio modelo.

Definiram-se conteúdos, selecionaram-se objetivos e formadores, consolidaram-se direções pedagógicas, uniformizaram-se normas e procedimentos básicos e fundamentais, nunca limitando divergências de conceitos.

Disciplinas nucleares e complementares coexistiam num plano adequado, harmonioso, teórico e prático, ajustado ao futebol, crescente em termos de aprofundamento da investigação, mas sempre específico.
Condições de admissão precisas, protocolos de equiparação claros, definição de regras e de regulamentos rigorosos e imprescindíveis, criação de materiais básicos de apoio, formadores diversificados, protocolos com a ANTF e instituições de ensino superior, bem como com personalidades de mérito reconhecido, tornaram-se naturais.

O modelo de avaliação, transparente e exigente, foi evoluindo para exames no final de cada módulo disciplinar, sempre com a presença dos elementos do júri definidos no respetivo regulamento.
Em 1997, iniciou-se um processo inovador de cursos de formação de formadores, dirigido pelo IEFP que ficou como uma marca irreversível na qualidade dos cursos.

E assim se foi construindo um edifício pedagógico coerente e que produziu resultados muito positivos e prestigiantes a nível nacional e internacional.

Falo do que conheci, como diretor técnico e pedagógico ao longo de cerca de duas décadas na AF do Porto, mas também do excelente trabalho desenvolvido pelas outras Associações Distritais e Regionais de Futebol e pelos Serviços de Formação da FPF.

Partilha foi sempre uma marca evidente.

No final de cada curso, era enviado para o Setor de Formação da FPF um relatório com a caracterização da ação, mapas de presenças, horários, material produzido e distribuído, relação de inovações pedagógicas ocorridas, episódios ocorridos ou visitas oficiais, provas de exames e pautas finais com resultados obtidos.
Essas pautas e respetivas atas funcionavam como certificação legal da habilitação adquirida. O processo ficava concluído após a FPF aprovar os documentos enviados e proceder à entrega dos Diplomas em cerimónia específica.

Este modelo, incluiu nos dias 4 e 5 de Outubro de 2000, na Figueira da Foz, a primeira jornada para formação de formadores, onde se debateram os “Desafios do Milénio” e se definiram os “Caminhos para a Formação” de acordo com o “Plano Nacional de Formação” aprovado pela FPF. Foi aprovado o Convénio e respetivo plano para apresentar à UEFA.

Atingiu-se um ponto de excelência ao definir planos para médio prazo, organigrama do Departamento de Formação, normas e procedimentos, conteúdos programáticos, bem como as inerentes cargas letivas e discutiram-se princípios e metodologias, planos de formação de formadores e ações para todos os agentes desportivos do futebol – dirigentes, massagistas, árbitros, funcionários, secretários técnicos e outros.
Também se procedeu à credenciação da FPF como entidade formadora junto do INOFOR e ainda se elaborou uma proposta para a criação de um protocolo com o ministério da Educação para se criar um curso técnico-profissional no Ensino Secundário.

Tive a felicidade de integrar um fantástico grupo que organizou essa e mais ações e que produziu esses documentos, onde também colaboraram entre outros: Dr. David Sequerra, Prof. Joseph Wilson, Carlos Silva, Francisco Andrade, Prof. José Neto…

Para a FPF, a formação assentava num alicerce seguro, tinha uma dinâmica inovadora, consensual e estável.
Mas em formação há sempre necessidade de atualização, de correção.

Por isso, periodicamente se analisavam propostas de aprofundamento sem desvirtuar o conjunto que tanto custou a construir, envolvendo muitas e meritórias contribuições.

Cabe neste momento analisar um episódio revelador da nova forma de viver os cursos de treinadores da FPF que se realizavam nas instalações das Associações Distritais e Regionais de Futebol.

Para a área disciplinar de Técnica-Táctica e Metodologia de Treino, convidavam-se treinadores qualificados que tivessem ideias e experiências muito bem definidas sobre o futebol.

Num dado domingo, 12 de Maio de 2002, o Leixões Sport Clube (então na II.ª Divisão B Nacional - que antecedia a 1.ª e a 2.ª Ligas, correspondendo ao terceiro escalão do nosso futebol) foi jogar a final da Taça de Portugal ao Estádio do Jamor com o Sporting Clube de Portugal.

Foi um jogo fantástico, uma verdadeira festa de promoção do futebol e o Leixões, que jogou sempre “de igual para igual” com o Sporting, perdeu uma oportunidade soberana de marcar e, de seguida, o Sporting concretizou um golo e venceu o troféu.

Grande festa do futebol. Jogo memorável.

Liguei para o treinador do Leixões a dar-lhe um abraço e a elogiar a prestação da sua equipa que mesmo sem ter tido “a sorte do jogo” mereceu o reconhecimento unânime do futebol nacional.

Carvalhal, numa situação emocional sempre exigente, disse-me: “Queres que vá amanhã ao curso de treinadores, explicar como preparei este jogo?”

Logicamente, alterei horário, Carlos lecionou as 3 horas dessa segunda-feira e foi um momento brilhante, mais um, da formação de treinadores. Não só pela qualidade da intervenção mas pela partilha em como revelou a preparação de um jogo que todos viram mas de que desconheciam os pormenores.
Outras vezes com diferentes treinadores e amigos abordarmos questões desse género analisando, em pormenor, sucessos e derrotas…

Com esse modelo de cursos tínhamos mais exigências mas por isso mesmo podíamos inovar, assumir responsabilidades, despertando nos candidatos/formandos a vontade de querer saber mais, de dialogar mais, de pensar antes de falar e de compreender o que se quer e como se quer… ou seja, tínhamos Futebol.
Não havia Estado a impor regras distantes, gerais, vazias…

Havia liberdade e especificidade de quem conhece e gosta de futebol e nunca receia correr riscos pois os resultados são sempre ganhadores.

Como diretor pedagógico ou recorrendo quando necessário a colaboradores, tínhamos a possibilidade de nos inteirar se os conteúdos tinham ficado bem expressos ou se, por algum motivo, poderia haver razões para confusão; de imediato, fazíamos sentir as dúvidas ao formador de forma totalmente discreta… como se estivéssemos no “banco” a dar algumas indicações para melhorar o desempenho da equipa.

Nunca nesse tempo, um formador esteve sozinho numa sala com os formandos, sem ter um diretor pedagógico a coordenar, pessoal de apoio para controlar presenças e para resolver uma questão imprevista (meios audiovisuais, candidatos que se poderiam sentir indispostos), a relembrar algum aspeto administrativo ou funcional, a solicitar a máxima atenção e a apresentar devidamente o formador.


2- ESTATIZAÇÃO (MODELO AINDA EM VIGOR)

Propor a paragem obrigatória de cursos de treinadores de futebol durante 2/3 anos, apelar à denúncia (que chegou a existir) se alguma Associação arrancasse com essa intenção de continuar a dar resposta às solicitações emergentes dos clubes e dos candidatos, sem criar uma alternativa, é uma demonstração de incapacidade, de desprezo, de autoritarismo descabido.

Depois, erro sobre erro, foi criado um modelo pretensamente inovador, mas requentado com base em documentos (e reuniões), uns mais antigos e outros mais próximos, como por exemplo:

- Decreto-lei n.º 407/99, de 15 de Outubro que nunca chegou a entrar em ação e, só passados 10 anos foi regulamentado no Decreto-Lei n.º 248-A/2008, de 31 de Dezembro.

- Em 2000, em resposta à solicitação de pareceres sobre a nova legislação, pedida pelo Presidente da FPF, Dr. Gilberto Madaíl, enviei o meu parecer que seguiu também para o ministro da tutela do desporto, na época; houve ainda nesse ano, uma reunião em que participei, na cidade do Porto, juntamente com o Presidente da ANTF, José Pereira e o Dr. Vasconcelos Raposo, em representação do IND, na qual foi unânime o reconhecimento dessa legislação como totalmente inadequada e prejudicial para a especificidade e autonomia das federações desportivas.

- 2001, regulamentação do regime jurídico da Formação Desportiva, Formação de Treinadores, Perfis Profissionais, CEFD, Ministério da juventude e do Desporto.

- 2010, Perfis Profissionais de Treinador, Grau I; Grau II, Grau III, Grau IV. Programa Nacional de Formação de Treinadores, Instituto do Desporto de Portugal.

- Lei n.º 40/2012, de 28 de agosto. Estabelece: o regime de acesso e exercício da atividade de Treinador de Desporto; que a atividade de treinador de desporto, compreende o treino e a orientação competitiva de praticantes desportivos, bem como o enquadramento técnico de uma atividade desportiva, exercida como profissão exclusiva ou principal, de forma habitual, sazonal ou ocasional, independentemente de auferir uma remuneração; torna obrigatória a obtenção de Título Profissional válido para o exercício da atividade de treinador de desporto em território nacional; determina que o reconhecimento dos cursos, para efeitos de atribuição do título profissional, é da competência do IPDJ, I. P.

- Em 2015, a Confederação de Treinadores de Portugal (CTP), elabora uma “Reflexão sobre o Plano Nacional de Formação de Treinadores (PNFT) que na introdução é clara: “… foi histórica e decisiva a publicação do Decreto-Lei 248-A/2008 de 31 de dezembro…”.

A mesma entidade, no segundo parágrafo do ponto “1. Eixo – Lei”, afirma: “A Confederação de Treinadores de Portugal poderia ter a delegação de competências para fiscalizar e supervisionar todo o processo de formação de treinadores…”

Ficamos esclarecidos e dispensamos mais comentários a não ser aquela enorme imprecisão de consagrar a atividade de treinador como profissão, porquanto a esmagadora maioria ou são benévolos (não auferindo qualquer remuneração) ou então são profissionais de outros ofícios que também exercem a função de treinador.

Essa imprecisão e distanciamento da realidade revela muito da legislação aprovada (que esperamos seja alterada) tanto mais que a é a própria FPF a lamentar, em “Breves Notas” sobre esse documento da CTP que esta “… foi o principal mentor do PNFT junto da Administração Pública, dos dois Governos que são responsáveis pela sua implantação e ainda da Assembleia da República, num processo no qual as federações desportivas não foram ouvidas, contrariando o que estipula o Decreto-Lei n.º 248-B/2008, de 31 de Dezembro” (artigo 13.º -1 –a) “as federações desportivas têm direito… à participação na definição da política desportiva nacional”).

Inexplicável e sigilosamente, sem experimentar em universo reduzido, aplicam um novo plano de formação generalizado, desperdiçando o património formativo de qualidade que existia.

Por outro lado, nem tentam dialogar sobre eventuais aperfeiçoamentos como se se tratasse de um grupo restrito (quase clandestino) que envolveu nos mesmos interesses personalidades e entidades que, na minha perspetiva, não tinham legitimidade, nem democrática nem institucional, para tentar assumir um papel de parceiro organizador e controlador.

Refiro-me por exemplo à Confederação de Treinadores de Portugal mas não só.

De forma incrível e anacrónica, o IPDJ cria um regulamento “homogeneizado” para todas as modalidades desportivas e com uma componente de formação geral, comum, curricular – duas imperfeições concetuais e pedagógicas que revelam muito desse modelo e de uma presumível ação conjunta com alguns lóbis para os quais a necessidade de financiamento terá sido um dos principais motivos.

Finalmente, com tanta falha, tanta contradição, institucionalizam o Estado como entidade controladora e criam a cédula/título profissional como dupla certificação obrigatória (numa atividade onde a maioria não é profissional) destruindo a motivação da formação contínua com uma permissividade total perante o florescimento de um triste negócio que obriga os que menos podem a terem de pagar cursos e ações de formação, exigência de discutível legalidade na forma utilizada, para não perderem uma habilitação legalmente adquirida – motivação economicista perante o “deus mercado de ocasião”.

Como se pode sequer atrever a ameaçar alguém com a perda da habilitação legalmente adquirida? No mínimo, será constitucional?

Reduzir a formação contínua a esse negócio é um erro incomensurável e muito esclarecedor.

Quanto à formação de formadores, as poucas ações realizadas com muita improvisação não conseguiram cumprir as regras pois vários dos participantes tiveram de se ausentar, durante as sessões, para dirigir as suas equipas nas competições (teriam o dom da ubiquidade?).

Estágios, exigência do 12.º ano, RVCC (sistema de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências),” turbocursos” de nível IV, condições de acesso surreais (critérios dos 36 e 30 jogos como limite!), perfis dos formadores e muitas mais particularidades que já deveriam estar resolvidas com a alteração da lei.

Não é pelo exagero das cargas horárias ou estágios longos que se consagra a qualidade da formação.
Eficácia e eficiência conseguem-se com competência, com saber fazer e saber envolver.

O país não precisa de donos disto ou daquilo…precisa de transparência, de qualidade e de quem sabe mostrar o que vale sem se esconder nem servir interesses estranhos.

O desporto é isso mesmo, é revelar como se procura superar obstáculos…

No modelo ainda atual, o formador muitas vezes abre a porta da sala, prepara o material e sozinho com os formandos começa e acaba a sessão.

Que diferença e impessoalidade…como é possível?

Além de tantas imperfeições, dão ideia de desconhecer componentes da pedagogia, do protocolo e da prevenção.

Desconhecem a especificidade da formação e do futebol pois o sujeito da aprendizagem passou a ser o conteúdo escolhido, o formador e a procura de legitimar um modelo que nunca se conseguiu cumprir integralmente nos moldes em que foi criado (os ajustes e adaptações tornaram-se um hábito imparável não por razões pedagógicas mas por questões de funcionalidade).

Treinadores portugueses mesmo sendo campeões muito prestigiados no estrangeiro não podem treinar equipas dos nossos campeonatos porque não fizeram créditos (nem tiveram essa oferta/oportunidade)!
Já há quem consiga pela internet vender cursos para dar créditos; será verdade que basta ter o computador ligado a determinado site durante umas horas, pagar e já está?

E que dizer de uma inovação total – 2 em 1, ou seja, formandos inscreveram-se num “curso combinado” para frequentarem o curso UEFA Advanced e também o Élite Jovem, ou seja, o grau II e o grau III de forma imparável e sem as exigências de tempo que impõem aos outros candidatos – inovação ou outra coisa? Sabe-se é que o valor global, pago por cada aluno, ultrapassou vários milhares de euros…

A lei n.º 40/2012, de 28 de Agosto, criou muita confusão, incertezas diárias imparáveis, e além de desperdícios evitáveis, provocou a destruição de alicerces seguros.

Perseguiram a ilusão de que era possível, a partir do zero, construir tudo novo, promovendo a “Estatização”, a duplicação burocrática que todos anunciam querer vencer, mas nunca conseguindo resolver um único problema de fundo.

É uma lei que se “atraiçoa” que se contradiz, que necessita de muitos “jeitinhos” para se manter de pé… é uma lei imperfeita, incapaz, que merece ser reformada por incapacidade…

Repare-se em mais um exemplo de incumprimento e desrespeito: em 29.06.2016, o IPDJ publicou os Manuais de apoio Didático à Formação de Treinadores – pasme-se, unicamente da Componente de Formação Geral e somente contemplando o Grau I, tendo ainda o IPDJ informado que no decurso deste ano deverão ser publicados os restantes manuais para todos os graus (II, III – não aborda o nível IV porque esse depende da UEFA e dá muito nas vistas…).
Um processo que se quis inovador, excecional, “exportável” como chegou a afirmar um Vice-Presidente da FPF, em vez de se afirmar a nível internacional continua “às pinguinhas”, sem estruturação global coesa, arrastando-se triste e silenciosamente.

De 2012 até 2016, já passaram 4 anos, como foram resolvendo essa lacuna?

Confidenciaram-me mais alguns exemplos mas não consigo divulgá-los, pois o futebol, o desporto, a formação de agentes desportivos merecem-me muito respeito e admiração.

“Sobretudo, não desesperar. Não cair no ódio, nem na renúncia. Ser homem no meio de carneiros, ter lógica no meio de sofismas, amar o povo no meio da retórica”. (Miguel Torga, Diário, 1947)


3 – CONCLUSÕES, SUGESTÕES E CAMINHOS PARA UMA FANTÁSTICA MISSÃO

Podemos sempre confrontar as falhas mais impensáveis que um grupo de eventuais especialistas da formação de treinadores desportivos produziu. Certamente poderá haver razões diversas para isso.
Há porém uma que não se consegue superar nunca – a violação da coerência.
Revisitemos só alguns aspetos da lei 40/2012:

-Morte da especificidade. Regresso “às trevas”, ao tudo a monte e muita fé. Quando o mundo avança, quando a ciência prova e ajuda, há ainda quem pense em formação comum para modalidades tão diversas e todas específicas? Só isso devia ser suficiente para acabar com um modelo fora de prazo.

- Dupla certificação: Os candidatos aos cursos B/Grau II têm de apresentar cópia de Título Profissional e Diploma de Curso C (Grau I). O Diploma não chega? A FPF não envia ficheiros com as pautas e os resultados dos cursos realizados para a ANTF e para o IPDJ? Na época da informática obrigar a apresentar cópia de dois documentos que se referem ao mesmo revela desvalorização da FPF e estatização imperdoável e fora de tempo.

- “O título de treinador de desporto caduca sempre que o titular não frequente ações de formação contínua no período de 5 anos”. Qual a oferta de ações de formação que cobrem o país? São obrigatórias e pagas, mesmo a quem não aufere remuneração para treinar jovens ou seniores distritais! Não haverá outras formas de fazer formação contínua mais eficaz? Como certificam as ações, mediante um rigoroso processo de avaliação? Tenho dúvidas e gostava de não as ter.

- Estágio (Grau I) 550 horas – uma época desportiva. …”unicamente realizado em competições de “Futebol de 7” ou inferior…”. Como se consegue atingir esse limite de horas a treinar 2 ou 3 vezes por semana? O anterior nível I contemplava um estágio pedagógico curricular integrado (com apresentação e defesa de relatório específico), bem mais curto, que habilitava para adjunto em competições seniores; e agora, vamos ter nível I antigo a permitir ser adjunto de seniores e grau I novo a não o permitir?

- Condições de admissão. Só podem ter acesso ao curso praticantes ou ex-praticantes com mínimo de 36 jogos para futebol (30 para futsal, porquê? E se for atleta do futebol feminino? E se o treinador não o tiver convocado para jogar, como vai atingir os 36 jogos?). Claro que isto desapareceu da prática, mas não sabemos se também já foi apagado dos documentos…

Em síntese:
- Processo de formação incoerente e errado.
- Cursos excessivamente caros (com as “culpas” atiradas para a “troyka”), suspeição de puro economicismo, de mercado a funcionar para quem detém o poder pois não permitidas alternativas (monopólio anacrónico).
- Formação vertical e horizontal, nunca foram contempladas sendo uma área que já no modelo anterior carecia de maior aprofundamento; nem disso se lembraram. Recordo, entre vários projetos, o 1.º curso para treinadores de futebol jovem, em 1990, na AF do Porto, sob a direção pedagógica do treinador Costa Soares pela importância e pelas consequências positivas.
- Modelo de estágios desadequados e excessivamente longos.
- Públicos-alvo, outra das preocupações com experiências anteriores mas a carecer de maior aprofundamento (jogadores profissionais das competições profissionais, que horários? etc.).
- O sistema de RVCC necessita de esclarecimento transparente para evitar permanente suspeição.
- 12.º ano como exigência (já resolvida após grande polémica, mas sempre o mais silenciosamente possível), que caracterizou claramente o modelo atual e o lóbi presente. Incrível. Só Portugal, Holanda, Hungria e Luxemburgo têm o 12.º ano como escolaridade obrigatória e recente – claro que há gente que adora trabalhar para estatísticas… e há países que preferem trabalhar para as pessoas.

É muito difícil ser sintético neste tema, pois ainda vamos na ponta do iceberg em relação ao que destruíram e ao que criaram na formação de treinadores.

Podem ser apresentados mapas comparando os dois modelos de formação de treinadores. Facilmente se comprova a incapacidade do atual modelo de formação de treinadores.

A articulação do desporto, do movimento associativo, da escola com o governo, carece de planos verdadeiramente competentes à medida das possibilidades, realidades, capacidades e talentos.
Uma organização adequada evita desperdícios, porque consensual, justa e mobilizadora, sempre lutando pela vitória e pelo aumento progressivo de praticantes desportivos federados.

Trata-se de uma estratégia de vital importância, não para momentos e fotografias com ou sem medalhas, mas essencialmente algo que pode mudar estruturalmente a forma de vivermos e de nos desenvolvermos com estima, com solidariedade, com responsabilidade, com orgulho e sem minudências que só atrapalham e ficam muito caras.

É tão fácil voltar a sorrir e voltar a agir para que os espaços livres não voltem a ser ocupados por “pó, cinza e nada”.

“Culpados não existem, e sobretudo entre quem parecia lógico que o fosse. Todavia alguém terá de pagar, cedo ou tarde, o preço que a aparência exige para ter um mínimo de realidade. Esse alguém é bem conhecido: chama-se povo, o povo que efectivamente trabalha e para quem, como escrevia Goethe, a maioria das revoluções que se fazem em seu nome não significam mais do que a possibilidade de mudar de ombro para suportar a costumada canga.” (Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade, Círculo de Leitores, 1988;134/135)

Aníbal Styliano é professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.

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